Mochilão pela europa proporciona diversidade de belas paisagens

Mochilão pela europa proporciona diversidade de belas paisagens

Atualizado: Quinta-feira, 5 Maio de 2011 as 12:10

Se você não se acha apto a uma aventura dessas, não se preocupe. Aos 52 anos, fui convidado a fazer o Circuito e, com alguma relutância, aceitei. Sendo da região, seria uma maneira de prestigiar o caminho e apreciar sutilezas que costumam passar em branco para quem está motorizado. Além disso, poderia explorar novas paisagens. A maior parte do caminho era desconhecida, pois a equipe organizadora optou, sempre que possível, por percorrer estradas rurais.

Confesso que jamais imaginara executar tal proeza, uma média diária de 25 km, o que me parecia um desafio quase intransponível, ainda mais se associado ao “modesto” sobrepeso. Como boa parte do circuito é coberta por telefonia celular, a facilidade para desistir e solicitar um resgate era um incentivo que me acalmava.

Surpreendentemente, porém, pude constatar ao longo dos dias, que o desgaste físico era quase insignificante. A variação da geografia e da paisagem é intensa, resgatando durante todo o caminho assuntos variados e inesgotáveis. Além disso, distraíamo-nos fotografando tudo que nos inspirava - uma boa luz, um bom enquadramento ou composição. Mas é bom não se entusiasmar tanto e perder o ritmo, pois a caminhada deve ser feita durante o dia.

Seguindo as setas

Barragem do Pinhal - Rio dos Cedros: o caminho reserva paisagens originais e surpreendentes, mesmo para os moradores da região - Foto: Fernando Félix Mauricenz

O Circuito Vale Europeu Catarinense é todo sinalizado por setas de cor branca, normalmente pintadas em postes de energia elétrica, apontando o sentido a ser seguido. Isto proporciona tranquilidade ao mochileiro, pois um talho errado pode por em risco o planejamento do dia, ou, no mínimo, aumentar a carga diária e o cansaço. Várias vezes passamos por setas amarelas, que fazem parte do Circuito de Cicloturismo do Vale Europeu, mas normalmente no sentido inverso ao do mochileiro.

A caminhada se inicia em Indaial, tendo como ponto de partida a Ponte Emílio Baumgart, Ponte dos Arcos, como é conhecido um dos cartões-postais da cidade. Com o manual do circuito à mão, identificamos a primeira seta e partimos rumo à cidade de Timbó, numa jornada de 27 quilômetros. Menos de duas horas se passaram para que a tradicional névoa matutina cedesse lugar a um céu azul maravilhoso e o sol começasse a castigar, mesmo estando num final de outono bastante frio comparado aos anos anteriores. A altimetria indica aproximadamente oitenta por cento da caminhada em terreno plano, porém há dois morros a transpor. Um deles mostra o início em 70 metros, com cume em 350 metros de altitude, voltando a 100 metros num trajeto de três quilômetros, o que nos pareceu bastante íngreme. Constatamos depois com alguma satisfação que são mais assustadores no gráfico do que na realidade. À medida que subimos, vislumbramos a paisagem de outros ângulos, com a euforia aumentando e o cansaço quase desaparecendo.

Na mochila, é bom garantir alguns lanchinhos leves (tomando-se cuidado com o excesso de peso), pois alguns trajetos entre cidades podem não ter lanchonetes ou restaurantes. Na chegada ao destino, a recompensa: sempre contávamos com comida caseira, normalmente com muita massa, polenta e outras amostras da boa culinária italiana ou alemã, regadas a um bom vinho produzido na própria região.

Assim como se alternam a arquitetura entre projetos italianos e as famosas casas enxaimel alemãs, assim vão variando os sotaques. Na chamada Região do Vale das Águas, uma parada obrigatória é no pequeno, mas muito bem organizado, Museu da Música. O pernoite em Timbó é excelente e a cidade dispõe de ótimos restaurantes e lanchonetes.

