Iquitos, Peru

Iquitos, Peru

Atualizado: Segunda-feira, 18 Abril de 2011 as 9:36

Diante da proposta de chegar até Iquitos navegando pela bacia amazônica brasileira, a primeira sensação foi o medo. Lembrei do filme Anaconda. Não com medo de uma serpente gigante devoradora de homens e sim dos enormes insetos com seus ferrões vermelhos e cheios de veneno ou de micro peixinhos que entram pela uretra e corroem suas veias lentamente em uma morte dolorosa e aflitiva. Por mais que o filme seja um lixo, esses amiguinhos da floresta existem mesmo. Mas uns bate-papos aqui e ali nos convenceram. Garantia de vida? Nenhuma. Chegamos a Manaus sem saber que embarcaríamos na mais incrível e intensa viagem de nossas vidas. Ao embarcar em uma espécie de catamarã fedorento, cheio de pessoas estranhas, animais diversos e uma tonelada de latas de óleo de soja e coca-cola, pensei em dar cabo de minha vida ali mesmo. O trajeto? 1600 quilômetros bacia amazônica acima em direção a cidade de Tabatinga, na fronteira com Peru. A previsão inicial foi de 7 dias de viagem, pois a correnteza estaria favorável. Espera! Favorável? Pois é, navegamos contra a correnteza e se ela estivesse empolgada, poderia subir nosso tempo de viagem para até duas semanas. O horror!     Claro que dormiríamos em redes emboloradas ou no assoalho de madeira úmida semi apodrecida. Um suicídio seria totalmente plausível em um cenário como este. Acho que jogariam meu cadáver no rio e seguiriam viagem tranquilamente. Justo. Mas, logo ao nos afastarmos de Manaus, com a umidade anormal da selva tomando conta do ambiente e os sons e cheiros densos funcionaram como uma morfina homeopática e deliciosa. A imersão cultural e antropológica a que fomos submetidos começou por um personagem fantástico. Um enorme brutamonte, com músculos construídos no transporte ilegal de madeira, fala macia e cabeça raspada. Estava indo para Tabatinga e se apresentou como Vandísio. Narrou como domava búfalos d’água na unha e como conseguia carregar uma tora de jacarandá com mais de 300 quilos apenas com os braços em forma de betoneiras. O cara era realmente enorme, um guindaste humano, disse que almoçava sucuri assada quase todo dia. Contou sobre as magias dos índios e das bebidas alucinógenas da selva. Somente quando desceu no porto de Manacapuru descobrimos que seu nome não era o citado acima e sim um apelido, Vin Diesel.   Ao longo da viagem novos personagens foram surgindo. Padre Carnero, um peruano esfomeado que devorava tudo que lhe ofereciam, levava centenas de bíblias em Manaus. Juca Petardo, um matador de aluguel que tinha ido a Codajás dar cabo de uma família por R$ 250 e uma leitoa. Cinara, a prostituta da embarcação. Josafá Meneguel, animador da viagem – fazia imitações e contava histórias locais apenas por aplausos. Dizia que fazia aquilo por prazer e que a pesca era seu trabalho.   Após uma viagem sem grandes percalços, grandes figuras, paisagens estonteantes, chegamos a Tabatinga. Apesar de imundo, dolorido, mal-dormido e com uma bola de golfe no lugar onde levei uma ferroada que resultou em vômitos e tontura, cheguei animado. Tive sorte. O preparado da selva que um senhor com pra lá de 100 anos me deu derrubou-me por dois dias. Chegamos na divisa com o Peru. Tabatinga Não havíamos programado ficar em Tabatinga tempo algum, mas por algum incrível motivo nosso barco sairia em 16 horas. A exaustão mental, somada a um estado febril, me derrubou, pouco sei desses momentos, estava num torpor violento. De Tabatinga a única coisa que me lembro é que é uma tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Meu parceiro relata os horrores de urubus sobrevoando meu corpo que estava jogando em algum canto do porto. Sorte que fui melhorando a medida que o horário do nosso barco se aproximava. De lá saem lanchas que fazem o percurso até Iquitos em 12 horas, mas é claro que em nosso roteiro estava a viagem de R$ 50,00 a bordo de outra banheira horrenda durante longos 3 dias. Essa foi a nossa sorte. Camboja de Coppola no Peru Ao longo do trajeto através do Rio Amazonas, um cenário de selva surrealista e intimidadora vai surgindo, sob os olhares de nativos – assim como os vietcongues analisavam a missão de resgate do Capitão Kurtz, nossa barca subia lentamente a gigantesca artéria de água que inunda sabe-se lá aonde. Alguns emergem da água, outros portam lanças pontudas nas mãos e macaquinhos no ombro. O misto de medo e excitação era quebrado somente pelos os outros passageiros do barco, que estavam ali como quem pega um ônibus para ir para casa. Lembrando que foram três dias de viagem.   