Concentração de albergues para turistas na Vila Madalena atrai estrangeiros

Concentração de albergues para turistas na Vila Madalena atrai estrangeiros

Atualizado: Quarta-feira, 30 Setembro de 2009 as 12

Eles ainda estão em pequeno número na cidade de São Paulo, mas aos poucos os hostels - acomodações mais simples que os hotéis, normalmente com quartos e banheiros coletivos, chamados de albergues no Brasil - passam a atrair a preferência dos turistas. Na capital paulista, segundo empresários do setor, há dez estabelecimentos do tipo. Desses, quatro ficam na região da Vila Madealena e de Pinheiros, atraídos pela vida noturna, cena artística e qualidade de vida do bairro da Zona Oeste.

"O hostel tem que estar rodeado de serviços fáceis para o hóspede estrangeiro. Quando fizemos nossa pesquisa para abrir o negócio, vimos que em outras cidades do mundo, os hostels estavam em bairros parecidos com a Vila Madalena", conta Andrea Donatti Figueroa. Ela é sócia do Sampa Hostel, aberto há um ano e meio. "Ficar em hostel é um estilo de vida, um perfil de viajante. Quem quer privacidade e individualidade, deve procurar um hotel. O hostel é para quem quer integração, convívio, é um lugar para fazer amigos."

Andrea conta que um dos empecilhos para o surgimento de mais hostels em São Paulo é que a cidade não é vista pelos estrangeiros como turística e eles são  80% do público da empreendedora.

"Os estrangeiros não colocam São Paulo em seu roteiro como um lugar turístico, mas sim como local de passagem. Nós temos um trabalho muito grande com nossos clientes para mostrar a cidade para eles e fazê-los ficar mais".

Foi o caso do israelense Tomer Laufer, de 26 anos, estudante de ciência da computação. Ele aproveitou as férias da faculdade para viajar dois meses – um pelo Peru, o outro pelo Brasil. No primeiro país, conheceu uma paulistana, e acabou resolvendo ficar uns dias em São Paulo - antes, apenas faria conexões aéreas na cidade.

Ele elogiou a qualidade dos hostels brasileiros. "É um dos melhores que já fiquei. Sempre fico em hostels quando viajo, porque são mais baratos. Gostei muito dos funcionários, muito atenciosos", disse o estudante, que chegou ao Sampa Hostel por meio de indicação de um amigo.

O Sampa Hostel é o único do bairro associado à Hostelling International, associação internacional que reúne albergues da juventude espalhados pelo mundo. Na cidade de São Paulo, apenas três são filiados. No estado, são 13. A rede internacional garante um padrão de qualidade e descontos para os membros que possuem a carteirinha. Mas isso não significa que não há boas opções fora dela.

Um exemplo é o Vila Madalena Hostel, aberto em abril deste ano em uma rua do bairro. O local tem a melhor taxa de aprovação dos usuários entre os nove hostels de São Paulo no site Hostel World, que permite buscas pelos estabelecimentos de todo o mundo e até faz a intermediação das reservas. Com foco na arte - todos os quartos e ambientes da casa onde está montado têm detalhes de design - ele procura oferecer um serviço especializado.

"Nosso perfil de público é um pouco diferente. Não temos bar dentro, queremos garantir o sono para quem quer descansar, todos os quartos têm ar condicionado. Somos muito focados em arte e design, damos suporte para as pessoas que estão procurando coisas relacionadas. Por isso estamos aqui na Vila Madalena", explica Túlio Tallini, dono do local.

Segundo ele, cada hóspede é atendido de maneira individual, e são oferecidos roteiros especializados, dependendo do tipo de arte que a pessoa está interessada. Com isso, 95% dos clientes são estrangeiros. "Apresentamos a cidade com uma visão da gente que mora aqui. Em um hotel, a recepção geralmente não tem tempo para fazer isso. Aqui nós tratamos as pessoas de maneira bem mais próxima."

Festa

Quem precisa gastar pouco e quer ambiente de festa pode encontrar o que procura no Casa Club, outro hostel que fica na Vila Madalena. Aberto em janeiro de 2008, ele conta com um bar dentro de suas instalações, que também é aberto para não-hóspedes. Uma vez por semana, são promovidos churrascos, e os estrangeiros também são levados para baladas, jogos de futebol e outros lugares na cidade.

Segundo pesquisa feita com os primeiros 4 mil hóspedes, 17% deles são brasileiros, e os outros 83% vieram de diversos países do mundo - principalmente Inglaterra, Estados Unidos e Austrália. "Eles gostam muito da localização, acham fácil se locomover pela Vila Madalena, acham o bairro seguro e com uma atmosfera descontraída", conta Bárbara Oliveira De Loreto, gerente do local.

Para se adequar ao clima de festa, a recepção fica aberta 24 horas por dia e o café da manhã é servido até as 11h. "Nós insistimos para o gringo ir para a balada e voltar bem tarde", conta Bárbara.

Instalações

Como o foco dos hostels é a integração entre os hóspedes, eles normalmente têm quase todos os seus leitos instalados em quartos coletivos, que variam de 4 a 16 camas (normalmente beliches). Os três estabelecimentos consultados pelo G1 oferecem quartos que podem ser privativos, utilizados por uma pessoa apenas ou por um ou dois casais. Os banheiros também são coletivos, e apenas no Casa Club ficam dentro dos quartos.

Os três locais também contam com cozinha coletiva, sala de integração e depósito para guardar malas. Nas diárias, que variam de R$ 35 a R$ 55, dependendo do hostel e do tipo de quarto escolhidos, estão incluídas roupa de cama, cobertor, café da manhã e toalha - o último item não é oferecido no Sampa Hostel.

Aumento da oferta

Andrea, sócia do Sampa Hostel, acredita que o nome albergue, como foi traduzido o termo hostel, dificulta a inserção no mercado. "Albergue é pejorativo no Brasil, lembra os abrigos da prefeitura para moradores de rua. Por isso a gente usa hostel, porque albergue não funciona".

Segundo ela, os hóspedes que vêm de outras cidades do Brasil em sua maioria passam apenas uma noite, e usam o hostel como alternativa barata de hospedagem para uma noite - os exemplos mais frequentes são pessoas que vêm à capital paulista para uma reunião, uma entrevista de emprego, ou um evento, como um show. "Já estou com reservas para o show do AC/DC. No show da Madonna, ano passado, ficamos lotados", contou Andrea.

Ela se diz preocupada com a maior oferta de hostels em São Paulo, pois fora da temporada, é difícil se manter. "Fora dos meses mais cheios, dezembro, janeiro e fevereiro, em que ficamos lotados, eu trabalho no limite. Só vamos ter demanda maior na época da Copa do Mundo de 2014, mas estou preocupada em como os novos estabelecimentos vão se manter até lá".

Para Sávio Mourão Henrique, proprietário do Casa Club, para que os hostels entrem no caminho dos viajantes brasileiros é preciso mudanças nas posturas governamentais. "Quando o brasileiro perceber que o Brasil merece ser conhecido por ele e os meios de transporte aéreo abrirem definitivamente as portas para a classe média teremos mais brasileiros nos hostels que estrangeiros".

Postado por: Felipe Pinheiro

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