Chocolatiers veem valor no cacau brasileiro

Chocolatiers veem valor no cacau brasileiro

Atualizado: Segunda-feira, 4 Outubro de 2010 as 2:31

ILHÉUS, Bahia - Já fomos grandes produtores de cacau; deixamos de ser por volta dos anos 80, com a entrada da vassoura-de-bruxa, praga (dizem que criminosa) que acabou com os cacaueiros de Ilhéus. Durante anos a fio tivemos que engolir que as nossas amêndoas eram de segunda. Nos últimos cinco anos, esse quadro sombrio vem ganhando sabores amargos, como convém aos melhores chocolates do mundo. Felizmente.

Nos áureos tempos do cacau brasileiro, Ilhéus chegou a ter nada menos que 500 mil hectares de árvores frondosas e rendosas de Pará, Parazinho e Maranhão, espécies típicas dessa região. Hoje, são apenas 150 mil hectares plantados, 30% menos. Ok, mas o que vem frutificando ali, acredite, é da melhor qualidade.

- Cultivamos mais de 200 tipos de cacau diferentes, a grande maioria voltada para a produção de chocolates finos - conta João Tavares, terceira geração de uma família tradicional de produtores de cacau de Ilhéus.

Em sua fazenda no município de Uruçuba, a uma hora de carro de Ilhéus, já recebeu chocolatiers do top de Jean-Paul Hévin e Pierre Hermé, os grandes nomes da chocolateria francesa do momento. As amêndoas que crescem em sua fazenda Leolinda servem de base para barras e bombons assinados por outro bamba do métier: o belga Pierre Marcolini, que tem várias lojas espalhadas por Paris. No ano passado, Tavares fez parceria com a rede suíça Nespresso para fornecimento de nibes, a amêndoa depois da torra, fundamental na confecção do liquor, que é o ponto de partida para se fazer um bom chocolate.

Mas a mais relevante e comovente parceria na trajetória desse administrador de empresas baiano é com a chef pâtissier carioca Samantha Aquim, que há três anos mergulhou fundo no mundo do chocolate, provou de tudo e de todos e resolveu ir até Ilhéus com um propósito bem definido: fazer o seu próprio chocolate.

E não pense que se trata de tarefa comum. Para quem não sabe (e eu não sabia), poucos são os chocolatiers que fazem o seu chocolate. Aqui e no mundo.

- A prática é comprar a massa do chocolate já processada e é a partir daí que eles atuam: temperam, aromatizam, moldam - conta Samantha, que passou dois anos à cata da amêndoa perfeita para fazer o Q, chocolate que lança este mês.

Na sua composição, só grãos nacionais, de uma safra única e todos oriundos de uma mesma fazenda: a Leolinda. Foram apenas cinco sacas de amêndoas selecionadas, mas todas absolutamente perfeitas. Na boca, notas sutis (bem lá no fundo da boca) de banana, jaca, abacaxi, melão...

- A gente não pode esquecer nunca que o cacau é uma fruta - enfatiza Samantha, que comercializará apenas 200 caixas do Q, já cotadas a preço de ouro.

O preço fica na casa dos R$ 1 mil, com estojo numerado, seis gavetinhas com blends diferentes e outros itens que parecem justificar as cifras salgadas. E last, but not least, traz uma barra de chocolate desenhada por ninguém menos que o arquiteto Oscar Niemeyer, que imprimiu o seu inconfundível traço concebendo uma lâmina de chocolate em forma de chaise longue.

Mês que vem, quando acontece a próxima edição do concorrido Salon du Chocolat, em Paris, vitrine dos melhores chocolatiers do mundo e point dos chocólatras, um grupo de produtores brasileiros estará a postos mostrando que o cacau nacional tem seu valor. Um valor e tanto.

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