Videogames tratam de depressão a tetraplegia

Videogames tratam de depressão a tetraplegia

Atualizado: Terça-feira, 28 Julho de 2009 as 12

Após um acidente de carro há 11 anos, o veterinário Michael Rigon, de 32, perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo. Mas ele ainda consegue jogar videogame. Não qualquer videogame - um jogo especial, controlado pelos impulsos elétricos de seu sistema nervoso, que o ajuda a recuperar parte da atividade perdida de seus membros. Ele é um dos muitos pacientes, em diversos países, que estão usando os jogos eletrônicos em tratamentos médicos. O objetivo é ter resultados mais rápidos e menos doloridos.

O game que Rigon joga é parte de um programa chamado "biofeedback". Nele, eletrodos colocados em partes-chave do organismo o ajudam a entender como o movimento funciona e como recuperá-lo. A mesma técnica é usada em clínicas de psiquiatria para tratar problemas que vão desde dificuldade para parar de fumar até depressão clínica.

Tetraplégico desde os 21 anos, ele já cruzou duas vezes os quase três mil quilômetros que separam Ariquemes, em Rondônia, onde mora, de São Paulo, onde passa por sessões de biofeedback. "Descobri músculos que, para mim, eu tinha perdido", afirma Rigon.

Com sessões diárias por cerca de um mês, o veterinário conseguiu recuperar parte dos movimentos, por exemplo, do tríceps. Ele, que tinha dificuldade para locomover sua cadeira de rodas e já tinha deixado de dirigir por falta de força nos braços, voltou ao volante após a terapia e hoje até corre de kart, em um modelo adaptado.

A psiquiatra e psicoterapeuta Dirce Perissinotti, uma das pioneiras do biofeedback no país, explica como ele funciona. "O aparelho se conecta ao indivíduo e transmite uma mensagem do corpo, que não temos consciência, para um computador. Ele traduz essa imagem para uma atividade prazerosa - para que o indivíduo possa entender o seu funcionamento interno". Essa "atividade prazerosa", na prática, é um joguinho de computador - mas controlado pela mente.

Os eletrodos são colocados em pontos estratégicos do corpo. No caso de pessoas que precisam resolver problemas psicológicos, o aparelho se conecta à cabeça. Em quem quer, como Michael Rigon, recuperar o movimento de um membro, o eletrodo fica no músculo afetado.

Dirce fez uma demonstração de como funciona essa técnica, simulando como seria o tratamento de um paciente com depressão clínica. Nesse caso, a máquina lê a atividade elétrica do cérebro da pessoa. O paciente é, então, convidado a realizar uma atividade - no nosso teste: manter uma música tocando.

A música só tocava quando nossa voluntária tinha pensamentos tranquilos e felizes - o que não é fácil com uma equipe de reportagem em cima, não se esqueça. Em um tratamento normal, esse processo dura horas e semanas - cerca de 50 sessões de uma hora cada; duas por semana, idealmente.

No fim de cada sessão, a médica levanta os dados da atividade cerebral da nossa "paciente". Em um tratamento normal, isso é usado para que a pessoa aprenda o que a deixa relaxada e como controlar isso. "O que nós fazemos é a modificação da atividade elétrica daquela região específica do cérebro", explica Dirce Perissinotti.

Ou seja: um paciente com depressão, de tanto praticar pensamentos positivos e relaxantes no biofeedback, acaba aprendendo a controlar sua tristeza. "O ideal é que a pessoa leve isso para seu dia-a-dia. Ela entende como funciona seu cérebro e sua maneira de pensar. E aprende a controlar, por exemplo, pensamentos depressivos", diz a médica.

No caso de Michael, os eletrodos são colocados no músculo que ele movimenta, mas o resto é bastante parecido. Ao realizar a tarefa proposta na tela, ele, sozinho, descobre a melhor maneira de alcançar os resultados que deseja. Quase inconscientemente, ele acaba voltando a mexer partes do corpo que estavam imóveis.

