A vida e a morte em um safári

A vida e a morte em um safári

Atualizado: Quarta-feira, 6 Abril de 2011 as 8:54

Uma informação inicial: até o dia em que participei do primeiro safári, no Kruger Park, na África do Sul, sempre imaginei que os famosos programas africanos eram, de fato, enfadonhos passeios turísticos; algo como ir ao zoológico de automóvel.

Pois errei feio. Safáris africanos são experi­ências emocionantes de avistamento de animais em plena atividade selvagem. Reúnem o excitamento da busca, o temor do contato, a beleza brutal de alvoradas e poentes de luz oblíqua, ruídos desco­nhecidos e odores que se alternam.

Há sempre uma fartura de impalas, girafas e elefantes. Búfalos caminham em grandes bandos, hienas e gnus se esgueiram para escapar da fome dos grandes carnívoros, e os pássaros desenham o céu com revoadas. Quase sempre é possível ver uma família de leões ou hipopótamos borbulhando nas lagoas. Leopardos são mais raros. Rinocerontes, pules premiadas.

Quem faz um safári, não vê a hora de fazer o próximo. Mas nem todos são iguais. Os melhores de que participei foram no Delta do Okavango, em Botsuana. Nessa área, inundada como o Pantanal brasileiro, os animais se concentram em uma abundância incomum nas poucas terras que afloram. O avistamento é muito mais frequente e a adrenalina, consequentemente, muito maior. E nesse extraordinário delta, muitos safáris são realizados em frágeis voadeiras ou canoas primitivas, chamadas mokoros.

Mas, as notas que tenho em mãos relembram os safáris mais populares, que são os das reservas do Quênia. Lá, há áreas que são ocupadas por uma infinidade de kombis de teto retrátil que, informadas por rádio sobre a localização de algum animal selvagem, movem-se em comboio, formando um estranho tráfego no meio do nada. Uma vez localizado o leão ou o gue­pardo, o animal é imediatamente circundado por dezenas de veículos com centenas de fotógrafos amadores disparando suas máquinas. É como se fosse uma arquibancada portátil – isso me incomodou.

No segundo ou terceiro dia de safáris na região de Masai Mara, o fotógrafo Valdemir Cunha e eu já íamos meio desanimados na kombi quando, num lance de sorte, uma leoa solitária cruzou o cami­nho e se escondeu atrás de um arbusto. Estava tão próxima de nós que o motorista sequer podia comunicar o evento aos demais. E eis que, próximo à leoa, surgiu um gnu assustado. Prendemos a respiração. A leoa, a espera do momento exato para dar o bote, encheu-nos de uma expectativa aterradora. Íamos ver uma vida terminar ao alcance das lentes. O gnu, pressentindo alguma coisa, hesitava. O motorista, o fotógrafo e eu, no carro, sentíamos algo próximo ao pânico. A leoa paralisada. Nós paralisados. E o gnu resolveu andar. Tragédia anunciada.

Também conhecido como boi-cavalo, o gnu é bem feio. Nem por isso, queria vê-lo morrer. Mas não havia volta: ele estava ao alcance do grande felino. Valdemir disparou seus cliques. Eu fechei os olhos. Quando os reabri, um instante depois, o gnu havia passado. A leoa, sabe-se lá por que, desarmou o bote. No silêncio da savana, na quietude de nossa perplexidade, só me ocorreu dizer ao fotógrafo catatônico: “Amarelou, a leoa amarelou”. Um safári nunca é igual ao outro.

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Imensas reservas

O safári é praticado em 14 países afri­canos, onde vivem os grandes mamíferos e toda a cadeia alimentar. Cada país tem suas reservas – espécies de parques nacionais guardados para conservação e observação da vida selvagem. São, quase sempre, áreas limitadas por cercas ou algum tipo de obstáculo natural. Mas não  confunda: não são zoológicos. As reservas são imensas. O Kruger Park, na África do Sul, tem o tamanho de Israel.

Um jogo e tanto

Para todos os efeitos, o safári é um jogo que consiste em avistar (ou fotografar) os chamados Big Five, os Cinco Grandes: búfalo, elefante, leão, leopardo e rinoceronte. Não valem, portanto, as sempre presentes zebras e girafas. Por alguma razão que se convencionou, o prêmio vai para quem, em um safári que dura cerca de três horas, conseguir ver, ao vivo, os integrantes do Big Five. Uma dica: búfalos e elefantes sempre aparecem. Leões, quase sempre. Leopardos são mais raros. Rinocerontes são tão poucos que sempre atrapalham o bingo. Os hipopótamos, embora enormes, não entram na conta.

A caça acabou. Acabou?

Até o início do século 20, os safáris de caça eram um símbolo de status. Membros da aristocracia europeia iam para a África com seus séquitos, montavam acampamentos e desfrutavam de toda a mordomia possível para fuzilar elefantes, leões e hipopótamos, cujas cabeças, mais tarde, decorariam bibliotecas ou salões de visita. A caça foi proibida com o desenvolvimento da consciência preservacionista e o fim do colonialismo. Ainda assim, continua sendo praticada ilegalmente em alguns dos países mais pobres. As vítimas mais valiosas são os elefantes (por causa do marfim) e os rinocerontes, cujo chifre, reduzido a pó, é considerado um poderoso afrodisíaco em países do Extremo Oriente. Em algumas nações africanas, a superpopulação de elefantes deu origem a fazendas de caça consentida. Nesses locais, para assassinar um elefante, o “caçador” paga um mínimo de US$ 50 mil.

Safáris especiais

O safári mais comum ocorre em savanas. Os mais diferentes são os de Botsuana, Namíbia e Congo. Em Botsuana, no Delta do Okavango – território alagado pelas águas do Rio Cubango que nunca chegam ao mar, uma vez que o Deserto do Kalahari as engole –, as bases são os poucos e requintados acampamentos alcançados por teco-tecos. Dorme-se em tendas de luxo, com jantares gastronômicos e adega bem fornida. E os safáris são fartos, devido à concentração de animais nas poucas ilhas que se formam em meio ao “pantanal”. Na Namíbia, há belíssimos safáris no deserto. A variedade de animais é menor, mas o cenário e a visibilidade são recompensadores. Já no Congo, há um tipo especial de safári para ver gorilas. Consiste em uma caminhada pela selva que permite, em geral, uma convivência amistosa com os enormes primatas.

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