Ouro Preto: onde o Brasil colônia vive

Ouro Preto: onde o Brasil colônia vive

Atualizado: Terça-feira, 26 Outubro de 2010 as 1:42

Quando os desbravadores portugueses chegaram a estes íngremes e montanhosos sertões, o ouro não tardou a brotar dos ribeirões e encostas, despertando a imediata atenção de aventureiros de toda a colônia e também do além mar. A febre do ouro tomou conta destas terras e a atividade extrativa logo faria com que a região ficasse conhecida como Minas Gerais, reconhecida como uma capitania.

Os mais prósperos dos arraiais uniram-se para formar Vila Rica, a cidade que hoje conhecemos com Ouro Preto, transformada em capital das Gerais em 1720, título que ostentou até 1897.

O ciclo do ouro trouxe prosperidade para a região, e casarões de fazer inveja à muitos ricos patrícios portugueses surgiram nas íngremes ladeiras da nova e orgulhosa vila. Devotos do catolicismo, os colonos iniciaram magníficos projetos para suas igrejas, que, como era convenção à época deveriam espelhar toda a grandeza de seus párocos, pois segundo o costume, tudo o que há de mais precioso devia ser oferecido à Deus, e, é claro, os moradores precisavam também exibir sua crescente riqueza.

Toneladas de ouro e prata foram empenhadas na decoração das muitas igrejas de Ouro Preto, e algumas das mais belas obras de arte adornam os altares e capelas, em uma explosão criativa que recebeu uma categorização própria: o famoso "Barroco Mineiro".

As Igrejas

Ouro Preto tem ao menos uma dezena de igrejas de interesse histórico, e talvez você já tenha se perguntado: Por que cidades relativamente pequenas tinham uma quantidade tão desproporcional de igrejas? Bem, há muitos fatores para que isto acontecesse.

Inicialmente, há de se levar em conta que toda a vida social da comunidade passava pela igreja. Era onde se desfilavam as melhores roupas e se flertavam as donzelas, mas eram também de certa forma uma demonstração pública de poder de seus patronos. As famílias de posição social de cada distrito reuniam-se para edificar a igreja de sua paróquia e a competição era inevitável, tanto para ter a igreja mais bela quanto para demonstrar a prosperidade dos que as mantinham.

Subindo uma íngreme ladeira, no outrora distrito mais rico da cidade está a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Sua origem remonta a uma capela erguida em 1696, posteriormente derrubada para dar vazão à obra prima barroca que encanta a todos desde 1733. Estima-se que foram utilizados mais de quatrocentos quilos de ouro em pó para adornar suas paredes, além de obras de mestres barrocos.

Anexo à sacristia da Matriz do Pilar está o Museu de Arte Sacra, com algumas peças contando um pouco da história dos objetos de devoção e vestimentas utilizadas no ritual litúrgico ao longo do tempo.

A visita é muito interessante, e entre outras coisas você descobrirá a origem da expressão "Santinho do Pau Oco". Para evitar os tributos – o afamado "quinto" – os engenhosos colonos encomendavam grandes esculturas com imagens de santos ocas por dentro, e recheavam seu sento de devoção com puro ouro e pedras preciosas, mantendo assim a mercadoria distante dos olhos dos coletores de tributos do Reino.

Considerada a expressão maior do rococó, a Igreja de São Francisco foi construída segundo projeto feito por Aleijadinho, que além de fazer os desenhos da fachada, altar principal e capelas laterais, ainda esculpiu boa parte da decoração. É... o mestre mineiro era versátil!

Em tempos de escravidão, a triste situação de discriminação fazia com que os negros não fossem autorizados a entrar nas igrejas freqüentadas pelos brancos, motivo pelo qual a Igreja do Rosário foi construída exclusivamente para que os escravos e servos pudessem direcionar suas preces.

Para quem deseja conhecer a morada final de Aleijadinho (sim, você ouvirá muito sobre ele em Ouro Preto) o endereço é a Matriz da Conceição, arquitetada por seu pai, que por sinal também se encontra ali sepultado.

Afinal, quem foi Aleijadinho?

Antonio Francisco de Lisboa foi filho de um grande arquiteto e mestre-de-obras português com sua escrava, Isabel. Há poucos registros sobre sua vida, e mesmo sua data de nascimento é controversa, variando conforme a fonte entre 1730 e 1738, em Ouro Preto.

Nascido escravo condição herdada de sua mãe, foi alforriado pelo pai – e senhor – no dia de seu batismo. Além do sangue, acredita-se que de seu pai legou o gosto pelas artes e os dons para a arquitetura. O convívio com as obras e artistas refinou seus talentos. Alguns pesquisadores acreditam que Aleijadinho esteve no Rio de Janeiro, e por lá estudou e foi influenciado, mas este é mais um dos muitos eventos incertos.

Vítima de uma doença misteriosa, Antonio Lisboa teve seu corpo deformado e conta-se que perdeu vários dedos, o que lhe rendeu o apelido pelo qual ficou conhecido. Consciente que era do quanto sua figura havia se deformado, Aleijadinho preferia trabalhar à noite, quando podia deslocar-se sem ser visto, e desenvolveu um humor bastante temperamental.

