Redução da idade mínima para tratar transtorno do déficit de atenção

Redução da idade mínima para tratar transtorno do déficit de atenção

Atualizado: Quarta-feira, 19 Outubro de 2011 as 8:22

No último domingo (16), a Academia Americana de Pediatria lançou novas diretrizes ampliando a faixa etária para o diagnóstico e tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Agora, crianças e adolescentes entre quatro e 18 anos também podem ser diagnosticados com o transtorno. Para os mais novos, no entanto, a Academia enfatiza o uso de tratamentos comportamentais em vez de medicamentosos na maioria dos casos.

“Acho que a mudança mais significativa é ampliar a faixa etária de crianças pré-escolares até a adolescência. As diretrizes originais eram de seis a 12 anos, faixa em que as evidências do TDAH se mostravam. Conseguimos aumentar o alcance das diretrizes porque existiam mais evidências disponíveis para pré-escolares e adolescentes”, disse Mark Wolraich, autor principal das novas recomendações e Professor de Pediatria do CMRI (Children’s Medical Research) do Centro de Ciências da Saúde da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos.

Wolraich acrescentou que as novas diretrizes também dão aos pediatras conselhos sobre como administrar problemas de desatenção ou hiperatividade que não chegam a ser definidos como TDAH. 

As novas diretrizes serão apresentadas no encontro anual da Academia Americana de Pediatria em Boston, nos Estados Unidos, e o trabalho será publicado na edição de novembro da “Pediatrics”, jornal da Academia.

De acordo com o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, mais de 5 milhões de crianças no país já foram diagnosticadas com TDAH. Crianças com o transtorno apresentam sinais de desatenção, impulsividade e hiperatividade. Elas podem ser incapazes de prestar atenção na aula e podem passar muito tempo inquietas, se mexendo de um lado para o outro enquanto sentadas em suas carteiras ou falando sem parar. Embora a maioria das crianças possa exibir esse tipo de comportamento de vez em quando, de acordo com o Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos, se torna um problema quando ele prevalece na maior parte do tempo. 

O tratamento para o TDAH inclui medicamentos ou terapia comportamental, ou ambos. Na realidade, Wolraich afirma que “a combinação dos dois é, quando possível, provavelmente a melhor opção”. 

Medicamentos em ascensão

Um recente estudo publicado em setembro no site do Jornal Americano de Psiquiatria descobriu que o uso de medicamentos para TDAH está em ascensão: 5% das crianças norte-americanas agora estão tomando remédios estimulantes como a Ritalina ou Adderall para tratar o transtorno. Os pesquisadores do estudo sugeriram que o aumento do uso dos medicamentos pode ser devido ao maior reconhecimento do TDAH como uma condição crônica, levando as crianças a ficarem sob efeito medicamentoso por períodos maiores. 

As novas diretrizes recomendam que, se uma criança entre quatro e seis anos de idade possui um sério problema de TDAH, a terapia comportamental deve ser o primeiro tratamento a ser tentado. Se necessário, os medicamentos podem ser adicionados mais tarde. 

“Embora existam menos evidências [sobre os efeitos do TDAH para esta faixa etária], a esperança é que, ao iniciar o tratamento durante a pré-escola, uma criança com sérios problemas de TDAH terá melhores resultados no futuro”, disse Wolraich. 

Cautela

Richard Gallagher, médico e diretor de projetos especiais do Instituto de Déficit de Atenção e Hiperatividade e Transtornos de Comportamento do Centro de Estudos da Infância da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, afirmou: “Medicamentos deveriam ser usados com cautela. Sou assumidamente tendencioso desde quando comecei a trabalhar com comportamento, mas o trabalho comportamental também tem limites. Se uma criança está entrando em situações perigosas ou apresentando problemas para interagir apropriadamente com crianças e adultos, os medicamentos podem ser úteis. Quando monitorados cuidadosamente, os remédios são seguros para a grande maioria das crianças”.

As diretrizes também enfatizam a necessidade de pediatras reconhecerem que o TDAH é uma condição crônica, já que existem tratamentos disponíveis para controlar os sintomas e não há cura para o transtorno. 

Segundo Wolraich, uma das razões pelas quais a Associação Americana de Pediatria ampliou a faixa etária para até 18 anos é porque surgiram mais estudos mostrando que o TDAH continua a afetar o jovem no final da adolescência – e até mesmo na idade adulta. 

“O TDAH é uma condição crônica. Nós podemos fornecer tratamentos sintomáticos, mas não curam a condição. O tratamento precisa ser um processo contínuo. Os sintomas podem mudar ao longo do tempo e é preciso considerar mudanças no tratamento enquanto a criança se desenvolve”, disse Wolraich.  “Crianças costumam ser medicadas durante aproximadamente três anos. Para algumas, é o suficiente. Dá tempo para se tornarem melhores na compensação dos próprios déficits. Mas, para muitas crianças, a necessidade de tratamento é contínua”, completa. 

Gallagher recomenda que os pais apresentem qualquer preocupação existente sobre os filhos ao pediatra. “Esta é uma condição que pode ser reconhecida cedo na vida”, afirma.

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