Estrada Real (MG): um paseio pela história do Brasil, entre outros "causos"

Estrada Real (MG): um paseio pela história do Brasil, entre outros "causos"

Atualizado: Segunda-feira, 1 Junho de 2009 as 12

Os caminhos trilhados pelos colonizadores desde a descoberta do ouro em Minas Gerais até o período de sua exaustão. Esta é a referência do termo Estrada Real. No período da colonização, eram as únicas vias autorizadas de acesso à região das reservas de ouro e diamante da capitania das Minas Gerais.

A história do Brasil passa pela Estrada Real. As riquezas extraídas nas minas eram levadas aos portos do Rio e Paraty, e de lá para Portugal. Nos últimos anos, a rota real se transformou em importante pólo turístico. Seus 1410 quilômetros, que cortam Rio, Minas e São Paulo, oferecem várias atrações, desde igrejas barrocas a paraísos naturais, passando por vilarejos pitorescos, fazendas históricas e muitos ''causos'' contados pelos moradores das mais de 170 cidades que dela fazem parte.

A Estrada Real se divide em três caminhos: ''a Rota dos diamantes'' - de Diamantina a Ouro Preto, hoje o principal roteiro turístico de Minas Gerais; o ''Caminho Velho'', que em Paraty, recebe o nome de Caminho do Ouro, e o ''Caminho Novo'', que começou a funcionar bem depois, numa iniciativa portuguesa para possibilitar maior rapidez entre o Rio, Ouro Preto e Diamantina.

Um passeio nessa estrada é um retorno à história. Por ela escoou o ouro, os diamantes, as idéias, o alimento. Agora, os turistas a redescobrem, mais de 400 anos depois das primeiras expedições.

A Estrada Real foi, ainda, o principal eixo do intenso processo de urbanização do centro-sul brasileiro. Várias cidades se desenvolveram ao longo da Estrada Real, e dentre as principais, destacam-se: Diamantina, Mariana, Ouro Preto, Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras. Segue, abaixo, um breve descritivo de cada uma delas:

Diamantina: a cidade fica na borda do Espinhaço, praticamente dividindo as bacias do rio São Francisco e do rio Jequitinhonha. É um lugar diferente, isolado e fascinante. Despontou bem mais ao norte, distante dos tradicionais centros auríferos do séc. XVIII. Os desbravadores chegaram em busca de ouro, mas logo descobriram que a vocação daquela terra era outra, os diamantes. A viagem pela estrada até Diamantina é muito agradável. São igrejas, casarios antigos e, até as montanhas são diferentes. As rochas brotam do solo, pontilhando a paisagem e formando mosaicos. Na cidade reinou, em meados do séc. XVIII, Chica da Silva, a escrava que virou rainha. Na qualidade de amante do contratador, que detinha a concessão real para explorar as lavras diamantíferas, mandava e desmandava na cidade. Está aí uma das histórias mais deliciosas de Minas Gerais.

Mariana: chamada de “berço da civilização mineira”, foi a 1ª capital, a 1º vila, a 1ª sede de bispado e a 1ª cidade de Minas Gerais. Hoje, é guardiã de uma importante parte do patrimônio cultural e histórico de Minas Gerais. Nada melhor do que andar por suas ruas para descobrir o discreto charme desta cidade setecentista através de seus casarões. A casa do Barão do Pontal, por exemplo, encanta a todo visitante com suas belas sacadas em pedra sabão. A Catedral da Sé e a Igreja de São Francisco de Assis guardam primorosos trabalhos da arte colonial mineira.

Milho Verde: é mencionada como vila pertencente ao arraial de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro Frio, atual cidade do Serro, desde 1711 mas, somente em 9 de julho de 1868, foi oficialmente elevada a distrito desta cidade. Seu nome teria surgido pelo fato das lavras ali pertencerem a Manoel Rodrigues Milho Verde, natural de Moinho, Portugal.

A vila está localizada nas vertentes da Serra do Espinhaço, na rota entre Serro e Diamantina e foi ocupada inicialmente por garimpeiros atrás de ouro e, posteriormente, de diamantes. Logo, a riqueza das minas da região atraiu a atenção das autoridades. A vila busca se organizar para desenvolver um turismo com características de preservação natural e cultural, sua melhor oportunidade de prosperidade econômica, já que a população tem pouco mais de mil pessoas.

Ouro Preto: quem chega à antiga Vila Rica não consegue ficar alheio frente ao belo e homogêneo conjunto arquitetônico. Caminhar por suas ruas cria um envolvimento e quando se percebe, já se está apaixonado pela cidade que, por ter um acervo tão precioso, recebeu o título de Patrimônio da Humanidade. Uma boa parte da história da mineração do ouro no século XVIII, na Capitania das Minas, o barroco e o rococó na decoração dos seus templos, e as valiosas peças de seus acervos, tornam Ouro Preto um museu a céu aberto, um templo da tradição e cultura mineira.

