"Borba Gato" é obra feia, mas tem a ver com SP; leia entrevista

"Borba Gato" é obra feia, mas tem a ver com SP; leia entrevista

Atualizado: Quinta-feira, 9 Setembro de 2010 as 4:22

O engenheiro e artista plástico brasileiro Ary Perez, 56, tem, em parceria com a mulher, Denise Milan, esculturas públicas em São Paulo e Chicago --esta última, considerada por ele cidade-referência em arte pública.

Pela capital paulista, quem anda pelo jardim das esculturas do MAM (Museu de Arte Moderna), passeia no parque do Carmo ou dá uma paradinha na estação Clínicas do Metrô se depara com instalações permanentes do casal.

Em entrevista à Folha , Perez fala sobre como a arte deve conversar com a cidade, e elege as esculturas mais feias e mais bonitas de São Paulo.

FOLHA - O que é arte pública?

ARY PEREZ - Antigamente, arte pública era aquela coisa estática, autoritária. Encomendava-se, por exemplo, o busto de Getúlio Vargas ou de Duque de Caxias ao Ramos de Azevedo. Era um trabalho muito interessante no ponto de vista neoclássico, mas hoje esse conceito evoluiu. Agora há um diálogo com o entorno, onde não se procura, de uma forma personalista, colocar a marca do artista, mas, sim, criar um diálogo no contexto urbano. A ideia é proporcionar um espaço de reflexão subjetiva.

FOLHA - E qual é o objetivo dessa arte?

PEREZ - A arte pública não deve ser feita para deixar o lugar mais bonitinho. Isso de arte decorativa eu acho complicado. Porque aí fica aquela questão de gosto. Precisa ser um trabalho, uma intervenção artística. E isso é bem difícil.

FOLHA - Qual obra em São Paulo o senhor acha que dialoga melhor com a cidade?

PEREZ - A obra de Brecheret, que é uma maravilha, no parque Ibirapuera, tem identidade com a história da cidade. Ali ocorre um diálogo completo. O Obelisco, do [Galileo] Emendabili é outra referência. Dá pra citar obras feias também. Feias, mas que fazem parte da cidade.

FOLHA - Quais são feias?

PEREZ - O "Borba Gato" [de Júlio Guerra] é uma delas. Uma que é medonha é o monumento fascista [referindo-se ao monumento "Heróis da Travessia do Atlântico", de 1929, que retrata uma estética fascista e incorpora uma coluna romana doada pelo ditador italiano Benito Mussolini], na represa de Guarapiranga. Aquela do Ayrton Senna, em cima do túnel Ayrton Senna, mostra a arte utilizada de forma populista e autoritária. Essa não agrega nada à cidade. Pelo contrário, cria uma referência de péssima qualidade na educação.

FOLHA - E as mais bonitas?

PEREZ - As do Brecheret. Gosto muito dos trabalhos de Tomie Ohtake, tanto a da av. 23 de Maio quanto aquela na entrada do aeroporto de Guarulhos. Gosto das obras que ficam no parque de esculturas do MAM, como as de Nuno Ramos e José Resende. Tem uma do Carlito Carvalhosa e uma do Vergara no Jardim da Luz. Valem a pena.

FOLHA - Qual cidade é referência em arte na rua?

PEREZ - Chicago. A cidade trata a questão como prioridade entre as políticas públicas, com participação da população.

fonte: Folha

Postado por: Juliana Melo

veja também