África do Sul - A bordo de um trem de luxo

África do Sul - A bordo de um trem de luxo

Atualizado: Quarta-feira, 6 Abril de 2011 as 8:48

O inglês Rohan Vos, criador e senhor de uma empresa de turismo em grande estilo, resume bem o que é embarcar em um de seus trens históricos, que hoje funcionam a todo vapor na África do Sul. “Bem-vindo a bordo para uma viagem no tempo… De volta a uma época em que a jornada era, sem dúvida, algo mais importante do que o destino final”, diz ele. Com o carinhoso (e justo) apelido de “Orgulho da África”, os trens da Rovos Rail são mesmo de encher de orgulho não apenas o dono, mas qualquer um que tenha o privilégio de ser um passageiro. Para quem vai assistir a Copa do Mundo de 2010, pode ser a chance de fazer parte dessa “viagem” – literal e metafórica – simplesmente única e inesquecível.

Numa época em que tempo é dinheiro e a contemplação e o ócio se tornaram atividades extintas, uma viagem de pelo menos duas noites a bordo de um trem a vapor com vagões que podem datar de 1911 aos anos de 1970, sem ultrapassar os 60 km/h (podendo diminuir em alguns momentos para 20 km/h) pode parecer inviável. Visto somente em filmes ou descritos em romances de mistérios, esses clássicos vagões de trem ricamente decorados no estilo da Era Eduardiana estariam extintos se não fosse o esforço desse inglês, que não abriu mão de um sonho: ter um trem antigo e em funcionamento para a família e deleite pessoal.

Rohan Vos conta que tudo começou em 1986, quando ele estava envolvido com a indústria de sobras de motores na cidade de Witbank, cerca de 100 quilômetros a leste de Pretória. Na época, ele cuidava de mais de 15 negócios ao mesmo tempo. Então, um amigo e funcionário apaixonado por trens, Phil Accut, sabendo do fascínio dele por motores e máquinas, perguntou se Vos não gostaria de conhecer um grupo, a Sociedade de Preservação dos Vapores (Steam Preservation Society), que lutava para preservar as locomotivas a vapor, pois elas estavam sendo substituídas pelas a diesel. “Fiquei interessado na ideia e me comprometi em ajudar, comprando em leilões quatro vagões que pudessem ser puxados por alguma locomotiva da South African Railway”, lembra. Com a mulher, quatro crianças e alguns cachorros, Vos achou que seria divertido ter um trem para curtir as férias de verão em uma caravana familiar. Mas o que seria apenas um hobby se tornou prioridade, envolvendo a mulher e os filhos.

Apesar da permissão para ativar os trens ter sido concedida ao final daquele ano, a “brincadeira” seria muito mais cara do que o imaginado e poria em risco a saúde financeira da família. A associação de trens sugeriu – e permitiu – que o empreendedor vendesse passagens para quem quisesse passear em seu “lar sobre trilhos”. Passados dois agonizantes anos e alguns meses, durante os quais quase desistiu da ideia, Vos inaugurou em 29 de abril de 1989 a locomotiva com sete vagões. Em 1991, com o trajeto Pretória-Cidade do Cabo, o negócio começou a tomar rumo comercial. Depois de já ter passado para frente a empresa de sobras de motores em Witbank para bancar o prejuízo inicial, Vos se viu sem mais recursos em 1993. Mas surgiria uma luz no fim do túnel.

Durante uma visita a London World Travel Market, na Inglaterra, o empreendedor conheceu o operador de viagens Philip Morrell, dono da agência Jules Verne, de Londres. Os dois desenvolveram um plano de viagem que o trem faria da Cidade do Cabo até as Cataratas de Vitória, na divisa entre o Zimbábue e Zâmbia. O programa foi anunciado no jornal Sunday Telegraph, no final de dezembro. Pouco depois do Natal, Morrell daria as boas novas por telefone. As vendas haviam sido um sucesso e os quatro vagões estavam praticamente lotados. E assim, por bem pouco, Vos evitou a falência. E continuaria o ritmo de boas vendas, que se mantém até hoje.

A razão da irresistível atração que esses trens exercem em viajantes de várias partes do mundo está nos detalhes e maravilhas proporcionados pelos belos vagões, que estão mais para um hotel cinco estrelas do que para uma maria-fumaça histórica. Cada vagão conta com quatro suítes, que podem ser Royal (a maior, com 16 m2), Deluxe (com 11 m2) ou Pullman (7 m2). Todas são muito confortáveis, com ar-condicionado, ducha e secador de cabelo, além de pia em aço inoxidável e espelho. Na suíte Royal há ainda banheira de porcelana com pés em estilo vitoriano. Mas são nos vagões em que ocorrem os almoços e jantares de gala (sim, à noite é exigido terno para os homens e longo para as mulheres) que o hóspede se sente transportado para outra era.

Na hora do almoço e do jantar, uma funcionária trajando um dos clássicos uniformes da empresa (há um para o dia e ou­tro para a noite) passa pelos vagões tocando um gongo que ecoa pelos corredores, chamando os passageiros para uma verdadeira experiência gastronômica em um dos dois carros mais charmosos da locomotiva, o dining car ou vagão-restaurante. Cada trem costuma contar com dois deles para dar conta dos 72 seletos passageiros a bordo.