São Gonçalo do Rio das Pedras: a vila, que ainda mantém forte ligação comercial com Diamantina, vive basicamente da agricultura e do turismo. O antigo arraial minerador está localizado numa bela região, no Vale do Jequitinhonha e é rodeado por cachoeiras e montanhas. Suas casas e monumentos são simples e permanecem bem conservadas.

Tiradentes: foi fundada por volta de 1702, quando os paulistas descobriram ouro nas encostas da Serra de São José, dando origem a um arraial batizado com o nome de Santo Antônio do Rio das Mortes. Durante todo o século XVIII, a Vila viveu da exploração de ouro e foi um dos importantes centros produtores de Minas Gerais. No fim do século XIX, os republicanos redescobrem a esquecida terra de Joaquim José da Silva Xavier, o ''Tiradentes'', onde se tramou a Inconfidência Mineira. Após longos anos de esquecimento, o conjunto arquitetônico da cidade foi tombado pelo então Serviço do patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 20 de abril de 1938, e por esse motivo, conservado quase intacto. Ainda, existem na cidade excelentes exemplares de arquitetura civil do século XVIII.

Principais atrações

Diamantina

Cachoeira da Toca: é constituída por uma única queda d'água, de aproximadamente 15 metros de altura e 15 de largura, formando uma grande piscina natural, com aproximadamente 8 metros de profundidade. A área possui formações rochosas entremeadas de vegetação de cerrado e pequenos filetes d'água por todos os lados, formando uma paisagem de rara beleza. Por estar situada na sede do município, no Bairro Cazuza, esta cachoeira é uma das mais frequentadas pela comunidade local. É possível ir de carro até proximidades da cabeceira. Mas, após estacionar, deve-se caminhar aproximadamente 1 km até à cachoeira, sempre descendo uma trilha na encosta do morro próximo a ela.

Gruta Monte Cristo: está situada a 12km de Diamantina, em local constituído de rochas quartzíticas e vegetação de cerrado. O acesso ao seu interior é feito através de uma abertura horizontal de aproximadamente 15m de altura por 25m de largura. Seu interior possui dois amplos salões com água corrente.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo: pode ser considerada, sem dúvida, a obra-prima da arquitetura religiosa da região do Circuito de Diamantina, pela beleza das proporções, acabamento esmerado da ornamentação arquitetônica e requinte de sua decoração interna.

Milho Verde

Cachoeira do Carijó: localizada a poucos metros da estrada que liga Milho Verde e São Gonçalo ao Serro fica a cachoeira do Carijó, formada por uma pequena queda d´água e um poço grande de águas calmas.

Cachoeira do Moinho: pertence a uma grande queda d´água, próxima às vilas. Nos feriados e em ocasiões de maior fluxo turístico existe um bar, mantido pelo proprietário, que funciona no lugar.

Cachoeira do Piolho: a estrada para a cachoeira do Piolho começa no final da rua dos Prazeres e fica a 8 km de Milho Verde. Uma porteira diante da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres marca o início de um belo passeio morro abaixo. Nas proximidades da cachoeira vivem algumas comunidades bem humildes.

Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres: construída no século XVIII pelo capitão José Moura de Oliveira, a Igreja Matriz foi tombada pelo IEPHA-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico) em maio de 1980. Feita de madeira e barro, possui uma fachada simples, sem ornamentações. Segue a linha das capelas de taipa construídas no período colonial e possui peças interessantes em seu interior como as imagens de Nossa Senhora dos Prazeres, a de São Miguel e também uma Pietá inacabada. Pertence à Cúria Arquidiocesana de Diamantina.

Capela e Cemitério Nossa Senhora do Rosário: apesar de não se conhecer quase nada de sua história, características da obra indicam que tenha sido construída por devoção de negros livres e escravos da região durante o século XIX. A capela também foi feita em madeira e barro e possui linhas simples. O conjunto possui um belo pátio e se destaca devido a sua localização, no alto de uma colina de onde se tem uma vista encantadora das montanhas.

Mariana

Casa do Barão de Pontal: esta residência é tradicionalmente conhecida como Casa do Barão de Pontal. Manuel Ignacio de Mello e Souza, natural de Portugal, diplomado pela Universidade de Coimbra, ganhou do governo imperial brasileiro o título Barão de Pontal. Ele foi deputado e senador e ocupou o cargo de Presidente da Província de Minas Gerais.

