Cruzeiro percorre ilhas e geleiras da Patagônia rumo ao 'fim do mundo'

Cruzeiro percorre ilhas e geleiras da Patagônia rumo ao 'fim do mundo'

Atualizado: Sexta-feira, 8 Outubro de 2010 as 1:31

No centro da praça principal da cidade chilena de Punta Arenas, a última cidade do país sentido sul, há um monumento em homenagem ao navegador Fernão de Magalhães. Há um ritual que diz que para você garantir sua volta àquela cidade, é preciso tocar no pé do índio da estátua. Visitar o local antes de embarcar no cruzeiro Australis pode ajudar os viajantes mais temerosos (e supersticiosos). Vale tudo para garantir sua volta à terra firme, principalmente para quem vai navegar por geleiras rumo ao Fim do Mundo.

Fim do mundo mesmo: demorei quase quatro horas para ir de São Paulo a Santiago (sem escalas), cheguei a 1h na capital chilena e pude descansar um pouquinho em um hotel até às 6h para voltar ao aeroporto e seguir a Punta Arenas, ou seja, mais quatro horas de voo. Chegando lá, o vento patagônico cortante e as ruas vazias já anunciam o “fim da linha”.

O navio percorre a região da Terra do Fogo (apesar de que de fogo ali não tem nada), saindo de Punta Arenas, no Chile, com parada em Ushuaia, na Argentina, onde alguns turistas encerram a viagem, e volta para o município chileno (há também a opção de iniciar a viagem na Argentina; ver ao fim do texto, em Como Chegar). Ambas as cidades se declaram como a mais austral do continente (o que significa “a que está mais ao sul”) – o título é uma briga antiga entre os dois países. Olhando no mapa, o ponto que está mais ao sul fica no território chileno, o Cabo Horn – por isso é uma das paradas mais cobiçadas para os que embarcam no cruzeiro.

Antes de começar a descrever o navio, apague da sua mente o estereótipo de cruzeiros. Não tem piscina, cassino, quadra de tênis nem jantar de gala com o capitão. É um navio pequeno, com quatro andares disponíveis para hospedagem, que abrigam também duas salas com bar, um restaurante, a recepção e áreas externas para os corajosos que se dispõem a enfrentar o vento gelado e a temperatura negativa para observar a paisagem.

A embarcação mistura duas formas distintas de viagem. Ao mesmo tempo em que é uma expedição aventureira, ideal para quem se interessa por natureza, meio ambiente e animais, é também uma viagem que não deixa de lado o conforto e o requinte, com sistema all-inclusive, cardápio elaborado, acomodações aconchegantes e decoração retrô.

O contato com a natureza é a regra número um e o desligamento do mundo externo é a primeira mudança notável na viagem. Não há sinal para internet nem celular (as ligações telefônicas podem ser feitas somente através de um telefone via satélite, a partir de U$ 3,00 o minuto). Televisão? Não vi nenhuma. A única distração que existe nas cabines é circuito interno de áudio, com quatro estações com programações distintas, que eventualmente são interrompidas para comunicados da tripulação, como horários dos passeios, refeições ou até curiosidades, como “agora percorremos o canal Beagle”.

As cabines são aquecidas, aconchegantes e todas oferecem vista para o mar. Às vezes tinha a impressão de que minha janela era mais um quadro pendurado na parede, quando via montanhas cobertas de neve e um céu azul dentro do retângulo.

A programação conta com dois passeios por dia, um na parte da manhã e outro à tarde. Entre uma saída e outra, os guias de turismo oferecem palestras em inglês, espanhol e francês sobre a vegetação típica da Patagônica, as diferentes espécies de aves que habitam a região, a história do naturalista Charles Darwin (com ênfase no período em que visitou a Patagônia e o que isso influenciou na teoria da 'Origem das Espécies') e até workshops que ensinam a preparar drinks e a degustar vinhos.

As saídas mais tranqüilas são para a Baía Ainsworth, Isla Tucker e Isla Magdalena. Já outros passeios exigem um pouco mais de coragem e disposição, como a ida aos glaciares Pía, Nena e Piloto. Não há perigo de cair do bote, mas o balanço agressivo do mar pode assustar, e a caminhada pela montanha vizinha ao Glaciar Pía pode ser exaustiva, principalmente se estiver nevando e o chão estiver escorregadio.

