Refluxo gastroesofágico - incômodo retorno

Refluxo gastroesofágico - incômodo retorno

Atualizado: Terça-feira, 14 Junho de 2011 as 11:31

QUEM TEM DOENÇA DO REFLUXO NEM SEMPRE TRATA DA MANEIRA MAIS ADEQUADA, MUITAS VEZES SE AUTOMEDICA E ACABA POR DISFARÇAR PROBLEMAS MAIS SÉRIOS. DE ACORDO COM VLADIMIR SCHRAIBMAN, MÉDICO GASTROENTEROLOGISTA, É FUNDAMENTAL COMBATER A DOENÇA LOGO EM SEU ESTÁGIO INICIAL PARA EVITAR COMPLICAÇÕES, COMO UM CÂNCER DE ESTÔMAGO, POR EXEMPLO. “O refluxo é um termo usado para descrever uma doença chamada de refluxo gastroesofágico (DRGE), que é o retorno dos alimentos e líquidos ácidos do estômago para o esôfago. O problema é bastante comum”, explica Schraibman. Causado pela exposição crônica da mucosa do esôfago ao conteúdo ácido do estômago, o refluxo leva o paciente a quadros de queimação, azia, inflamação do esôfago e até lesões mais graves.

A mais comum é a esofagite, uma inflamação do esôfago. Quando o refluxo não é tratado, ocorrem úlceras e esôfago de Barrett, uma transformação do tecido que reveste o órgão, e já é uma situação pré-maligna e pode, sem o tratamento adequado, progredir para o câncer.

Ao lado da alimentação, uma das grandes causas da doença é o excesso de peso, porque acarreta em um enfraquecimento da válvula que impede o refluxo. Mas além da obesidade, outros eventos que aumentam a pressão intra-abdominal podem causar esse distúrbio, como gravidez, ascite (acúmulo de líquido dentro do abdome, conhecido por barriga d’água), pessoas muito obstipadas – e que têm de fazer muita força para evacuar –, hérnia de hiato e alterações motoras do esôfago ou do esfíncter gastroesofágico.

“Atualmente, 12% da população brasileira sofre de DRGE, o que corresponde a aproximadamente 4,5 milhões de brasileiros. As que mais sofrem são as mulheres, porém, não se observam diferenças de perfil quanto à classe social, idade e nível de instrução entre os quem têm propensão e a população em geral”, aponta o especialista.

Segundo Schraibman, na maioria dos pacientes, o refluxo ocorre de forma espontânea pelo relaxamento transitório do esfíncter esofágico inferior. A lesão da mucosa esofágica está relacionada com a qualidade, a quantidade e frequência do refluxo. Um fluido ácido gástrico com pH cáustico é o principal agente lesivo na maioria dos casos. Em alguns pacientes, os refluxos de secreções biliares e pancreáticas podem contribuir na lesão.

Principais sintomas e prevenção

O refluxo gastroesofágico começa com aquela sensação de queimação na “boca” do estômago, atrás do osso do peito. Já as pessoas com estenose – um estreitamento do esôfago – podem sentir muita dificuldade para engolir líquidos e todos os tipos de alimentos. São vários os sintomas associados ao refluxo: tosse, pigarro, falta de ar e engasgos noturnos.

Outro sintoma apontado pelo especialista é a azia. “Ela é reflexo da irritação da mucosa do esôfago, devido ao aumento da salivação para tentar aliviar a queimação produzida pelo refluxo, como se fosse um antiácido natural”, explica Schraibman.

Para prevenir o refluxo e, consequentemente, a azia, são necessárias, na maioria das vezes, apenas algumas mudanças nos hábitos de vida. “Investir em uma alimentação equilibrada e fracionada a cada três horas e não ingerir grandes quantidades de uma só vez é uma boa dica. Além disso, deve-se evitar o uso de roupas apertadas, que aumentam a pressão no abdome. Também indico a elevação da cabeceira da cama pelo menos 15 centímetros”, diz.

Também é preciso evitar alimentos como o café, o chá-mate e o chocolate, e algumas medicações para asma com esse composto (todas essas ricas em xantina, uma substância que pode agredir o trato digestório). Além disso, há necessidade de moderar o consumo de molho de tomate, ketchup, mostarda, molho de soja, derivados de milho e, principalmente, do cigarro, porque diminui a pressão no interior do esôfago e favorece a passagem de líquido do estômago para aquele órgão. “Pessoas que fumam muito apresentam vários sintomas da doença, que só diminuem quando elas abandonam o vício”, afirma Schraibman.

Diagnóstico e Tratamentos

Só com o histórico clínico já é possível avaliar o caso. As complicações do refluxo são investigadas com uma endoscopia digestiva alta. Existem, também, outros exames, mas são seletivos, para saber o tamanho da hérnia de hiato, avaliar as pressões do esôfago e medir a qualidade e a intensidade das contrações do órgão.

O tratamento mais indicado é o chamado de dietético-postural. Segundo Schraibman, o melhor é evitar os alimentos que causam o incômodo; nunca comer e deitar – é preciso aguardar pelo menos três horas depois da refeição –, levantar a cabeceira da cama alguns centímetros; perda de peso; não se vestir com roupas apertadas e, de acordo com a prescrição médica, usar medicações que diminuem a produção de ácido pelo estômago e evitar bebidas alcoólicas e gasosas.

A correção do refluxo gastroesofágico por meio cirúrgico é feita normalmente por laparoscopia e indicada nos casos de complicação da doença, quando o paciente já tem úlceras ou esôfago de Barrett. Também é uma solução em situações em que o paciente tem o que os especialistas chamam de intratabilidade clínica. “Isso acontece quando a pessoa segue o tratamento à risca, controlando a alimentação e tomando os remédios, e não melhora, ou quando a doença volta assim que o paciente para com a medicação”, finaliza.

por Enio Rodrigo  

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