Psicóloga explica por que deixamos tudo para a última hora

Psicóloga explica por que deixamos tudo para a última hora

Atualizado: Quarta-feira, 3 Março de 2010 as 12

Conjugando o atraso de vida: eu adio, tu enrolas, ele não cumpre o prazo...

Por que deixamos tudo para última hora?

Em resumo: Consequências de curto prazo são mais poderosas do que as de longo prazo.  Eu adio, tu enrolas, ele não cumpre o prazo, nós desperdiçamos tempo, vos se prejudicais, eles procrastinam. Quem não se reconhece em algumas dessas conjugações verbais?  

Quase todo mundo, ao menos uma vez na vida, se viu às voltas com tarefas a cumprir e sem a mínima disposição de arregaçar as mangas e partir para o trabalho, fosse ele físico ou intelectual. Uma prova se aproxima e o aluno diz para si próprio: "Não adianta estudar adiantado porque acabo esquecendo tudo. Prefiro passar a véspera em claro, estudando.". Depois, constata que não houve tempo hábil para estudar tudo e lamenta o ano escolar desperdiçado. Ou foi uma alergia forte que atrapalhou os planos de estudar na véspera da prova.

Outra história comum é a do mestrando que precisa escrever sua tese, trabalho árduo, pleno de etapas, algumas interdependentes e sequencialmente interligadas. Qualquer atraso ou imprevisto pode furar o esquema e comprometer os prazos, bem como a qualidade do trabalho acadêmico. E nada de escrever. Nesse meio tempo, o aluno se dedica a ler de tudo um pouco, arruma os arquivos do computador, desfragmenta o disco rígido, tira pó dos papéis acumulados, desvia-se do orientador ao caminhar pelo campus.

Mais alguns exemplos ajudarão o leitor a reconhecer, em sua vida, ou na de terceiros, o fenômeno sobre o qual estou falando. O pai comprou (desmontado) um berço para o filho que está em vias de nascer, e argumenta que falta quase um mês, não precisa montar agora. Nessa hora, ninguém se lembra da prematuridade e faz de vez o que precisará mesmo ser feito.

A Receita Federal divulga prazos, comenta as normas válidas para as declarações do imposto de renda, e avisa que não haverá adiamento dos prazos. Os contadores enlouquecem quando, bem no último minuto do segundo tempo, são procurados por cliente desesperados. O site fica atolado em função dos acessos, o que resulta num sistema inoperante.

Vestibulandos perdem o horário do exame porque o ônibus atrasou, esqueceram do horário de verão, não estudaram o percurso com antecedência, esqueceram os documentos em casa.

Para fazer exame ginecológico não há tempo, as filas no posto de saúde desanimam qualquer mulher. Mas essa mesma pessoa não vê problema em esperar no salão de beleza ou na entrada do estádio onde assistirá a um show, ou na porta da balada, talvez na fila do supermercado.

Enfim, por que adiamos o que precisa ser feito e acabamos sempre, ou quase sempre, vivendo o maior estresse, ficamos sempre na corda bamba dos prazos e com resultados inferiores aos almejados? Ninguém aprende, ainda que as consequências do que deixamos de fazer evidenciem que estamos errados?

Na verdade, não estamos tão errados assim, e a resposta do enigma comportamental reside nas regras que regulam o jogo da vida, no equilíbrio dos pratos da balança. Em primeiro lugar, precisamos considerar que os produtos imediatos de nossas atitudes são poderosas fontes de influência. Traduzindo: é mais atraente e tolerável ficar na fila de espera do cabeleireiro, com água gelada e cadeira, para depois sair do salão toda produzida para um passeio, do que esperar, no posto de saúde, a vez de ser atendida para marcar uma consulta para daqui a seis semanas e aí então fazer o (ligeiramente desconfortável) exame de prevenção do câncer ginecológico. Pra que ter pressa de ir ao médico, se pareço estar bem de saúde? O prazer imediato da boa aparência compete como obter o "nada consta" do exame médico. Assistir a uma série de TV compete com estudar para a prova da semana que vem. Deixar de comprar atrativas bugigangas compete com a austeridade de guardar dinheiro para dar entrada em uma casa própria. Resumindo: consequências de curto prazo são mais poderosas do que as de longo prazo.

Segundo aspecto: você conhece alguém que fica clicando mais de 3 ou 4 vezes num interruptor de luz que se recusa a funcionar? Pouco provável. Afinal de contas, pão é pão e queijo é queijo. Ou funciona ou está quebrado. Simples assim. Mas na vida real, as coisas são pretas, brancas ou possuem algum tom de cinza. Assim, não raro, a prova para a qual deixamos de estudar é adiada por uma semana e, num golpe de sorte, ganhamos tempo extra para estudar o que deixamos de ter feito em tempo hábil. Às vezes a prova não foi adiada, mas caiu exatamente a pouca matéria que estudei. Tiro boa nota com pouco esforço, apenas pela facilidade do ponto com o qual fui contemplada na avaliação. Em suma, recompensas, mesmo acidentais e esparsas, para comportamentos inadequados, acabam por fortalecer aquele jeito de agir, um padrão de adiamento constante e fuga das obrigações.

Trabalhos de escola e faculdade são encomendados pelo professor com muita antecedência e a maioria dos alunos atrasa sua execução, deixa tudo para o final do prazo, exatamente porque não lhe foi solicitado apresentar semanalmente uma etapa do projeto inteiro. O sistema educacional que acompanhasse a aprendizagem com regularidade e fizesse avaliações de desempenho em intervalos breves teria alunos mais dedicados, cumpridores do dever, menos ansiosos porque saberiam o que têm pela frente, abraçariam a tarefa e teriam sucesso. Tudo sem dar uma de "avestruz mimado" (aquele indivíduo desacostumado a fazer o que a estrada da vida lhe propõe e foge das tarefas porque não gosta de fazer coisa chata, difícil, desafiadora, etc.)!

Quem adia coisas, se enrola e enrola aos outros, vive em fuga, comete um autoengano e mais tarde terá de prestar contas a si mesmo e se sente frequentemente ansioso, em débito com a vida, improdutivo, sem poder se divertir de verdade, sem culpa e sem fazer de vez o que precisa. Caso mude seu padrão, a pessoa tornar-se-á capaz de colher bons frutos, em ambos os domínios da existência, no lazer e no dever.

Romper com o ciclo destrutivo requer lembrarmos com clareza dos motivos pelos quais assumimos compromissos. Há sentido neste dever? Ao cumprirmos bem um dever, traremos reais benefícios para nossa vida e nos sentiremos livres para fazer tudo o mais que for desprovido de obrigatoriedade e cobrança externa? Vale o esforço pela conquista da autonomia, para dar cabo da ansiedade e da sensação de eterna dívida?

Encontrar propósito em nossos atos e ser por eles guiados nos ajuda a responder, na hora certa, ao chamamento para uma vida com responsabilidades e prazeres. Nosso esforço resulta numa sensação especial, reservada a quem agarra a existência com sede de realizações.

Postado por: Felipe Pinheiro

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