Pobre corre mais risco de ter câncer e de morrer da doença

Pobre corre mais risco de ter câncer e de morrer da doença

Atualizado: Segunda-feira, 21 Novembro de 2011 as 2:09

Os pobres correm mais risco de ter e de morrer de câncer do que as pessoas de poder aquisitivo mais alto na América Latina e nos Estados Unidos. Essa é a constatação de especialistas desses países, que se reuniram, neste mês em Guadalajara (México), no workshop Cancer Research in the Media, promovido pelo National Cancer Institute, dos Estados Unidos.

Segundo Ignacio Miguel Musé, diretor do Programa Nacional de Controle de Câncer do Uruguai, apesar de os países latino-americanos passarem por um momento de transição, caracterizado pelo aumento da expectativa de vida e diminuição da mortalidade por doenças infecciosas e bacterianas, o modo de viver dos mais pobres ainda é um fator de alto risco para se adquirir vários tipos de câncer.

A constatação se justifica pelo grande número de casos de tumores que são vinculados às condições socioeconômicas e que têm menor incidência em países desenvolvidos, de acordo com Musé.

Só em 2008, foram diagnosticados quase 13 milhões de casos de câncer e 7,6 milhões de mortes por câncer na América Latina, de acordo com o Globocan 2008, levantamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a incidência e mortalidade por câncer no mundo. E em 2030, já se estima que serão mais de 20 milhões de casos - 63,4% vindos dos países mais pobres da região.

- Há uma variedade de cânceres frequentes em países pobres, ou menos ricos, que são o câncer de estômago, pela alimentação, de útero e de trompas, vinculados a vírus cancerígenos; câncer de bexiga, ligado a germes, e o de mama e de colo de útero, ligados a diagnósticos mais tardios, que chegam mais tarde a pessoas com menos recursos, ou que não tem como pagar o tratamento.

Comida, cigarro e sexo aumentam risco

O consumo exagerado de comida industrializada, o tabagismo e o sexo sem proteção, comportamentos disseminados entre os mais pobres em todo o continente, são outros fatores de risco de câncer que devem ser considerados.

O alerta é da especialista em oncologia gastrointestinal Marcia Cruz-Correa, professora de Medicina e Bioquímica da Universidade de Porto Rico.

Com base no estudo da médica Eugenia Calle, do American Cancer Society, divulgado em 2003, que associou a obesidade à maior propensão ao câncer de endométrio, rim, mama (em mulheres na pós-menopausa) e câncer colorretal, em homens, Marcia diz que, quanto maior o peso, maior o risco.

- Não estamos seguros sobre o porquê isso acontece. Pode ser pelo tipo de alimento, pela inflamação associada à obesidade que, nada mais é do que um estado inflamatório sistêmico que afeta a capacidade das nossas células de se reparar. Pode ser porque aumenta a proliferação das células por causa da resistência à insulina.

A má qualidade da alimentação pode ainda ser um fator de risco de câncer de estômago, já que a doença está associada à bactéria Helicobacter pilori, que infecta a mucosa do estômago, causando gastrite e úlcera em curto prazo, segundo Márcia Cruz. - Sabe-se que a bactéria H.pilori tem prevalência maior em populações em que há menor higiene e água potável.

Até mesmo fazer sexo sem preservativo aumenta o risco de câncer, em virtude da maior exposição ao vírus HPV, que, em longo prazo, causa câncer de colo de útero (segundo tipo de câncer mais recorrente nas mulheres dos países latino-americanos e entre as brasileiras) e mesmo câncer de boca.

- Onde está a maior prevalência de HPV? Entre as pessoas que não se protegem que não têm informação para fazê-lo.

E mesmo o cigarro, tão ligado aos casos de câncer de pulmão, de garganta e de boca, ainda sim aparece como “grande companheiro” da população mais pobre.

