Cidade do Cabo - Surpreenda-se com o ar muito mais europeu dessa cidade africana

Cidade do Cabo - Surpreenda-se com o ar muito mais europeu dessa cidade africana

Atualizado: Quarta-feira, 6 Abril de 2011 as 8:52

A Cidade do Cabo, ou Cape Town, é a maior surpresa de quem vai à África do Sul sonhando encontrar um país selvagem e exótico. Com hotéis de luxo, carrões BMW pelas ruas e boa vida noturna, a cidade não combina muito com o chavão de terra habitada por leões e tribos zulus. Aliás, a cidade está mais para europeia do que africana. Até no clima temperado, que possibilita às muitas vinícolas que existem em seu entorno produzir alguns dos melhores vinhos do mundo. É, sem dúvida, um ótimo começo para uma viagem à África do Sul.

Poucos lugares no mundo têm mérito igual para se auto-nomear “esquina do mundo” como a Cidade do Cabo. Fundada por holandeses em 1652 – a primeira do país – e depois tomada de assalto pelos ingleses, que não arredaram o pé dali por 150 anos, serviu durante séculos como zona portuária e ponto de passagem no comércio marítimo com a Ásia. O resultado é que as coisas por ali acabaram um pouco misturadas, o que tornou a cidade de várias cores e culturas, com negros, descendentes europeus, árabes e indianos – estes, trazidos como escravos no século 19 para trabalhar nas plantações de cana.

A mistura foi tanta que nem dá para saber em qual idioma o cidadão local vai falar quando você perguntar alguma coisa. O inglês é o mais comum, mas se o seu interlocutor for um branco descendente de holandeses, pode muito bem ser o africâner, ou se for negro, palavras em xhosa ou zulu. Na arquitetura, o moderno divide o espaço com casas em estilo vitoriano, igrejas neogóticas e mesquitas.

O bairro mais curioso é o malaio, com ruas estreitas  e casinhas geminadas coloridas, onde mulheres de turbante param nas varandas para conversar ou jogar milho para os pombos.

Apesar de curioso, não foi o lado cosmopolita que fez a Cidade do Cabo virar o maior fenômeno turístico da África do Sul, com 21 milhões de visitantes todo os anos. Há também as paisagens e belas praias, embora a água gelada naquelas bandas do Atlântico as tornem impraticáveis para o banho de mar. Mesmo assim, muitas estrangeiras adoram um topless nas areias de Camps Bay.

A cidade fica aos pés da famosa Table Mountain, a Montanha da Mesa, um cartão-postal tão divulgado pelas operadoras de turismo quanto as manadas de elefantes. Nem é das mais altas montanhas da África do Sul, com meros 1.086 m,mas com um magnetismo impressionante na paisagem, graças aos seus 3 km de comprimento. Poucos deixam de pegar o bondinho em um dia de sol para ver a cidade lá de cima dos mirantes.

A Table Mountain representa para o sul-africano o mesmo que o Pão de Açúcar para o brasileiro. Aliás, comparar a Cidade do Cabo com o Rio de Janeiro não é nenhum absurdo: por causa da geografia, ambas contam com uma fotogênica parceria de praias e montanhas.

A semelhança entre as duas cidades tem até explicação científica: seriam parte da mesma porção de território antes da separação dos dois continentes, há milhões de anos.

A principal atração da cidade é o Victoria & Alfred Waterfront, o antigo porto que foi restaurado para se tornar um charmoso centro gastronômico e de compras. Ao som de gaivotas, os turistas passeiam entre lojas de artesanato fino, roupas de grife, bares e restaurantes sofisticados.

Passar o dia no Waterfront é um imenso prazer. Além de passeios de barco para ver baleias jubarte, que aparecem entre julho e novembro para acasalar naquele pedaço da costa sul-africana, ninguém deixa de ir ao Aquarium Two Oceans, com quase 8 mil exemplares de peixes e corais dos oceanos Atlântico e Índico. No grande aquário principal, ao fim de um percurso de meia-hora, estão os peixes predadores e tubarões brancos. O lance é estar lá pontualmente às 15h30, quando o pessoal do aquário cuida da alimentação das espécies vorazes.

Nos finais de tarde, músicos fazem apresentações ao ar livre em cada esquina do Waterfront. Ouve-se de tudo: jazz, tango, corais sul-africanos e até bossa nova. Faça hora por ali até o pôr-do-sol tingir de dourado a Table Mountain, o pano de fundo do Waterfront, e volte mais tarde, quando os bares do agito abrem as portas. No Manenberg´s, o jazz de qualidade vai tentá-lo a permanecer nos drinques até a última música. A noite da Cidade do Cabo acontece também na Long Street, no centro, que tem uma atraente sequência de bares e boates.

O melhor passeio histórico-cultural começa nos deques do Waterfront, de onde saem os barcos à Robben Island, a ilha-presídio na qual Nelson Mandela e outros líderes que combateram o apartheid ficaram presos.

Está a 12 km da costa (20 minutos de lancha) e o passeio leva cerca de duas horas. A visitação incluiu uma volta de ônibus pela ilha e uma caminhada pelo presídio, inclusive na cela em que Mandela passou 27 anos, antes de ser libertado em 1990 e virar presidente quatro anos depois.

Na vila onde moravam os guardas e carcereiros brancos da prisão, vive hoje uma maioria negra e muitos ex-prisioneiros, como Lionel Davis, que passou seis anos como detento e hoje trabalha como guia no museu. Davis conta para os turistas detalhes sobre como era a vida na cadeia e as condições desumanas a que os presos eram sujeitados. Para se ter uma idéia, até a década de 1970, não havia banheiro nem camas nas celas.

Robben Island se tornou o principal símbolo do apartheid. O regime político de segregação entre brancos e não-brancos durou séculos, até que o embargo internacional e a luta do Congresso Nacional Africano  – tendo Nelson Mandela e Desmond Tutu, o primeiro arcebispo negro sul-africano, como principais porta-vozes – livraram o país dessa mazela.

Se pelo menos acabou o racismo formal que proibia os negros de circular em ônibus e banheiros exclusivos para brancos, as consequências sociais do regime não teriam como desaparecer em tão pouco tempo. Mas as coisas, aos poucos vão melhorando. Logo após o fim do apartheid, em 1994, o país deixou uma década de estagnação para entrar num ciclo de crescimento econômico, com médias de 3% ao ano, que vem favorecendo um aumento crescente da classe média negra no país.

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