O jogo escolhido varia de pessoa para pessoa e de doença para doença. Em alguns casos, o que o médico procura é estimular a atividade elétrica em uma região específica - mas, em outros, a intenção é diminuir essa atividade (como por exemplo, quando o objetivo é tratar um transtorno de ansiedade).

O biofeedback também ajudou a paulistana Mônica, de 42 anos, tetraplégica desde os seis meses de idade. Sua mãe, Solange Milano, diz que a evolução do quadro foi grande. "Antes do biofeedback, a Mônica não conseguia mexer as pernas por que os joelhos dela eram comprimidos. Hoje ela consegue dar pequenos passos com o andador", conta Solange. "O eletrodo no músculo permite que ela mesma descubra como é feito o movimento e aprenda a melhor forma de lidar com isso, brincando, sem estresse", explica.

Jogos tradicionais

O biofeedback é um jogo especial, desenvolvido exclusivamente para a aplicação médica. Mas outros games convencionais, com equipamentos que você encontra em qualquer loja de eletroeletrônicos, também estão entrando nos hospitais. Em Santa Catarina, o médico geriatra André Junqueira Xavier utiliza jogos online para tratar idosos com problemas de memória. Em Israel, o cirurgião plástico Josef Haik usa um Playstation 2 para tratar vítimas de queimaduras.

"Nosso organismo é feito para responder a estímulos e para se adaptar a eles. Quando usamos um videogame de forma a estimular uma área específica do organismo, ele pode ajudar a consertar um funcionamento errado", explica Xavier, que trabalha na Universidade do Sul de Santa Catarina e fez sua pesquisa com os videogames em seu doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Em seu trabalho, Xavier forneceu jogos online simples (como "Tetris" e palavras cruzadas) para idosos. "Cada jogo foi escolhido de acordo com o problema de memória que cada pessoa tinha. O mais complexo que usamos foi o 'The Sims'", explica o médico.

Os resultados foram positivos. "Cerca de 55% dos pacientes apresentaram melhoria na memória", afirma Xavier, que apresentou seu trabalho no Congresso Mundial de Alzheimer.

Ainda não é possível afirmar, com certeza, que o que ele fez pode evitar o surgimento da doença degenerativa. "Isso o futuro que vai dizer. O que podemos afirmar é que os videogames estimulam a área do cérebro que cuida da memória e que isso pode ter um efeito protetor".

Queimaduras

O trabalho do israelense Haik também usa videogames, mas para um objetivo diferente: ajudar na recuperação e na cicatrização de vítimas de queimaduras graves.

O trabalho dele na Universidade de Tel Aviv começou em uma imensa sala de realidade virtual. Os custos do programa, no entanto, eram muito altos e o médico optou por uma alternativa mais barata: o videogame.

Haik passou a utilizar um Playstation 2 com uma câmera chamada "EyeToy", capaz de fazer imagens do usuário e de as inserir diretamente no jogo, dispensando o uso de controles. "O EyeToy é uma tecnologia bem simples, que existe há anos, que permite que o paciente jogue sem precisar tocar em nada", explica o médico.

Os jogos utilizados, nesse caso, também foram simples, como pingue-pongue e boliche. " É parecido com o Nintendo Wii, mas você usa o seu corpo para jogar e não um controle", afirma Haik.

A principal vantagem: o jogo distrai a pessoa e diminui a dor. "Na fisioterapia, o paciente fica concentrado apenas no movimento que está fazendo. Isso faz com que ele preste bastante atenção na dor. No videogame, eles se concentram no jogo e sua preocupação é ter um bom resultado. Com isso, percebem menos a dor", diz ele.

A abordagem também reduz o risco de infecções. "Como ninguém precisa encostar em nada, o risco de se pegar uma infecção hospitalar é bem reduzido", explica o médico.

Para Haik, todas as aplicações de videogames na medicina têm o mesmo objetivo: ajudar o paciente de uma maneira prazerosa. "É levar a diversão para o tratamento médico. Não por que medicina tenha que ser divertida, mas por que quando a pessoa está sentindo prazer, as coisas são mais fáceis. O paciente resiste menos ao tratamento, participa mais ativamente e intensamente. Os resultados são menores e a dor, menos intensa."

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