Um levantamento da OMS afirma que, dos 1,3 bilhão de fumantes no mundo, 80% vivem em países em desenvolvimento. E dos 100 mil jovens que começam a fumar a cada dia, 80% vivem nestes países.

Acesso à saúde pode diminuir mortalidade

Para o oncologista Antonio Tito Fojo, chefe da Seção de Terapias Experimentais do Centro de Pesquisa de Câncer do National Cancer Institute, dos Estados Unidos, deve-se levar mais em conta a falta de acesso à prevenção e ao tratamento contra o câncer do que hábitos na hora de avaliar os riscos.

- Ser pobre é mau para tanta coisa e para o câncer é fatal (...). O problema é não ter acesso ao sistema médico preventivo, nem acesso a informação, e não saber que no seu peito pode ter um câncer de mama que pode ser curado se for detectado mais cedo.

Sua afirmação vai de encontro com a pesquisa Cancer Facts and Figures 2011, do American Cancer Society, divulgada em junho deste ano, que diz que a pobreza é “uma das substâncias cancerígenas mais potentes, rivalizando com o tabaco e a obesidade”.

Apesar de o documento mostrar que os índices de mortes por câncer nos Estados Unidos caíram nos últimos anos (22% entre os homens e 13,9% entre as mulheres), entre 1990 e 2007, os dados não são tão animadores quando se analisa a classe social e a raça.

De acordo com o documento, as mortes por câncer de pulmão no país são de quatro a cinco vezes maiores entre os menos escolarizados.

Da mesma forma que 60 mil vidas, das 164 mil mortes de pessoas com câncer, entre 25 e 64 anos, que ocorreram em 2007 no país, poderiam ter sido evitadas se todos seus habitantes tivessem a mesma taxa de mortalidade dos brancos com maior escolaridade.

E no Brasil?

Não há pesquisas qualitativas e quantitativas que mostram como os pobres estão sendo afetados pelo câncer no país. Mas, segundo oncologistas de dois hospitais de câncer de São Paulo, é notório que a falta de recursos e de informação também deixa essa população brasileira mais vulnerável.

Estima-se que até o fim de 2011 surgirão quase 500 mil casos de câncer em todo o país, segundo dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer). Entre estes, assim como na América Latina, os de maior incidência são o de mama (quase 50 mil casos) e de próstata (52 mil).

De acordo com Pilar Estevez Diz, coordenadora do Serviço de Oncologia Clínica do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), hospital que atende pelo SUS (Sistema Único de Saúde), muitas pacientes chegam por lá sem nunca ter realizado um exame de papanicolau ou mamografia na vida.

- Temos muitos casos de câncer colorretal por não ter uma política de rastreamento de lesões precoces e também de pacientes com câncer de cabeça e pescoço porque, como são pacientes de poder aquisitivo baixo, não fizeram exames periódicos.

A própria incidência de câncer de cabeça e pescoço em São Paulo é maior do que a média nacional (de 2% a 4%), enquanto no Brasil atinge 3% da população, afirma a doutora.

Considerado o maior hospital oncológico da América Latina, o Icesp recebe anualmente 14 mil pacientes e realiza em torno de 34 mil atendimentos por mês na capital paulista.

Para o cirurgião oncológico Vinicius de Lima Vazquez, vice-diretor clínico do Hospital do Câncer de Barretos, localizado no interior de São Paulo, os pacientes mais pobres tendem a ter um acesso mais tardio ao diagnóstico.

- Apesar da falta de dados específicos no Brasil, é certo que o acesso à saúde é mais difícil para a população de baixa renda. Além disso, o baixo nível sociocultural resulta em pouco conhecimento de situações de risco ou suspeita, levando ao diagnóstico de casos mais avançados.

O hospital, que também atende pelo SUS, faz 300 atendimentos por dia e ainda oferece 13 casas de apoio para que seus pacientes possam vir realizar o tratamento e ter um local para se hospedar e se alimentar.

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