Na Baía Wulaia, há uma trilha de trinta minutos bem íngreme para subir até o topo e observar a geografia belíssima do local. Quem não quiser fazer a trilha não ficará decepcionado, pois há um museu dos índios Yàmanas nas imediações.

Por fim, o Cabo Horn. O passeio mais cobiçado pelos turistas que embarcam no cruzeiro Australis não depende apenas da sua disposição em ir até lá e acordar cedo: é preciso que o tempo colabore. Como fiz ida e volta, tive duas chances de ir até o ponto mais austral do continente, mas na primeira tentativa os ventos chegaram a 120 km/h. Não dava nem para sair do navio para fazer fotos que o nariz congelava.

Os guias de turismo do cruzeiro são um capítulo à parte. São eles que nos introduzem à realidade da Patagônia, com um olhar totalmente parcial e apaixonado. Eles conseguem transmitir esse encantamento nas palestras, nos guiando pelas trilhas e até quando agitam os eventos noturnos do navio. Mas há uma tradição especial: ao final de cada trilha (ou mesmo em alguma parada em um lago ou em um mirante), eles nos pedem para desligar as câmeras e silenciar por um minuto para contemplar a natureza.

São detalhes que fazem com que a expedição, mesmo proporcionando muita aventura, tenha um toque de aconchego. Um deles é que, ao fim de cada trilha ou passeio, o próprio barman do navio serve copos de uísque com gelo glacial e chocolate quente aos turistas.

A organização da equipe é impecável e caprichada. Quando navegamos pela Avenida das Geleiras, a tripulação convocou os turistas para apreciar um coquetel no bar superior do navio, enquanto um dos guias nos apresentou cada uma das montanhas pelo rádio. Enquanto observamos a geleira da Alemanha pelas janelas, cerveja e salsichas foram servidas. Ao passar pela da Itália, mini pizzas e vinho. Na da Holanda, croquetes e cerveja e na da França, queijo e champagne. Foi uma das tardes mais agradáveis da viagem: estávamos todos quentinhos dentro do navio, desfrutando de petiscos e bebidas ao mesmo tempo em que contemplávamos a vista.

Na última noite da viagem, o capitão costuma fazer um discurso de agradecimento e promove um leilão da carta de navegação usada na viagem. Depois há também um sorteio de uma bandeira da Cruzeiro Australis. Quem não angariar nenhum desses itens, tem ainda a opção de comprar souvenirs na recepção do navio, que vende pingüins de pelúcia, moletons e blusas com estampas temáticas da Patagônia, chaveiros etc.

De volta a Punta Arenas, fiz questão de voltar à estátua da Plaza de Armas e tocar mais uma vez no pé do índio – desta vez para garantir meu retorno àquelas bandas geladas e encantadoras.

Como Chegar

Há quatro opções de fazer este cruzeiro: viagem de quatro noites (Punta Arenas-Ushuaia), três noites (Ushuaia-Punta Arenas), sete noites saindo e voltando para Punta Arenas e sete noites saindo e voltando para Ushuaia. De qualquer forma, é necessário pegar dois voos na ida e dois na volta, sejam eles para Buenos Aires e Ushuaia ou Santiago e Punta Arenas. Ao chegar à cidade escolhida, a agência de turismo que promove o cruzeiro oferece um transfer do aeroporto até o navio.

No centro da praça principal da cidade chilena de Punta Arenas, a última cidade do país sentido sul, há um monumento em homenagem ao navegador Fernão de Magalhães. Há um ritual que diz que para você garantir sua volta àquela cidade, é preciso tocar no pé do índio da estátua. Visitar o local antes de embarcar no cruzeiro Australis pode ajudar os viajantes mais temerosos (e supersticiosos). Vale tudo para garantir sua volta à terra firme, principalmente para quem vai navegar por geleiras rumo ao Fim do Mundo.

Fim do mundo mesmo: demorei quase quatro horas para ir de São Paulo a Santiago (sem escalas), cheguei a 1h na capital chilena e pude descansar um pouquinho em um hotel até às 6h para voltar ao aeroporto e seguir a Punta Arenas, ou seja, mais quatro horas de voo. Chegando lá, o vento patagônico cortante e as ruas vazias já anunciam o “fim da linha”.