A empresa conta hoje com vários di­ning cars, restaurados e transformados em belos exemplares que parecem ter saído de um filme, livro ou museu. O mais antigo, datado de 1911, conta com colunas, arcos e mesas de mogno, janelas com cortinas e luminárias de época e cadeiras com forros em couro, tudo bem ao estilo eduardiano, escolhido por Vos como tema principal dos trens da Rovos. Vale destacar ainda o dining car de 1935 que, antes de ser reformado e transformado em vagão novamente, era um restaurante fixo em Johannesburgo. As mesas contam com assentos aveludados, painéis em mogno e teto iluminado com molduras em cromo, resultando num ambiente com toques em art déco.

Outra grande atração dessa encantadora locomotiva vem da pequena, mas muito talentosa cozinha, localizada num pequeno vagão junto ao dining car e liderada por experientes chefs, alguns ocupando essa função na Rovos há mais de 15 anos. Dali saem refinadas entradas, elaborados pratos principais e deliciosas sobremesas. No cardápio, há também várias opções de vinhos brancos, tintos e alguns rosés, todos sul-africanos e de altíssima qualidade, que harmonizam perfeitamente com as refeições, servidas às 13h e às 19h30, inspiradas na culinária local e também na cozinha internacional.

No jantar sempre são servidos um prato entre a entrada e o prato principal, para preparar o paladar. Entre as delícias estão as sopas de abobrinha verde com menta ou de tomate fresco com manjericão e Chardonnay.

Os main courses reservam agradáveis combinações, como o tradicional prato sul-africano criado na Cidade do Cabo, o bobotie, composto de carne moída com leite de coco e crosta de queijo levemente apimentado, acompanhado de frutas cozidas da região, como kiwi e banana, e arroz ao curry com passas e amêndoas. Ou ainda o delicioso e extremamente macio ossobuco de rabo de boi que, graças ao lento cozimento, desmancha na boca, acompanhado de cuscuz e vegetais cozidos. Para quem reservou espaço para a sobremesa, a torta de nozes com sorvete de baunilha costuma deixar os passageiros fora dos trilhos. E caso não tenha o hábito, abra uma exceção e a experimente com um dos vinhos de sobremesa do cardápio. É passagem direto para o paraíso.

O impressionante é que não bastassem as noites com jantares impecáveis, os passageiros encontram nos quartos, antes de dormir, várias opções de chás ingleses, além do saboroso e saudável chá sul-africano rooibos, extraído dos arbustos da região, tradicionalmente tomado com leite e adoçado a gosto. Ritual que deixa saudades, ainda mais no calor tórrido do Brasil, que dificulta essa prática.

Notável também a atenção e o cuidado dos funcionários com os pertences de quem se “hospeda” no Rovos. Mesmo que você saia apressadamente do quarto e esqueça alguma peça de roupa jogada sobre a cama ou em qualquer parte da cabine, ela será devidamente dobrada e guardada no closet. Costume dos velhos tempos que quase não se encontra em hotéis contemporâneos, onde a regra para os funcionários é não tocar em nenhum pertence do hóspede.

Mas não é apenas no interior dos vagões que a viagem acontece. Ao longo de todas as rotas, seja qual for, são feitas algumas paradas estratégicas com o objetivo de explorar alguma cidade histórica ou ponto turístico que vale a pena ser visitado. E as rotas são muitas. No trajeto Pretória-Cidade do Cabo, com 1.600 quilômetros, existem duas emblemáticas paradas. A primeira é na antiga cidade de Kimberley, um dos segredos mais bem guardados da África do Sul. A pequena e charmosa cidade sedia o Big Hole, até hoje a maior fonte de diamantes do mundo, descoberta em 1871. É também lar de uma estação de trem vitoriana construída em 1870. E ainda hoje é famosa por avaliar e lapidar diamantes vindos de várias parte do mundo no prédio da companhia Harry Oppenheimer.

A outra visita é à histórica e pequena cidade de Matjesfontein, com menos de 300 habitantes e carregada do mais puro charme vitoriano, com casas encantadoras e um hotel com uma fachada admirável.

A rota Durban-Pretória também fascina muitos viajantes, com uma série de atividades como safáris em reservas particulares que duram três dias a bordo do trem. As reservas incluídas são a do Kruger Park, Mkhaya Game Reserve e Hluhluwe Game Reserve em Zululand, santuário do rinoceronte branco, espécie atualmente em extinção.

Já a Rota do Jardim, na cidade de George, feita durante os meses de verão, ganhou o título de uma das mais belas do mundo. Dura 24 horas e é  percorrido um pitoresco caminho de 550 quilômetros, da Cidade do Cabo a George. A região é tão cheia de vinhedos que, além de produtoras de vi­nho, há muitas de brandy. Nesse trajeto é feita também uma visita a uma famosa destilaria, a KWV Brandy Destillery.

Para quem aprecia golfe ou adora belas paisagens, o Golf Safári pode ser uma ótima opção, saindo de Pretória com destino a Nelspruit. Os passageiros podem escolher entre campos de golfe ou reservas ecológicas numa jornada que dura nove prazerosos dias. Pode acontecer de que alguma parada seja cancelada devido ao fluxo de outros trens nas ferrovias, mas a empresa sempre se esforça para cumprir os programas e raramente algum lugar é deixado para trás.

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