Considerado o mestre maior do "Barroco Mineiro", suas obras espalham-se pelas cidades históricas de Minas, dentre as quais, os célebres Doze Profetas, na cidade de Congonhas e o projeto da Igreja de São Francisco, em São João Del Rey, mas é em Ouro Preto, sua cidade natal, que a maior parte de suas obras está. Curiosamente, a maior parte de sua obra não foi oficialmente registrada, e a maioria dos trabalhos lhes foi atribuída por semelhança à obras catalogadas.

Inconfidência e Romantismo

Outro morador ilustre de Ouro Preto imortalizado na história é Joaquim José da Silva Xavier, o nosso Tiradentes, cuja coragem e destino trágico transformaram no símbolo maior do desejo de liberdade dos brasileiros.

Recebendo tratamento de traidor da Coroa Portuguesa, praticamente todos os bens de Tiradentes foram queimados, sua casa demolida e o terreno onde estava foi salgado para que ali nada nascesse. Esta sina foi mantida até a década de 1930, quando o local foi utilizado para a construção da sede da Associação Comercial de Ouro Preto.

Dos inconfidentes, foi o único a sofrer a pena de morte, e sua imagem propositadamente assemelhada nas obras artísticas à de Jesus, foi eternizada como parte do ideal romântico da independência inspirado na Revolução Francesa.

O Museu da Inconfidência, na Praça Tiradentes apresenta objetos e documentos históricos deste importante período histórico, além de belas obras de arte. Abriga também, desde a década de 1930, os restos mortais dos heróis desta tentativa malfadada de independência. O prédio do museu abrigava, no passado, a Casa da Câmera e também a cadeia de Vila Rica, e a mostra inclui objetos que demonstram o que teria sido "ir em cana" naqueles dias. Posso lhes antecipar que não era uma experiência das mais agradáveis.

Os passos da inconfidência mineira estão ainda visíveis na cidade, incluindo os locais secretos de encontro, como a sacristia da Matriz do Pilar e a Casa dos Inconfidentes. Os rebeldes foram presos na Casa dos Contos, que transformado em museu hoje apresenta uma boa mostra sobre o Ciclo do Ouro, além de uma bem preservada senzala.

As residências de alguns ilustres personagens da conspiração, como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga podem ser visitadas.

Tomás Antonio Gonzaga, nascido português, mas um forte defensor da independência da colônia foi também um dos expoentes do movimento literário do romantismo. Condenado ao exílio por sua participação na traição inconfidente, Gonzaga viveu dez anos na África. Seu romance platônico por sua noiva, com a qual foi impedido de se casar após o incidente, gerou a obra Marília de Dirceu. O local onde um dia ficou a casa da amada de Gonzaga é hoje marcado pelo Chafariz de Marília, e é um ponto imperdível aos românticos incorrigíveis.

Eiras e Beiras

Você já ouviu a expressão "sem eira nem beira" significando um cidadão que não tem bens nem objetivos? Se você, como eu, não fazia a menor idéia do que seria uma eira ou uma beira, eis aqui o lugar certo para saber mais sobre o assunto.

Aproveite para descansar na subida de uma das muitas (e desafiadoras) ladeiras de Ouro Preto e preste atenção nos telhados das casas. Muitas das residências históricas apresentam uma pequena marquise de telhas, conhecida como eira, mas as mais abastadas apresentam um elemento arquitetônico requintado junto à eira, o que hoje chamaríamos de platibanda, eis aí a famosa beira.

Nos tempos coloniais, os tributos eram cobrados seguindo este critério: quem tinha eira pagava certa quota. Quem tinha eira e beira pagava uma quota maior. Já os mais pobres, "sem eira nem beira" estavam isentos de impostos. Mas poderia você agora perguntar, porque construir eiras, beiras e pagar mais tributos? Bem... Nota-se que a ostentação não é um esporte novo, e que senhor colonial aceitaria casar sua preciosa filhinha com um sujeito "sem eira nem beira"?

Delícias da Cozinha, Boemia e Pedra Sabão

Há muito mais para se ver e fazer em Ouro Preto: a deliciosa cozinha tradicional de Minas, com seus apetitosos quitutes, dentre os quais os icônicos pão de queijo e queijo com goiabada são grandes astros.

A cidade é também conhecida como um dos principais centros universitários do estado, e seus animados estudantes, boa parte dos quais vivendo em tradicionalíssimas "repúblicas" garantem a animada e boêmia noite de Ouro Preto. O carnaval da cidade é conhecido como um dos mais animados do Brasil.

O artesanato mineiro é também muito apreciado, e é encontrado em diversas lojinhas, que vendem de enfeites para cozinha a obras de arte dignas de galeria. Em frente à Igreja de S. Francisco há uma feirinha de artefatos de pedra sabão com preços bem simpáticos. Informe-se dos dias e horários.

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