O navio percorre a região da Terra do Fogo (apesar de que de fogo ali não tem nada), saindo de Punta Arenas, no Chile, com parada em Ushuaia, na Argentina, onde alguns turistas encerram a viagem, e volta para o município chileno (há também a opção de iniciar a viagem na Argentina; ver ao fim do texto, em Como Chegar). Ambas as cidades se declaram como a mais austral do continente (o que significa “a que está mais ao sul”) – o título é uma briga antiga entre os dois países. Olhando no mapa, o ponto que está mais ao sul fica no território chileno, o Cabo Horn – por isso é uma das paradas mais cobiçadas para os que embarcam no cruzeiro.

Antes de começar a descrever o navio, apague da sua mente o estereótipo de cruzeiros. Não tem piscina, cassino, quadra de tênis nem jantar de gala com o capitão. É um navio pequeno, com quatro andares disponíveis para hospedagem, que abrigam também duas salas com bar, um restaurante, a recepção e áreas externas para os corajosos que se dispõem a enfrentar o vento gelado e a temperatura negativa para observar a paisagem.

A embarcação mistura duas formas distintas de viagem. Ao mesmo tempo em que é uma expedição aventureira, ideal para quem se interessa por natureza, meio ambiente e animais, é também uma viagem que não deixa de lado o conforto e o requinte, com sistema all-inclusive, cardápio elaborado, acomodações aconchegantes e decoração retrô.

O contato com a natureza é a regra número um e o desligamento do mundo externo é a primeira mudança notável na viagem. Não há sinal para internet nem celular (as ligações telefônicas podem ser feitas somente através de um telefone via satélite, a partir de U$ 3,00 o minuto). Televisão? Não vi nenhuma. A única distração que existe nas cabines é circuito interno de áudio, com quatro estações com programações distintas, que eventualmente são interrompidas para comunicados da tripulação, como horários dos passeios, refeições ou até curiosidades, como “agora percorremos o canal Beagle”.

As cabines são aquecidas, aconchegantes e todas oferecem vista para o mar. Às vezes tinha a impressão de que minha janela era mais um quadro pendurado na parede, quando via montanhas cobertas de neve e um céu azul dentro do retângulo.

A programação conta com dois passeios por dia, um na parte da manhã e outro à tarde. Entre uma saída e outra, os guias de turismo oferecem palestras em inglês, espanhol e francês sobre a vegetação típica da Patagônica, as diferentes espécies de aves que habitam a região, a história do naturalista Charles Darwin (com ênfase no período em que visitou a Patagônia e o que isso influenciou na teoria da 'Origem das Espécies') e até workshops que ensinam a preparar drinks e a degustar vinhos.

As saídas mais tranqüilas são para a Baía Ainsworth, Isla Tucker e Isla Magdalena. Já outros passeios exigem um pouco mais de coragem e disposição, como a ida aos glaciares Pía, Nena e Piloto. Não há perigo de cair do bote, mas o balanço agressivo do mar pode assustar, e a caminhada pela montanha vizinha ao Glaciar Pía pode ser exaustiva, principalmente se estiver nevando e o chão estiver escorregadio.

Na Baía Wulaia, há uma trilha de trinta minutos bem íngreme para subir até o topo e observar a geografia belíssima do local. Quem não quiser fazer a trilha não ficará decepcionado, pois há um museu dos índios Yàmanas nas imediações.

Por fim, o Cabo Horn. O passeio mais cobiçado pelos turistas que embarcam no cruzeiro Australis não depende apenas da sua disposição em ir até lá e acordar cedo: é preciso que o tempo colabore. Como fiz ida e volta, tive duas chances de ir até o ponto mais austral do continente, mas na primeira tentativa os ventos chegaram a 120 km/h. Não dava nem para sair do navio para fazer fotos que o nariz congelava.

Os guias de turismo do cruzeiro são um capítulo à parte. São eles que nos introduzem à realidade da Patagônia, com um olhar totalmente parcial e apaixonado. Eles conseguem transmitir esse encantamento nas palestras, nos guiando pelas trilhas e até quando agitam os eventos noturnos do navio. Mas há uma tradição especial: ao final de cada trilha (ou mesmo em alguma parada em um lago ou em um mirante), eles nos pedem para desligar as câmeras e silenciar por um minuto para contemplar a natureza.

