Moradores de rua viram guias de turismo da Londres dos sem-teto

Moradores de rua viram guias de turismo da Londres dos sem-teto

Atualizado: Segunda-feira, 23 Agosto de 2010 as 10:34

Em Londres, um grupo de moradores de rua deixou os cobertores de lado e conseguiu um trabalho pouco provável: o de guia de turismo. No passeio a pé, estão alguns dos principais pontos da capital inglesa. A diferença é que a programação é permeada por "atrações" inusitadas, como os lugares onde os sem-teto costumam dormir, e histórias da vida na rua.

São dois roteiros diferentes, um começa na London Bridge e outro, na Old Street, ambos na região central da cidade. Os turistas têm a chance de conhecer locais menos visitados, como o cemitério onde está enterrado o poeta inglês William Blake, e ver coisas pitorescas, como as janelas da casa onde vivia John Wesley, um dos fundadores da Igreja Metodista, fechadas com tijolos. "É que, até o século 19, era cobrado um imposto pela quantidade de iluminação natural que a casa recebia", afirma o irlandês Sean McDerby, "40 e poucos anos", um dos guias sem-teto da Old Street.

Logo em seguida, o seu colega, o letão Henri Sturmanis, 34, mostra a porta de um prédio onde vivem sem-teto forrada com moedas coladas: "É um protesto contra o capitalismo", diz.

Reinserção na sociedade

Curiosidades à parte, a ideia principal do projeto é colocar em contato dois mundos diferentes: o dos sem-teto e o do turista comum. A atividade faz parte do London Fringe Festival, evento cultural que reúne diversas ações na cidade durante o mês de agosto.

"Queríamos ajudar a reinserir essas pessoas na sociedade de uma forma criativa e sem paternalismo", diz Lidija Mavra, 28 anos, idealizadora do Unseen Tour (na tradução literal, "roteiro não visto"). Ela coordena a organização não-governamental The SockMob ("o grupo da meia").

"Quando comecei a fazer ações para ajudar moradores de rua, há sete anos, descobri que o que eles mais precisam é de meias, mas pouca gente sabe disso. Então, passei a arrecadar meias e o grupo ficou conhecido por isso", diz Lidija.

Tirar os sem-teto para as Olimpíadas

A inglesa Hazel Welding, 52 anos, e a norueguesa Viv Askeland, 54, se dividem na condução do grupo de turistas no roteiro da London Bridge. Animadas e divertidas para falar das atrações, elas se fecham quando é para comentar sobre o que as levou para as ruas. "É tão complicado", limita-se a dizer Hazel, com os olhos marejados.

Assim como McDerby e Sturmanis, elas foram escolhidas para o trabalho de guias por viverem há bastante tempo nos bairros. Alguns deles ainda estão nas ruas ou na casa de amigos, mas outros tiveram mais sorte, como Hazel, que conseguiu um apartamento popular do governo.

Sob a supervisão da ONG, eles próprios montaram os roteiros e fizeram toda a pesquisa em livros de bibliotecas públicas. "Levamos alguns meses preparando tudo isso", diz Sturmanis.

Prova disso está na quantidade de informações e detalhes passados aos turistas. No entanto, sempre quando dá, os guias não perdem a oportunidade de alfinetar um programa da Prefeitura de Londres lançado no ano passado para tirar todas as pessoas da rua até 2012: "O prefeito quer se livrar dos sem-teto por causa das Olimpíadas de 2012", diz Viv, apontando para um local onde a calçada deu lugar a pedras. "Do jeito que está, não é possível dormir mais ali."

Estimativas divulgadas em julho pelo Ministério de Habitação apontam que mais de 40 mil pessoas vivem como sem-teto na Inglaterra (estatísticas incluem quem mora em albergues, em propriedades invadidas ou na casa de conhecidos, por exemplo). Em Londres, são 9.460 sem-teto. As pessoas dormindo nas ruas inglesas somam 1.247, destas, 322 estão em Londres.

Organizações não governamentais, porém, afirmam que os números são subestimados. De acordo com a Combined Homeless and Information Network (Chain), foram contabilizadas 3.673 pessoas dormindo nas ruas de Londres em 2009 - a cidade responderia por mais da metade dos moradores de rua do país.

Sem souvenir

Ao contrário dos passeios turísticos, o Unseen Tour não termina numa lojinha de souvenir: os turistas são convidados para ir num pub da região e bater papo com os guias. "É uma oportunidade bacana para interagir com os moradores de rua, sem barreiras", diz a secretária inglesa Joanna Sargent, de 36 anos, que aprovou o passeio.

Os tours acontecem de quarta a domingo, até o dia 29 de agosto. Os grupos de turistas são de, no máximo, 20 pessoas. O ingresso custa 5 libras (o equivalente a quase R$ 14) por pessoa. A maior parte do dinheiro arrecadado vai para os guias e o restante é reinvestido no projeto para treinar mais pessoas.

Por: Fernanda Calgaro

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