Lá pelas tantas, paramos em uma espécie de ilha aduaneira, já em águas peruanas, aonde faríamos nossa entrada oficial no país. Aí é que o capitão de Marlon Brando surge como imperador do caos e senhor daquele território selvagem e inóspito. A ilha é Santa Rita e o escritório estava fechado, deviam ser umas duas da tarde. Três horas depois ele surge. Com uma farda meio acabadona e olhar desconfiado, confiscou nossos passaportes e voltou uns 50 minutos depois, indicando onde deveríamos carimbá-lo. E ainda faltava mais rio acima. Sorrindo com dentões amarelos e um cigarrão enrolado a mão entre eles, acenava e debocha de nós, pobres diabos boaindo em algo que no século passado teria sido um barco. Iquitos Finalmente, quase duas semanas depois de sairmos de Manaus, chegamos à maior cidade do mundo sem acesso por terra. Chegamos e logo subimos em um motokar em direção ao nosso hotel. A umidade avassaladora da floresta parece pesar sobre seus ombros e o primeiro banho na cidade foi totalmente inútil. Em poucos minutos estava tão ensebado quanto antes e com a camisa emplastrada. O calor é multiplicado por 16 com uma umidade dessas.   O melhor momento para visitar Iquitos é dezembro a maio, que é a época de cheias. Ao contrário do indicam agentes de viagens, que preferem oferecer a época de vazão, quando o nível da água pode variar em até 40 metros. Porque será? Já que na cheia os lugares mais incríveis ficam alcançáveis? Essa vazão das águas é decorrente do derretimento da neve dos Andes. A cidade evoluiu vertiginosamente durante o boom da borracha e a população cresceu incrivelmente a partir de 1880. A herança dessa prosperidade pode ser vista nas mansões. Nesta mesma época foi erguida La Casa de Fierro, projeta por Gustav Eiffel, o mesmo da torre de Paris. Foi comprada por um esbanjador seringalista que queria morar em uma casa construída em Paris.   Outra construção de alta relevância é o Museo Amazonico, que reúne fotos do fim do século XVIII e incríveis esculturas que remontam a época de ouro da borracha. No belo mercado de Belen, fomos ao Pasaje Paquito  procurar ervas medicinais para tratar minha ferroada, que desinchara, mas ainda doía. Lá tomamos um preparado chamado Rasga Calzon, o Viagra amazônico e para a minha picada, me esfregaram licor de cabeça de cobra no hematoma e antes mesmo de deixarmos o beco, a dor já se atenuara. O mercado Belen lembra muito a Feira de São Joaquim de Salvador. Muitas carnes expostas sem refrigeração, coisas coloridas, cheiros confusos... E ambos não vão além disso.   A cerveja local ajuda a espantar o calor. A Iquiteña é fabricada ali mesmo e é ótima. Top 5 Iquitos 1º A atração mais incrível de Iquitos é o Orfanato de Animais da Amazônia de Belen. Tem de tudo. No mesmo parque está a Fazenda de Borboletas Pilpintuwasi. É inacreditável. As borboletas amazônicas são o que há de mais belo no reino dos insetos.   2º Visitar os índios Yagua e as aldeias Bora. Mesmo sendo contaminados pelo turismo, ainda é possível ver índios reais, com costumes reais e tradições incríveis. Nada de shorts de futebol ou camiseta de político. 3º Nadar com os notos cor-de-rosa. Bichos dóceis e respeitadíssimos na região. É o bicho símbolo da Amazônia. 4º Conhecer a ilha de Quistococha, suas lendas e seu zoológico. Dizem uma ilha amaldiçoada vagava por uma enorme lagoa assombrando a população. A ilha seria habitada por Araras diabólicas e espíritos do mal. Um exorcismo foi feito e ao jogar uma cruz nas águas da lagoa, o padre provocou um terremoto. Com os moradores gritando “Cristo Cocha”, uma enorme serpente saiu do lago e nadou para longe, chorando. Ao longo dos anos o nome Cristo Cocha se tornou Quistococha e é onde está o encantador zoológico, dono de fauna e flora incríveis.   5º Cruzeiro ao redor de Iquitos em Três Rios. Apesar de que nesse passeio perdemos, todas, literalmente todas as nossas fotos. --- Onde ficamos: El Dorado Hotel Plaza Entre 70 e 280 US$ Bons quartos com ar, banheiro e TV a cabo. Com piscina. A melhor opção em Iquitos. Victoria Regia Hotel & Suites Entre 40 e 80 US$ Simples, mas honesto e limpo. Tem ar condicionado. Comer Huasaí. Incrível, por cerca de dois dólares pode-se desfrutar de uma refeição excelente – entrada, principal e bebida. O cardápio muda diariamente, sempre com opções para todos os gostos. Os peixes são enlouquecedores. Serviço impecável.  Nota 10 em todos os aspectos.Nem ousamos sugerir outros, existem bons restaurantes em Iquitos, mas essa pérola é surreal. Abre para o café da manhã cheio de delícias. Crédito das Fotos: [1, 2, 3 4 Getty Images] [5, 6, 7, 8, 9 Iquitosnews / CC Divulgação]    

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