Psico-higiene e psicologia institucional

Psico-higiene e psicologia institucional

Atualizado: Sexta-feira, 24 Setembro de 2010 as 8:43

Segundo Bleger, a psicologia institucional constitui-se num capítulo novo no desenvolvimento da ciência psicológica, e isto requer um olhar mais demorado quanto aos aspectos implicados neste contexto...

Segundo o autor a psicologia institucional constitui-se num capítulo novo no desenvolvimento da ciência psicológica, e isto requer um olhar mais demorado quanto aos aspectos implicados neste contexto.

Inicialmente, Bleger pontua que "a posição geral sustentada pode se resumir nas seguintes proposições", já dadas a conhecer anteriormente em outra publicação: a) o psicólogo como profissional deve passar da atividade psicoterápica [doente e cura] à da psico-higiene [população sadia e promoção de saúde];

b) "para isso, impõe-se uma passagem dos enfoques individuais aos sociais" (p. 31).

Fica clara, neste texto, a importância do equilíbrio na relação teoria-prática, quando se afirma que a prática não é um desmembramento sujeitado à ciência, mas, ao contrário, o seu núcleo vital; bem como a investigação científica não está acima ou para além da prática, porém inserida no curso da mesma. Ambos devem estar interligados inseparavelmente.

O autor vai mais além quando ressalta que a psicologia institucional não representa uma extensão da psicologia aplicada, e sim um campo psicológico de extraordinário avanço tanto no aspecto investigativo quanto no desenvolvimento da prática profissional da psicologia.

Progressivamente, a psicologia institucional pode ser assim desenhada quanto à sua atuação: a) âmbito psicossocial [indivíduos]; b) âmbito sócio-dinâmico [grupos]; c) âmbito institucional [instituições]; e, d) âmbito comunitário [comunidades].

Com relação ao estudo das instituições, ele diz respeito a três fundamentos: o estudo da estrutura e dinâmica das instituições, estudo da psicologia das instituições e a estratégia do trabalho em psicologia institucional.

Afinal o que vem a ser psicologia institucional? Para Bleger "a psicologia institucional caracteriza-se pelo âmbito (as instituições) e por seus modelos conceituais; dentro de sua estratégia inclui-se, como parte fundamental, o enquadramento da tarefa e a administração dos recursos" (p. 37).

Burgess cita quatro principais tipos de instituições, a saber: instituições culturais básicas, instituições comerciais, instituições recreativas e instituições de controle social formal. Além disso, Young acrescente as instituições sanitárias e as instituições de comunicação.

Há dois princípios essencialmente interligados: a) toda tarefa precisa ser empreendida e entendida em função da unidade e da totalidade institucional; e, b) cabe ao psicólogo considerar a diferenciação entre psicologia institucional e o trabalho psicológico dentro de uma instituição.

É de vital importância a observância que "a dependência econômica do psicólogo institucional tem que ser fixada em termos tais que não comprometem sua total independência profissional" (p. 40).

Quanto aos objetivos da instituição e do psicólogo, o texto ressalta que ambos têm que ser perfeitamente conhecidos como prerrogativa de um ponto de partida para um trabalho profissional. Salienta ainda o autor que o psicólogo precisa ter em mente sempre que o motivo de uma consulta não é o problema de fato, mas sim um sintoma do mesmo. Mais especificamente, os objetivos do psicólogo devem focar:

a) demarcação geral da sua tarefa;

b) aceitação ou não dos objetivos da instituição; 

c) diagnóstico dos objetivos particulares.

A propósito, o objetivo final do psicólogo institucional configura-se num objetivo de psico-higiene, ou seja, a obtenção da melhor organização e condições as quais possam promover saúde e bem-estar dos integrantes da instituição. Ainda com relação aos objetivos do psicólogo, Bleger afirma que o profissional não se deve aceitar jamais um trabalho em uma determinada instituição cujos objetivos conflitam com os dele. Em psicologia, a ética precisa coincidir com a técnica. Finalmente, é enfatizado textualmente que, aceitando o psicólogo os objetivos de uma instituição, significam apenas uma condição para o enquadramento de sua tarefa, mas os objetivos da instituição não são seus objetivos profissionais.

Para Bleger, o modelo do enquadramento psicanalítico consiste numa indagação operativa, cujos passos podem ser assim descritos: a) observação de acontecimentos e seus detalhes; b) compreensão do significado dos fatos; c) inclusão dos resultados desta compreensão; e, d) consideração do passo anterior como uma hipótese.

