Ein Gedi, um oásis israelense que proporciona uma viagem no tempo

Ein Gedi, um oásis israelense que proporciona uma viagem no tempo

Atualizado: Segunda-feira, 22 Novembro de 2010 as 11:30

Existem muitos motivos para não viajar para o exterior levando crianças pequenas e, até onde posso dizer, apenas um motivo para fazê-lo. Infelizmente para meus filhos, que provavelmente ficariam igualmente felizes permanecendo em casa, esse motivo é o que me mantém trabalhando com afinco as partes menos glamorosas da maternidade. Quando você viaja, você tem a chance de provar para seus filhos que a vida é, no mínimo, tão interessante quanto suas histórias para ninar. E se você conseguir fazer com que acreditem nisso, então você também poderá acreditar, ao menos pela duração da viagem.

Isso explica, em parte, como eu, meu marido, meu enteado de 21 anos e meus dois filhos, um menino de 8 anos e uma menina de 6, nos vimos em Israel, um local onde a história supera os contos de fadas e, mais particularmente, em Ein Gedi, uma reserva natural de mais de 2.800 hectares no Deserto de Judá, ao lado do Mar Morto.

Ein Gedi é um lugar cujas rochas de tom vermelho queimado e os bolsões de verde incongruentes fazem com que você se sinta como se tivesse pousado, como Charlton Heston, em algum planeta altamente cinematográfico. Na verdade, você pousou. Ein Gedi é o planeta do passado bíblico épico. Os nichos nos penhascos são os locais onde Davi se escondia de seu inimigo, o rei Saul, e as trilhas rochosas são onde Saul o caçava. Os vinhedos de Ein Gedi produziam as gloriosas flores de hena, que o cantor do "Cântico dos Cânticos" compara à sua amada.

Nosso plano era passar dois dias explorando o oásis de Ein Gedi com um guia que já foi diretor da escola de campo dali, que é dirigida pela Sociedade para a Proteção da Natureza em Israel, e uma noite acampando no deserto próximo. Era junho e o guia me assegurou que lidaríamos com o calor do deserto caminhando na água e caminhando ao luar. Os amigos levantaram suas sobrancelhas. Eu torcia para que ele estivesse certo.

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O percurso de Jerusalém até Ein Gedi nos levou além do Mar Morto, o ponto mais baixo da Terra, que tem um brilho turquesa forte e ligeiramente assustador. Isso se deve em parte à água ser emoldurada em vermelho pelas montanhas que a cercam, em parte por contar com sal e outros minerais em excesso.

A transição de terra árida para parque temático natural teve início no minuto em que passamos pela catraca de entrada. O chão é ressecado, mas como nosso guia, Yoel Oren, um homem barbado usando sandália Teva, mostrou facilmente, ele está repleto de vida. O hirax, um animal do tamanho e forma de um castor, mas que, estranhamente, é parente do elefante, tomava banho de sol em uma pedra ao lado do portão. Algumas capras nubianas, cabras selvagens encontradas apenas no Oriente Médio, fizeram uma aparição, parecendo régias com seus chifres enrolados. Yoel disse o nome dos pássaros próximos: estorninho-de-asa-ruiva, corvo, corcomela, guarda-rios-de-papo-branco. Posteriormente, ele puxou um galho de árvore quebrado e nos mostrou uma formiga tecelã, uma criatura cuja característica notável soa como uma história de alerta para os filhos com inclinação para serem difíceis: as formigas tecelãs, ele disse, usam seus bebês para sobrevivência básica. Elas obtêm a cola para seus ninhos manipulando suas larvas em suas garras até os bebês excretarem seda.

No início da tarde, quando a temperatura passou dos 35ºC e as crianças começaram a parecer inúteis, pelo menos em comparação à larva da formiga tecelã, Yoel nos desviou das trilhas altas sem sombra para um riacho abaixo. Era a Nahal David, uma das quatro nascentes que cortam o oásis. Nós caminhamos sob folhas de bambu em água até o joelho, até chegarmos a um lago de água transparente. Nós estávamos quentes demais para nos despirmos antes de entrarmos; além disso, intuímos que deveríamos manter o máximo possível de nossos corpos cobertos com tecido molhado antes de nos movermos para o próximo lago.

