No coração de MG, serra do Cipó é um festival de trilhas

No coração de MG, serra do Cipó é um festival de trilhas

Atualizado: Sexta-feira, 21 Agosto de 2009 as 12

Negra, espoleta, 1,50m e magrinha. Flor dos Santos, 25, conquistou o status de principal remadora do rio Cipó, na serra do mesmo nome, um dos principais destinos ecoturísticos de Minas Gerais, graças a seu currículo, acumulado durante dez anos de esforços nas águas da região. Resultado que pode ser conferido facilmente nos braços musculosos da moça.

No manso rio Cipó, momentos antes de suas águas despencarem com força na cachoeira Grande, ela dá a partida. Entre uma remada e outra, narra sua história, entrelaçada à da região. A canoa canadense desliza pela água, atravessa campos floridos e oferece um passeio de contemplação da natureza. Ideal é sair no finzinho da tarde, por volta das 17hs, quando a presença de pássaros (inúmeros) e mamíferos, como a capivara, é generosa.

Flor mora no Açude, antigo quilombo, hoje com cerca de 150 pessoas, apinhado de crianças. "Cada dia nasce uma", brinca. A mãe dela é benzedeira do povoado, e ela diz ter herdado o dom, que pretende desenvolver e tocar adiante. "Sou filha de iansã, menino", diz, referindo-se ao orixá feminino cuja epifania são os ventos, os raios e as tempestades.

Assim como os 16 irmãos, Flor nasceu nas mãos de uma parteira, sua tia-avó, que fez o trabalho como pôde, às margens de um rio. "Quando cortaram o cordão umbilical, caí na água fria. Nasci nadando, meu filho", lembra, em meio a gargalhadas.

O nome da remadora presta homenagem a um ingrediente encontrado em abundância na serra do Cipó. Nos seus maciços de pedra, às margens de rios, pertinho de cachoeiras, essa área, transformada em parque nacional em 1984, com o objetivo de proteger a flora da Cadeia do Espinhaço, abriga uma das maiores variedades de flores do mundo. São ao menos 1.600 espécies catalogadas, principalmente de orquídeas, que colorem e perfumam as trilhas. Muitas delas só são encontradas ali.

"Essa oferta de flores mostra como a vida pode brotar nos lugares mais remotos, como no meio de um monte de pedras", explica Flor. Boa parte floresce de janeiro a agosto, explodindo numa profusão de cores e aromas. Não à toa a serra do Cipó ganhou o singelo apelido de jardim do Brasil.

Curioso é que esse patrimônio fica bem pertinho de Belo Horizonte. Os bandeirantes foram os primeiros desbravadores do Cipó, naquela época conhecido como serra da Vacaria, importante divisor das águas das bacias do São Francisco e do rio Doce, quando seguiam rumo às minas do nordeste do Estado.

Coberta pelo mar

A reserva ambiental é cortada pelo rio Cipó e seus afluentes. Há duas versões para a origem do nome. A primeira recai sobre a quantidade de cipós que existiam na região. A segunda prega que o título teria origem no formato do rio, que lembra o da planta.

Entre as montanhas onduladas desse trecho da serra do Espinhaço, no coração de Minas Gerais, a do Cipó tem paisagens para todos os gostos. A parte baixa da serra lembra as estepes africanas. Já o platô, parece mesmo é com as "highlands" escocesas, com aquelas serras verdejantes se perdendo no horizonte.

A oferta da natureza reflete-se na fartura de esportes de aventura. "Avisa lá em São Paulo que dá para fazer de tudo um bocado por aqui", pede Flor. De rapel a tirolesa, de escaladas a travessias, ou simplesmente ficar de pernas cruzadas, ouvindo o barulhinho bom da queda-d'água. "É coisa boa demais da conta, sô!", diz, carregando no sotaque.

E água é o que não falta, nas versões rios, cachoeiras (são cerca de 200 com 4 m de queda só dentro do parque) e piscinas naturais. E é ela que dita a programação. Para chegar à cachoeira Véu de Noiva, de 70 m, por exemplo, nem precisa sair da cidade. Fica dentro de uma área de camping, no antigo distrito de Cardeal Mota -hoje Serra do Cipó.

Outras, como a cachoeira do Tabuleiro, considerada uma das mais bonitas do país, podem ser alcançadas com uma caminhada de duas horas a partir do povoado de mesmo nome. São 273 m de queda livre.

Dentro do parque nacional, há passeios por até quatro cachoeiras no mesmo dia. "Se o turista for bom de caminhada", avisa o guia Matheus Moraes, 29, o Gãozinho.

Calcula-se que, há cerca de 2 bilhões de anos, a serra do Cipó estivesse submersa pelo mar. Sinais dessa época ainda podem ser vistos nas pedras pontiagudas, moldadas pelas correntes marinhas, apontadas para o céu. A predominância é de quartzo, formado pelas areias depositadas no leito do antigo mar.

Inscrições rupestres datadas de milhares de anos podem ser vistas em grutas e cavernas. Numa simples caminhada, é possível deparar-se com canelas-de-ema gigantes, bromélias saindo do meio das pedras, orquídeas raras ao lado de cactos, vegetação que se espalha por matas de galeria, cerrado e campos rupestres.

Ao visitante desavisado, vale ressaltar a necessidade de abrir bem os olhos e redobrar a atenção para não pisar em plantas minúsculas ao longo das trilhas.

Afinal, no caminho há sempre pedras, mas também flores. Muitas flores.

Como chegar

A partir de Belo Horizonte, são 94 km pela MG-010, para o distrito de Serra do Cipó (antiga Cardeal Mota), atravessando a ponte sobre o rio Cipó

Quando ir

Com exceção do verão, quando chove bastante, o ano todo. É recomendável evitar feriados prolongados de Réveillon e Carnaval, quando a serra fica apinhada de gente

Dicas

Leve dinheiro em espécie, cheque e cartões (débito e crédito). Não existe banco nem caixa eletrônico no distrito de Serra do Cipó. Também não há posto de gasolina, por isso, se for de carro, abasteça em Lagoa Santa

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