São detalhes que fazem com que a expedição, mesmo proporcionando muita aventura, tenha um toque de aconchego. Um deles é que, ao fim de cada trilha ou passeio, o próprio barman do navio serve copos de uísque com gelo glacial e chocolate quente aos turistas.

A organização da equipe é impecável e caprichada. Quando navegamos pela Avenida das Geleiras, a tripulação convocou os turistas para apreciar um coquetel no bar superior do navio, enquanto um dos guias nos apresentou cada uma das montanhas pelo rádio. Enquanto observamos a geleira da Alemanha pelas janelas, cerveja e salsichas foram servidas. Ao passar pela da Itália, mini pizzas e vinho. Na da Holanda, croquetes e cerveja e na da França, queijo e champagne. Foi uma das tardes mais agradáveis da viagem: estávamos todos quentinhos dentro do navio, desfrutando de petiscos e bebidas ao mesmo tempo em que contemplávamos a vista.

Na última noite da viagem, o capitão costuma fazer um discurso de agradecimento e promove um leilão da carta de navegação usada na viagem. Depois há também um sorteio de uma bandeira da Cruzeiro Australis. Quem não angariar nenhum desses itens, tem ainda a opção de comprar souvenirs na recepção do navio, que vende pingüins de pelúcia, moletons e blusas com estampas temáticas da Patagônia, chaveiros etc.

De volta a Punta Arenas, fiz questão de voltar à estátua da Plaza de Armas e tocar mais uma vez no pé do índio – desta vez para garantir meu retorno àquelas bandas geladas e encantadoras.

Como Chegar

Há quatro opções de fazer este cruzeiro: viagem de quatro noites (Punta Arenas-Ushuaia), três noites (Ushuaia-Punta Arenas), sete noites saindo e voltando para Punta Arenas e sete noites saindo e voltando para Ushuaia. De qualquer forma, é necessário pegar dois voos na ida e dois na volta, sejam eles para Buenos Aires e Ushuaia ou Santiago e Punta Arenas. Ao chegar à cidade escolhida, a agência de turismo que promove o cruzeiro oferece um transfer do aeroporto até o navio.

No centro da praça principal da cidade chilena de Punta Arenas, a última cidade do país sentido sul, há um monumento em homenagem ao navegador Fernão de Magalhães. Há um ritual que diz que para você garantir sua volta àquela cidade, é preciso tocar no pé do índio da estátua. Visitar o local antes de embarcar no cruzeiro Australis pode ajudar os viajantes mais temerosos (e supersticiosos). Vale tudo para garantir sua volta à terra firme, principalmente para quem vai navegar por geleiras rumo ao Fim do Mundo.

Fim do mundo mesmo: demorei quase quatro horas para ir de São Paulo a Santiago (sem escalas), cheguei a 1h na capital chilena e pude descansar um pouquinho em um hotel até às 6h para voltar ao aeroporto e seguir a Punta Arenas, ou seja, mais quatro horas de voo. Chegando lá, o vento patagônico cortante e as ruas vazias já anunciam o “fim da linha”.

O navio percorre a região da Terra do Fogo (apesar de que de fogo ali não tem nada), saindo de Punta Arenas, no Chile, com parada em Ushuaia, na Argentina, onde alguns turistas encerram a viagem, e volta para o município chileno (há também a opção de iniciar a viagem na Argentina; ver ao fim do texto, em Como Chegar). Ambas as cidades se declaram como a mais austral do continente (o que significa “a que está mais ao sul”) – o título é uma briga antiga entre os dois países. Olhando no mapa, o ponto que está mais ao sul fica no território chileno, o Cabo Horn – por isso é uma das paradas mais cobiçadas para os que embarcam no cruzeiro.

Antes de começar a descrever o navio, apague da sua mente o estereótipo de cruzeiros. Não tem piscina, cassino, quadra de tênis nem jantar de gala com o capitão. É um navio pequeno, com quatro andares disponíveis para hospedagem, que abrigam também duas salas com bar, um restaurante, a recepção e áreas externas para os corajosos que se dispõem a enfrentar o vento gelado e a temperatura negativa para observar a paisagem.