Quem sabe quão distante ele estaria? Yoel - que às vezes ensina sobrevivência no deserto - nunca deixou que passasse mais do que uma hora antes de nos levar até um dos lagos.Mesmo assim, parecia perdulário nos banharmos em água doce fresca enquanto estávamos cercados pelo deserto e à vista de um mar supersalgado. Antes de o dia terminar, Yoel nos levou para um local que deixou claro por que os antigos habitantes do oásis o consideravam um local abençoado. Em uma clareira em um penhasco se encontravam os vestígios de um templo de seis mil anos, mais velho do que a Bíblia e até mesmo do que o próprio judaísmo. A base do templo revela um altar de sacrifício e uma sala interna sagrada, não muito diferente daqueles que seriam posteriormente construídos nos grandes templos em Jerusalém.

Os habitantes de Ein Gedi eram moderadamente ricos, explicou Yoel; em eras posteriores, a riqueza deles aparentemente vinha do cultivo de ervas que produziam um perfume valioso, provavelmente bálsamo. O historiador judeu Josefo descreveu um incidente que aconteceu há aproximadamente dois mil anos, no qual os moradores ciumentos de Massada, a fortaleza no deserto logo à frente na estrada, atacaram Ein Gedi e o despojaram de sua riqueza.

Assim que a última colina quente entre nós e a escola de campo, onde nossa caminhada terminaria, começou a parecer intransponível, Yoel nos deixou empoleirados em um raro ponto de sombra em uma saliência alarmantemente estreita, abaixo do topo de um desfiladeiro com altas encostas de pedra calcária. A linha branca mais alta, ele explicou, mostra quão alto a água chega durantes as enchentes de inverno. Ele tirou um fogareiro minúsculo de sua mochila, o colocou sobre uma pedra na borda e preparou um chá de hortelã e um café amargo de beduíno. Nós os bebemos olhando para o desfiladeiro e para o Mar Morto, na direção das colinas da Jordânia; as crianças pararam de se queixar.

Nosso acampamento, a cerca de 40 quilômetros ao sul de Massada, nos ajudou a entender por que um morador do deserto poderia ficar tentado a saquear Ein Gedi; sob o sol do fim de tarde, a terra parecia tão árida quanto uma paisagem lunar, pontilhada por pequenas elevações e cercada por penhascos pouco amistosos. Nós montamos o acampamento: meu marido, eu e meus filhos pequenos ficamos com duas tendas, enquanto Yoel, seu filho adolescente Yonatan, e meu enteado, Theo, dormiram sob as estrelas. Yoel preparou um jantar suculento de peixe e frango em um poyke, uma panela sul-africana com três pés, e serviu com vinho tinto. Quando deitei para descansar, eu olhei para fora pelo respiradouro da tenda e entendi o motivo de alguém querer deitar sem nada entre ela e o céu. As estrelas eram tão grandes quanto margaridas; aldeias jordanianas brilhavam ao longe.

Yoel anunciou a caminhada noturna por volta das 21 horas. Apenas Theo, minha filha, Josephine, e eu estávamos despertos o bastante para acompanhá-lo. A trilha estava clara sob a lua quase cheia, como se o deserto tivesse se transformado em um negativo de si mesmo. De repente, ocorreram estouros altos e explosões de fagulhas. Yoel explicou que os pilotos israelenses em caças F-16 estavam realizando voos de teste sobre o deserto.

Josephine pediu para voltar. Yoel perguntou se eu conseguiria voltar sem ele. Eu disse que sim. Eu a peguei no colo. Eu tentei afastar o pensamento, mas foi impossível não imaginar nós duas como refugiadas das Guerras Judaicas que Josefo documentou, fugindo à noite para Massada, onde os últimos rebeldes judeus se entocaram após os romanos terem escravizado todos os demais no país. O Deserto de Judá se presta bem demais para essas fantasias.

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