Acima de 2.000 m, Itatiaia alia vista bela a via péssima

Acima de 2.000 m, Itatiaia alia vista bela a via péssima

Atualizado: Terça-feira, 26 Julho de 2011 as 10:11

Não há nada parecido aos campos de altitude nas demais regiões serranas do Brasil. Até lá, o acesso a esse planalto é feito pela BR-485, considerada a estrada mais alta do país, cujo ponto culminante atinge 2.460 metros.

Alcunhada "rodovia das flores", essa estrada de vistas espetaculares é, também, uma das piores rodovias federais nacionais.

Partindo da localidade Garganta do Registro, na fronteira entre os Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, a estrada logo ultrapassa a cota de 2.000 metros. Depois de cerca de nove quilômetros de estrada apenas razoável, chega-se ao Brejo da Lapa, localidade plana cercada por araucárias.

Segundo se diz, é o sítio do "hidroporto" planejado por Getúlio Vargas (1882-1954) para chegar à Casa de Pedra, "o esconderijo do presidente", local presumivelmente inspirado no "Ninho das Águias", casa alpina do ditador alemão nazista Hitler.

Vargas criou o parque do Itatiaia em 1937 e, em 1944, um ano antes do fim da Segunda Guerra Mundial, a região virou sede da Academia Militar de Agulhas Negras.

A partir do Brejo da Lapa, a despeito dos nomes florais, a estrada vira tormento, tem trechos que parecem o leito pedregoso de um rio extinto. São cinco quilômetros que requerem paciência e perícia dos motoristas. Danificar o carro à caminho da portaria do parque é possibilidade nada remota.

O caminho revela uma vista panorâmica do Vale do Paraíba e da serra Fina e o que restou do famoso (e malfalado) hotel Alsene, que foi tido pelo mais alto do país, hoje desativado. Segundo se diz, o hotel teria servido de abrigo para fugitivos nazistas em meados do século passado.

PEDRAS No CAMINHO

Na portaria do parque, o visitante faz o registro e estaciona o veículo caso não tenha reservado o acesso até o abrigo Rebouças, três sacolejantes quilômetros adiante.

Todo o esforço da subida é recompensado pelas paisagens do planalto. O pico das Agulhas Negras, que, com 2.792 metros, é o sexto ponto mais alto do Brasil, destaca-se em meio a um mar de rochas e mata peculiar.

Fica evidente a origem do nome Itatiaia, que vem do tupi-guarani e significa "pedra cheia de pontas".

Mas há outras gigantescas formações rochosas, como a pedra do Altar, o morro do Couto e o pico das Prateleiras, todos entre os cumes mais altos do país, acessíveis por trilhas de variados graus de dificuldade e duração.

As trilhas permitem a observação da flora típica dos campos de altitude, predominando gramíneas e arbustos. Espécies endêmicas, como o diminuto sapinho-flamenguinho, além de gaviões e cachorros-do-mato, também marcam presença.

Uma trilha longa leva ao isolado vale do Aiuruoca, nas cabeceiras do rio homônimo, onde fulgura a pequena cachoeira de rochas inusitadas. CONTRATE UM GUIA

Para quem não tem experiência em trilhas e vai se embrenhar nas puxadas travessias, recomenda-se contratar um guia. No site do parque há uma relação de profissionais cadastrados.

Cobiçadas por aventureiros, as travessias ficaram interditadas oficialmente por muito tempo. Em 2007, foi dado início a um processo gradual de reabertura.

A primeira foi a travessia Ruy Braga, que liga o planalto à parte baixa do parque, seguindo o trajeto planejado originalmente para a BR-485 e passando pelos abrigos Massena e Macieiras.

Dois anos depois foi a vez de a travessia da Serra Negra ser reaberta, ligando o planalto aos vales de Visconde Mauá. E, em junho deste ano, outra Rebouças-Mauá, desta vez via Rancho Caído, foi reaberta.

Assim, obstinados poderão juntar as duas trilhas e fazer a travessia integral do maciço, subindo pela parte baixa até o abrigo Rebouças e, de lá, até Visconde Mauá.

Atletas de ponta, como o maratonista Franck Caldeira, aproveitam o ar um pouco mais rarefeito do planalto para treinamentos.

Candidatos a passar sem conforto uma noite imersa na natureza selvagem devem reservar vaga no abrigo Rebouças. Há camas, fogão, água potável e banho de água fria, além da possibilidade de apreciar o amanhecer gelado nos picos.  

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