Uso de crack aumenta entre mulheres de Minas Gerais

Uso de crack aumenta entre mulheres de Minas Gerais

Atualizado: Segunda-feira, 15 Março de 2010 as 12

Desesperada por mais uma pequena pedra de crack para fumar, M., 17 anos, vestia as roupas mais curtas que tinha e se prostituía pelas ruas. Para conseguir o mesmo entorpecente, A., 33 anos, se uniu a pessoas que praticam crimes e a um homem que a espanca quando inebriado pelo tóxico. As histórias dessas duas mineiras fragilizadas pelo vício, aqui identificadas pelas iniciais de seus nomes para serem preservadas, ilustram uma realidade que tem assustado autoridades criminais e de saúde pública.

O número de mulheres devastadas pelo crack em Minas Gerais aumentou dramaticamente. De acordo com o Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), entre 2000 e o ano passado houve crescimento de 79,5% da quantidade de mulheres que buscavam se livrar do tóxico. O volume de mulheres internadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por consumo de substâncias psicotrópicas, como crack e cocaína, aumentou 76% no Estado, passando de 25 para 44, entre 1999 e 2007.

O vício deixou marcas nítidas na fisionomia sofrida de M. O seu rosto é tão magro que se percebe pela pele maltratada os contornos dos ossos da sua face. Seus braços são finos e as unhas exibem um esmalte desgastado. Viúva há 11 anos, mãe de cinco filhos, ela mora no Bairro Pindorama, na Região Noroeste de Belo Horizonte, com um homem que a agride quando faz uso de crack.

– Comecei a fumar a pedra (crack) depois que meu marido morreu. Fui morar na casa de uma amiga, que era mulher de um traficante. Ela colocou a pedra na lata e perguntou se eu queria. Acabei fumando e hoje não consigo mais largar.

M. foi levada para o Centro de Referência Estadual em Álcool e Drogas (Cread), no centro de Belo Horizonte, por sua irmã. Na noite anterior tinha feito o último uso do crack e apresentava grandes hematomas na altura das costelas esquerdas, fruto de espancamento do companheiro.

– Vim aqui (Cread) porque preciso de me internar. Sei que sozinha não consigo. O vício da noia (crack) é mais forte do que eu.

Depois que começou a fumar crack, M. chegou a abandonar os filhos na casa da mãe.

– Nem pensava neles, só em juntar dinheiro para comprar mais drogas. Fui morar com umas meninas lá no bairro que se prostituíam e depois "chapavam" (drogavam) os homens para roubar e comprar crack. Um celular novo podia valer R$ 300 na troca por crack.

Nessa trajetória destrutiva, a mulher deixou de alimentar a família para consumir mais drogas.

– Quando o dinheiro da pensão terminava, tirava do Bolsa Família, que era para ajudar meus cinco filhos. Enquanto tinha dinheiro, usava para conseguir mais. Tenho de sair de perto dessas pessoas e do homem com quem moro, que me bate muito. Não posso chamar a polícia, senão ele me mata. Se for internada, fico longe dessas pessoas e posso organizar minha vida.

Postado por: Felipe Pinheiro

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