Rumo à terra alemã

Nosso próximo destino era Pomerode, que seria alcançada em 25 quilômetros, sendo boa parte do percurso em estrada de terra. O espesso nevoeiro começa a se dissipar antes das oito horas e o sol altera a luz de forma singular.

Os detalhes destacam-se à medida que avançamos. Apesar do cenário rural com casas enxaimel ser bastante regular, nada é igual. O vale de proporções gigantescas rodeia o Morro Azul, ora banhado pelo sol, ora no conforto da temperatura amena da sombra. Pássaros silvestres, flores, borboletas e a estrada sinuosa são constantes deste trajeto.

A placa com uma seta e a inscrição “Morgenland” - Terra do Amanhã -, traduzido do alemão, denuncia uma nova colonização. Assim, já no final da tarde, chegávamos à cidade mais alemã do Brasil, com certo atraso, pois, neste dia, aproveitamos e almoçamos no restaurante de um pesque-e-pague.

O terceiro dia do circuito representa o menor trajeto de todos os dias, sendo totalmente por rodovias pavimentadas, o que não o torna menos interessante. A dica cultural do dia é a visita ao Museu Casa Weege.

O forte calor úmido que anuncia uma mudança no tempo deixa o percurso um pouco cansativo. A arquitetura moderna, encontrada em muitas casas de Pomerode, contrasta com verdadeiras relíquias da arquitetura germânica, propiciando um visual diferente a cada curva, rumo a Rio dos Cedros. Com tempo disponível no período da tarde, sentamos à mesa do bar do pequeno hotel, já que caminhar mais estava fora dos nossos planos neste dia, apreciando o movimento das ruas, num misto de carros, cavalos, bicicletas e carroças numa harmonia impressionante. À noite, como era de se esperar, a cidade foi açoitada por uma tempestade típica de verão, apesar de estarmos a poucos dias do inverno.

O manual prometia para o quarto dia uma maior integração com a natureza no caminho rumo a Benedito Novo. À medida que íamos subindo para a região de São Bernardo, o caminho estreitava, mas a beleza natural se expandia em um trecho com poucas casas, circundado por rios, com corredeiras, cachoeiras, pássaros e vales espetaculares.

Neste dia, chegamos à metade da jornada com quase 100 km percorridos. Incrível como, a esta altura, o conceito e a necessidade de conforto se alteram completamente. O banho quente e demorado e uma cama, tornam-se o ápice, uma verdadeira benção.

A noite bem dormida foi essencial para melhorar os ânimos para o próximo dia, que seria de chuva forte, fazendo-nos dar uso às capas impermeáveis. Não havia nenhuma perspectiva de melhora, então o negócio seria enfrentar o perrengue. Nada mal, já que embaixo d’água, a paisagem tornava-se especialmente bela, amenizando qualquer possível transtorno com a lama e as poças d’água.

Depois de passar por obras ao longo do caminho (provavelmente decorrentes ainda das fortes chuvas que castigaram todo o Vale em novembro de 2008), chegamos à Gruta Santo Antônio, que nos serviu para descanso e lanche. Também pudemos nos livrar dos impermeáveis, pois a chuva havia dado uma trégua. Seguindo pela estreita estrada, deparávamo-nos sempre com propriedades cercadas por uma planta chamada de gravatá, uma espécie de cerca viva. Na chegada à Doutor Pedrinho, uma mudança do panorama: o vale plano dá lugar à plantação de arroz, que margeia toda cidade, conferindo um ar rural, incomum à paisagem urbana.

À noite, uma mesa farta da culinária italiana, adaptada aos temperos da região e uma boa garrafa de vinho inspiraram uma reflexão sobre nosso caminho nos enchendo de orgulho por termos nascido em tão bela região.