A embarcação mistura duas formas distintas de viagem. Ao mesmo tempo em que é uma expedição aventureira, ideal para quem se interessa por natureza, meio ambiente e animais, é também uma viagem que não deixa de lado o conforto e o requinte, com sistema all-inclusive, cardápio elaborado, acomodações aconchegantes e decoração retrô.

O contato com a natureza é a regra número um e o desligamento do mundo externo é a primeira mudança notável na viagem. Não há sinal para internet nem celular (as ligações telefônicas podem ser feitas somente através de um telefone via satélite, a partir de U$ 3,00 o minuto). Televisão? Não vi nenhuma. A única distração que existe nas cabines é circuito interno de áudio, com quatro estações com programações distintas, que eventualmente são interrompidas para comunicados da tripulação, como horários dos passeios, refeições ou até curiosidades, como “agora percorremos o canal Beagle”.

As cabines são aquecidas, aconchegantes e todas oferecem vista para o mar. Às vezes tinha a impressão de que minha janela era mais um quadro pendurado na parede, quando via montanhas cobertas de neve e um céu azul dentro do retângulo.

A programação conta com dois passeios por dia, um na parte da manhã e outro à tarde. Entre uma saída e outra, os guias de turismo oferecem palestras em inglês, espanhol e francês sobre a vegetação típica da Patagônica, as diferentes espécies de aves que habitam a região, a história do naturalista Charles Darwin (com ênfase no período em que visitou a Patagônia e o que isso influenciou na teoria da 'Origem das Espécies') e até workshops que ensinam a preparar drinks e a degustar vinhos.

As saídas mais tranqüilas são para a Baía Ainsworth, Isla Tucker e Isla Magdalena. Já outros passeios exigem um pouco mais de coragem e disposição, como a ida aos glaciares Pía, Nena e Piloto. Não há perigo de cair do bote, mas o balanço agressivo do mar pode assustar, e a caminhada pela montanha vizinha ao Glaciar Pía pode ser exaustiva, principalmente se estiver nevando e o chão estiver escorregadio.

Na Baía Wulaia, há uma trilha de trinta minutos bem íngreme para subir até o topo e observar a geografia belíssima do local. Quem não quiser fazer a trilha não ficará decepcionado, pois há um museu dos índios Yàmanas nas imediações.

Por fim, o Cabo Horn. O passeio mais cobiçado pelos turistas que embarcam no cruzeiro Australis não depende apenas da sua disposição em ir até lá e acordar cedo: é preciso que o tempo colabore. Como fiz ida e volta, tive duas chances de ir até o ponto mais austral do continente, mas na primeira tentativa os ventos chegaram a 120 km/h. Não dava nem para sair do navio para fazer fotos que o nariz congelava.

Os guias de turismo do cruzeiro são um capítulo à parte. São eles que nos introduzem à realidade da Patagônia, com um olhar totalmente parcial e apaixonado. Eles conseguem transmitir esse encantamento nas palestras, nos guiando pelas trilhas e até quando agitam os eventos noturnos do navio. Mas há uma tradição especial: ao final de cada trilha (ou mesmo em alguma parada em um lago ou em um mirante), eles nos pedem para desligar as câmeras e silenciar por um minuto para contemplar a natureza.

São detalhes que fazem com que a expedição, mesmo proporcionando muita aventura, tenha um toque de aconchego. Um deles é que, ao fim de cada trilha ou passeio, o próprio barman do navio serve copos de uísque com gelo glacial e chocolate quente aos turistas.

A organização da equipe é impecável e caprichada. Quando navegamos pela Avenida das Geleiras, a tripulação convocou os turistas para apreciar um coquetel no bar superior do navio, enquanto um dos guias nos apresentou cada uma das montanhas pelo rádio. Enquanto observamos a geleira da Alemanha pelas janelas, cerveja e salsichas foram servidas. Ao passar pela da Itália, mini pizzas e vinho. Na da Holanda, croquetes e cerveja e na da França, queijo e champagne. Foi uma das tardes mais agradáveis da viagem: estávamos todos quentinhos dentro do navio, desfrutando de petiscos e bebidas ao mesmo tempo em que contemplávamos a vista.