As técnicas do enquadramento podem ser definidas como "o conjunto de operações e condições que conduzem a estabelecer o enquadramento e que constituem também uma parte do mesmo" (p. 47). E elas são assim demonstradas:

a) Atitude clínica: identificação com os fatos e pessoas, mas a possibilidade da manutenção de certa distância para evitar implicação pessoal.

b) Estabelecimento de relações claras e profissionais.

c) Esclarecimento do caráter da tarefa profissional.

d) Não realização de tarefas com grupos da instituição que não manifestarem aceitação correspondente.

e) Não admissão de imposições.

f) Segredo profissional e estrita lealdade.

g) Limite de contatos extra-profissionais.

h) Abstinência de partido profissional.

i) Não aceitação de função diretora, administrativa nem executiva.

j) Responsabilidade compartilhada.

k) Não formar superestruturas que se desgostem outras autoridades.

l) Não fomentar a dependência psicológica.

m) Estrito controle da informação.

n) Não usar como índice de avaliação o progresso da instituição.

o) Fazer compreender os fatores em jogo.

p) Contar sempre com a presença da resistência.

q) "Uma instituição não deve ser considerada sadia ou normal quando nela não existem conflitos, e sim quando a instituição pode estar em condições de explicitar seus conflitos e possuir os meios ou a possibilidade de arbitrar medidas para sua resolução" (p. 50).

r) Não aceitar a estipulação de prazos fixos para tarefas e resultados.

Bleger define "grau de dinâmica" não como a ausência de conflitos, e sim pela possibilidade da explicitação, manejamento e resolução dentro dos limites institucionais. Ou seja, a patologia do conflito se refere não apenas à existência do conflito, mas com a ausência dos recursos necessários para a sua resolução. Destaca o texto que a estereotipia constitui numa das defesas institucionais mais comuns frente ao conflito. Desta forma, cabe ao profissional em psicologia institucional – verdadeiro agente de mudança e catalisador de conflitos – reconhecer os mecanismos e não agir em função deles, mas sobre eles, modificando-os.

Prosseguindo, o autor distingue conflito, problema e dilema. O primeiro representa as forças controvertidas no interjogo; o segundo, tem a possibilidade de se transformar em conflito e finalmente o último é tido como uma opção irreconciliável.

O que se entende por psicologia das instituições? Bleger responde: "o estudo dos fatores psicológicos que se acham em jogo na instituição, pelo mero fato de que nela participam seres humanos e pelo fato da mediação imprescindível do ser humano para que ditas instituições existam" (p. 55).

Considerando que quanto mais integrada a personalidade, menos dependente do suporte institucional, e vice-versa, deduz-se que toda instituição é mais do que um instrumento de organização, regulação e controle social; é na verdade, um instrumento de regulação e de equilíbrio de personalidade. Ademais, se levarmos em conta que as organizações institucionais são depositárias das partes mais imaturas da personalidade e fonte de infelicidade e distorção psicológica dos indivíduos, cabe ao psicólogo focar a estrutura alienada da instituição e trabalhar para que a organização institucional seja o meio de enriquecimento e desenvolvimento da personalidade.

Bleger afirma que "é na instituição hospitalar onde a psicologia institucional provou até agora ser um dos campos onde se torna muito proveitosa sua utilização" (p. 60). Este tipo de instituição, segundo o autor, é menos conflituosa para o próprio psicólogo em relação à sua ideologia bem como aos seus objetivos.

Finalmente, toda empresa tem como objetivo fundamental, de uma ou de outra maneira, um incremento de sua produtividade – melhor dito, de suas utilidades – e do psicólogo se espera, explícita ou implicitamente, uma condução das relações humanas que leve a esta finalidade. Em nenhum caso o psicólogo deve se situar como agente ou promotor da produtividade, porque não é esta a sua função profissional; seu objetivo é a saúde e o bem-estar dos seres humanos, o estabelecimento ou criação de vínculos saudáveis e dignificantes. Seus objetivos podem levar tanto a um aumento da produtividade – ou dos benefícios – como a uma diminuição da mesma, de maneira passageira, transitória ou estável, mas em nenhum caso é isto o que mede a eficácia de sua tarefa (p. 63).

Em qualquer situação, deve-se salientar que o psicólogo deve trabalhar com exclusividade segundo os seus objetivos e rechaçar tarefas incompatíveis aos seus propósitos. E sua finalidade última é buscar na psico-higiene a promoção da saúde dos indivíduos e seus respectivos grupos.

Hodiernamente, a importância do conhecimento das implicações da fundamentação da psicologia institucional assume feições de caráter essencial à medida que o contexto da atuação do profissional em psicologia avança sem precedentes na história recente das instituições.

Atuar no viés da psicologia institucional requer conhecimento prévio e especificado uma vez que a instituição é muito mais do que um lugar de interações trabalhistas; é um ponto de convergência das diversas personalidades que ali se interagem.

Promover a saúde destes indivíduos é procurar a sanidade institucional seja qual for o contexto no qual o psicólogo esteja situado.

Saúde à psicologia institucional!

Neir Moreira

Neir Moreira   é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, psicólogo formado pela UFPR e pós-graduando em Educação. www.neirmoreira.com

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