Frio

A temperatura despencou dos 20ºC do dia anterior para menos 10ºC na manhã do sexto dia. O céu azul e um forte vento frio criam uma sensação térmica muito próxima a zero grau. Tomamos café e partimos com os primeiros raios de sol através das plantações de arroz rumo ao Campo do Zinco, o maior percurso do circuito, com 31 km. Estávamos a 500 metros acima do nível do mar e nosso objetivo (o topo de todo o caminho) ficava a aproximadamente 800 metros de altitude. Entre um vale e outro, o vento chamava a atenção, envergando os enormes eucaliptos plantados nos topos de morros numa região madeireira, com um ruído quase assustador.

Depois de passarmos pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (ICELB), tida como a única igreja enxaimel do Brasil, a subida acentua e uma paisagem exuberante começa a se descortinar. Um dos pontos altos do circuito acontece quando, de longe, é avistada a Cachoeira do Zinco, com seus imponentes 76 metros de queda d'água. É a hora de descansar e ficar apreciando este postal distante uns três quilômetros de subida acentuada, o ponto final do dia. Chegamos ao topo da Chapada com seus 800 metros acima do nível do mar juntos ao pôr-do-sol.

Nosso merecido descanso seria em uma aconchegante cabana rústica da Pousada do Zinco, com fogão à lenha. O que deveria ter sido o dia mais cansativo do percurso acabou tornando-se um dos mais especiais. O cansaço não cedeu lugar ao sono, ao redor do fogão aceso até altas horas, servido por iguarias preparadas pela dona Magda, enquanto a prosa se estendia. Antes de se entregar ao sono reparador, selamos o dia com uma saída rápida para contemplar o céu estrelado na noite muito gelada. A ausência total de luz propicia uma visão maravilhosa da Via Láctea. A vontade de ficar olhando aqueles diamantes espalhados pelo céu até o amanhecer é grande. Mas ainda faltavam dois dias para concluir o caminho de 200 km.

Na reta final

No próximo dia, deveríamos abastecer as mochilas com lanchinhos, pois no percurso de 25 km não são encontrados restaurantes. Neste dia, eu e meu companheiro de caminhada Sérgio nos separamos. Caminhar eventualmente sozinho permite uma integração diferente com o caminho. Começamos a refletir de maneira totalmente pessoal. A relação é direta entre você e a natureza.

Encontramo-nos e seguimos com muita tranquilidade pelo caminho, descansando e lanchando sob árvores de floresta nativa, à beira de riachos. Os últimos oito quilômetros são de puro declive, partindo de 750 metros acima do nível do mar até os 100 metros, onde praticamente caímos dentro da cidade de Rodeio. Lá, a fé e a religiosidade estão presentes em cada curva, em cada casa ou esquina. Este percurso também é caracterizado pela plantação de hortênsias às margens do caminho e pelos 56 anjos em tamanho natural espalhados pela estrada. Uma réplica do Cristo Redentor com aproximadamente 10 metros de altura pode ser vista neste percurso. O Cristo indica a proximidade da casa do idealizador do ‘Caminho das Hortênsias’ e das estátuas, o Sr. Paulo Notari, um italiano devoto.

Da cidade de Rodeio a Apiúna são 19 km de distância, que podem ser percorridos com uma mochila básica. Depois de cruzarmos uma bela ponte pênsil e nos dirigirmos à Igreja Sant'Ana, centro de Apiúna, tomamos café pela manhã e começamos a nossa derradeira caminhada de 27 km de Apiúna até Indaial. O dia prometia algo diferente, pois teríamos que caminhar às margens da BR 470, que é bastante movimentada, mas que nos levaria aos caminhos rurais de Indaial. Ali, fomos presenteados com muitas paisagens e cenários originais, além de interessantes lições de vida e gratificantes conversas com os moradores pelo percurso.

Não por menos, a chegada no Hotel em Indaial foi motivo de orgulho e satisfação. O assunto começou a derivar para o futuro... “Nós poderíamos fazer aquele outro caminho ...” E nem havíamos deixado o ponto de chegada.

Na internet: Circuito do Vale Europeu Catarinense Mochileiro www.circuitovaleeuropeu.com.br .

veja também