Na última noite da viagem, o capitão costuma fazer um discurso de agradecimento e promove um leilão da carta de navegação usada na viagem. Depois há também um sorteio de uma bandeira da Cruzeiro Australis. Quem não angariar nenhum desses itens, tem ainda a opção de comprar souvenirs na recepção do navio, que vende pingüins de pelúcia, moletons e blusas com estampas temáticas da Patagônia, chaveiros etc.

De volta a Punta Arenas, fiz questão de voltar à estátua da Plaza de Armas e tocar mais uma vez no pé do índio – desta vez para garantir meu retorno àquelas bandas geladas e encantadoras.

Como Chegar

Há quatro opções de fazer este cruzeiro: viagem de quatro noites (Punta Arenas-Ushuaia), três noites (Ushuaia-Punta Arenas), sete noites saindo e voltando para Punta Arenas e sete noites saindo e voltando para Ushuaia. De qualquer forma, é necessário pegar dois voos na ida e dois na volta, sejam eles para Buenos Aires e Ushuaia ou Santiago e Punta Arenas. Ao chegar à cidade escolhida, a agência de turismo que promove o cruzeiro oferece um transfer do aeroporto até o navio.

No centro da praça principal da cidade chilena de Punta Arenas, a última cidade do país sentido sul, há um monumento em homenagem ao navegador Fernão de Magalhães. Há um ritual que diz que para você garantir sua volta àquela cidade, é preciso tocar no pé do índio da estátua. Visitar o local antes de embarcar no cruzeiro Australis pode ajudar os viajantes mais temerosos (e supersticiosos). Vale tudo para garantir sua volta à terra firme, principalmente para quem vai navegar por geleiras rumo ao Fim do Mundo.

Fim do mundo mesmo: demorei quase quatro horas para ir de São Paulo a Santiago (sem escalas), cheguei a 1h na capital chilena e pude descansar um pouquinho em um hotel até às 6h para voltar ao aeroporto e seguir a Punta Arenas, ou seja, mais quatro horas de voo. Chegando lá, o vento patagônico cortante e as ruas vazias já anunciam o “fim da linha”.

O navio percorre a região da Terra do Fogo (apesar de que de fogo ali não tem nada), saindo de Punta Arenas, no Chile, com parada em Ushuaia, na Argentina, onde alguns turistas encerram a viagem, e volta para o município chileno (há também a opção de iniciar a viagem na Argentina; ver ao fim do texto, em Como Chegar). Ambas as cidades se declaram como a mais austral do continente (o que significa “a que está mais ao sul”) – o título é uma briga antiga entre os dois países. Olhando no mapa, o ponto que está mais ao sul fica no território chileno, o Cabo Horn – por isso é uma das paradas mais cobiçadas para os que embarcam no cruzeiro.

Antes de começar a descrever o navio, apague da sua mente o estereótipo de cruzeiros. Não tem piscina, cassino, quadra de tênis nem jantar de gala com o capitão. É um navio pequeno, com quatro andares disponíveis para hospedagem, que abrigam também duas salas com bar, um restaurante, a recepção e áreas externas para os corajosos que se dispõem a enfrentar o vento gelado e a temperatura negativa para observar a paisagem.

A embarcação mistura duas formas distintas de viagem. Ao mesmo tempo em que é uma expedição aventureira, ideal para quem se interessa por natureza, meio ambiente e animais, é também uma viagem que não deixa de lado o conforto e o requinte, com sistema all-inclusive, cardápio elaborado, acomodações aconchegantes e decoração retrô.

O contato com a natureza é a regra número um e o desligamento do mundo externo é a primeira mudança notável na viagem. Não há sinal para internet nem celular (as ligações telefônicas podem ser feitas somente através de um telefone via satélite, a partir de U$ 3,00 o minuto). Televisão? Não vi nenhuma. A única distração que existe nas cabines é circuito interno de áudio, com quatro estações com programações distintas, que eventualmente são interrompidas para comunicados da tripulação, como horários dos passeios, refeições ou até curiosidades, como “agora percorremos o canal Beagle”.

As cabines são aquecidas, aconchegantes e todas oferecem vista para o mar. Às vezes tinha a impressão de que minha janela era mais um quadro pendurado na parede, quando via montanhas cobertas de neve e um céu azul dentro do retângulo.