Igreja de Nossa Senhora das Mercês: sua construção é mais próxima do final do século XVIII. Em 1871, ainda estava em obras, pois existe um documento através do qual a irmandade solicitava à Câmara Municipal a doação de degraus de pedra do antigo Pelourinho da cidade, então demolido, para a construção de uma escada para o Presbitério da Capela. No principio do século XX, o templo passou por várias descaracterizações. Sua semelhança com a capela da Arquiconfraria de São Francisco, que lhe é contemporânea, é grande, tanto na parte arquitetônica como na decoração interna. Seguindo o padrão arquitetônico das capelas do final do século XVIII, sua fachada é encimada por um campanário. Ela manteve o padrão de construção do século especialmente por se tratar de uma construção de madeira e taipa. Sua decoração interna é extremamente simples. “O altar do lado do Evangelho pertence, desde a sua origem, ao grupo da Sagrada Família. As imagens são em madeira e decoradas em ouro. O altar do lado da Epístola é consagrado a Nossa Senhora do Parto, obra também rara, talhada em madeira e dourada, parecendo da mesma procedência. Destacam-se, no conjunto, as grades do coro e a balaustrada da nave, em madeira torneada, de jacarandá preto. Além das imagens de boa qualidade, a igreja conserva, na sacristia, painéis, objetos de cunho religioso, uma mesa artística que pertenceu ao Frei Cipriano e poltronas em estilo Luís XV, que foram de D. Manuel da Cruz, primeiro bispo de Mariana.

Museu Arquidiocesano (Antiga Casa Capitular): o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra está instalado na Casa Capitular, um belo prédio com elementos decorativos do rococó, do final do século XVIII e princípio do XIX. Sua construção ficou sob a responsabilidade de José Pereira Arouca.

Ouro Preto

Museu da Inconfidência: é um dos mais importantes museus históricos do Brasil. Instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica, o imponente prédio é o grande destaque na Praça Tiradentes. Com certeza, o Museu da Inconfidência é visita obrigatória em Ouro Preto.

Teatro Municipal (antiga Casa da Ópera): conhecido nos séculos XVIII e XIX como Casa da Ópera, é considerado por muitos o mais antigo da América do Sul. Com certeza, é o mais antigo do país ainda em funcionamento, e possui o diferencial de ter sido o primeiro teatro onde mulheres, pela primeira vez, pisaram em um palco no Brasil. É um dos atrativos mais charmosos de Ouro Preto.

São Gonçalo do Rio das Pedras

Igreja Matriz de São Gonçalo: a data de construção deste monumento é desconhecida, assim como o autor do projeto. Indícios levam a crer que remonta a segunda metade do século XVIII - acredita-se que o número 1787, inscrito na pintura do forro, seja o ano do término da obra. Construída em madeira e barro, preserva características das igrejas mineiras deste período. Seu principal destaque é a pintura da imagem de São Gonçalo, no forro da capela-mor. Foi tombada pelo IEPHA-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico) em maio de 1980.

Tiradentes

Cadeia - Museu de Arte Sacra: a antiga cadeia, hoje Museu de Arte Sacra, construção de 1730, foi devastada por um incêndio em 1829, sendo reconstruída em 1835.

Casa da Câmara: em 1718, o Arraial da Ponta do Morro de Santo Antônio foi elevado à Vila de São José, obtendo, assim, seu direito a constituir sua Câmara Municipal. Diferentemente das outras casas de Câmara do período colonial, a da Vila de São José não foi construída junto com a cadeia.  

Igreja São Francisco de Paula: a capela, construída no Séc. XIX, possui um diferencial das outras de Tiradentes, por ter a sineira no corpo de sua fachada.

Igreja do Rosário dos Pretos: construída em 1727, com pinturas de Manuel Vítor de Jesus.

Igreja Nossa Senhora das Mercês: o ponto alto da ornamentação da igreja está nas pinturas do forro da nave e da capela -mor, em caixotão, que retratam cenas de Maria e frases em latim. As pinturas foram executadas por Manuel Victor de Jesus, de 1793 a 1828. O altar-mor é de uma delicada talha rococó. No trono, uma admirável imagem de Nossa Senhora das Mercês.

Maria Fumaça: foi inaugurada em 1881, por Dom Pedro II. Dos 684 km originais da ferrovia da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), restaram apenas 12 km, exatamente o percurso que liga Tiradentes a São João del Rei, hoje gerenciado e mantido pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA). O passeio, que dura aproximadamente 35 minutos, proporciona uma autêntica viagem ao passado, além de belas paisagens da Serra São José e do Rio das Mortes.

Matriz de Santo Antônio: considerada a 2ª igreja mais rica em ouro do país, com altares ornados em ouro em pó.

Museu Padre Toledo: construção imponente, do então vigário da Comarca do Rio das Mortes, o inconfidente Padre Carlos Correia de Toledo e Melo. No século XIX, a casa hospedou os dois imperadores brasileiros: D.Pedro I e D. Pedro II.

Horário de Funcionamento: Quarta a segunda-feira de 9h às 17h.

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