A programação conta com dois passeios por dia, um na parte da manhã e outro à tarde. Entre uma saída e outra, os guias de turismo oferecem palestras em inglês, espanhol e francês sobre a vegetação típica da Patagônica, as diferentes espécies de aves que habitam a região, a história do naturalista Charles Darwin (com ênfase no período em que visitou a Patagônia e o que isso influenciou na teoria da 'Origem das Espécies') e até workshops que ensinam a preparar drinks e a degustar vinhos.

As saídas mais tranqüilas são para a Baía Ainsworth, Isla Tucker e Isla Magdalena. Já outros passeios exigem um pouco mais de coragem e disposição, como a ida aos glaciares Pía, Nena e Piloto. Não há perigo de cair do bote, mas o balanço agressivo do mar pode assustar, e a caminhada pela montanha vizinha ao Glaciar Pía pode ser exaustiva, principalmente se estiver nevando e o chão estiver escorregadio.

Na Baía Wulaia, há uma trilha de trinta minutos bem íngreme para subir até o topo e observar a geografia belíssima do local. Quem não quiser fazer a trilha não ficará decepcionado, pois há um museu dos índios Yàmanas nas imediações.

Por fim, o Cabo Horn. O passeio mais cobiçado pelos turistas que embarcam no cruzeiro Australis não depende apenas da sua disposição em ir até lá e acordar cedo: é preciso que o tempo colabore. Como fiz ida e volta, tive duas chances de ir até o ponto mais austral do continente, mas na primeira tentativa os ventos chegaram a 120 km/h. Não dava nem para sair do navio para fazer fotos que o nariz congelava.

Os guias de turismo do cruzeiro são um capítulo à parte. São eles que nos introduzem à realidade da Patagônia, com um olhar totalmente parcial e apaixonado. Eles conseguem transmitir esse encantamento nas palestras, nos guiando pelas trilhas e até quando agitam os eventos noturnos do navio. Mas há uma tradição especial: ao final de cada trilha (ou mesmo em alguma parada em um lago ou em um mirante), eles nos pedem para desligar as câmeras e silenciar por um minuto para contemplar a natureza.

São detalhes que fazem com que a expedição, mesmo proporcionando muita aventura, tenha um toque de aconchego. Um deles é que, ao fim de cada trilha ou passeio, o próprio barman do navio serve copos de uísque com gelo glacial e chocolate quente aos turistas.

A organização da equipe é impecável e caprichada. Quando navegamos pela Avenida das Geleiras, a tripulação convocou os turistas para apreciar um coquetel no bar superior do navio, enquanto um dos guias nos apresentou cada uma das montanhas pelo rádio. Enquanto observamos a geleira da Alemanha pelas janelas, cerveja e salsichas foram servidas. Ao passar pela da Itália, mini pizzas e vinho. Na da Holanda, croquetes e cerveja e na da França, queijo e champagne. Foi uma das tardes mais agradáveis da viagem: estávamos todos quentinhos dentro do navio, desfrutando de petiscos e bebidas ao mesmo tempo em que contemplávamos a vista.

Na última noite da viagem, o capitão costuma fazer um discurso de agradecimento e promove um leilão da carta de navegação usada na viagem. Depois há também um sorteio de uma bandeira da Cruzeiro Australis. Quem não angariar nenhum desses itens, tem ainda a opção de comprar souvenirs na recepção do navio, que vende pingüins de pelúcia, moletons e blusas com estampas temáticas da Patagônia, chaveiros etc.

De volta a Punta Arenas, fiz questão de voltar à estátua da Plaza de Armas e tocar mais uma vez no pé do índio – desta vez para garantir meu retorno àquelas bandas geladas e encantadoras.

Como Chegar

Há quatro opções de fazer este cruzeiro: viagem de quatro noites (Punta Arenas-Ushuaia), três noites (Ushuaia-Punta Arenas), sete noites saindo e voltando para Punta Arenas e sete noites saindo e voltando para Ushuaia. De qualquer forma, é necessário pegar dois voos na ida e dois na volta, sejam eles para Buenos Aires e Ushuaia ou Santiago e Punta Arenas. Ao chegar à cidade escolhida, a agência de turismo que promove o cruzeiro oferece um transfer do aeroporto até o navio.

veja também