Roteiro cinematográfico em Roma

Roteiro cinematográfico em Roma

Atualizado: Segunda-feira, 3 Maio de 2010 as 2:16

Enquanto filmava Spartacus, na Cidade Eterna, Sir Laurence Olivier declarou: "Se esta cidade não existisse, eu a sonharia". Roma é belíssima, tem um enquadramento fantástico e uma excelente luz de cinema. Não à toa, os filmes rodados na cidade esbanjam poesia.

Também merece crédito a estrutura cinematográfica montada pelos italianos, com os estúdios de Cinecittà. Aos amantes da sétima arte, e aos aficionados pelas películas italianas, preparamos um super roteiro em Roma através de clássicos rodados na cidade, onde cada esquina é um lugar bom para se colocar uma câmera. Prepare as malas e faça parte do seu filme preferido.

Piazza Navona

A Piazza Navona, onde fica a embaixada do Brasil na Itália, era o antigo estádio de Domiciano, erguido por volta de 85 d.C. Media 276 metros e tinha capacidade para até 30 mil espectadores. As corridas de cavalo aconteceram por lá até 1839. Atualmente, o centro da praça ostenta a Fonte dos Quatro Rios (Fontada dei quattro fiumi), do escultor Bernini. Uma das estátuas cobre os olhos para não ver a igreja em frente, projetada por Borromini. Os dois artistas, ambos barrocos, eram rivais e se odiavam.

Hoje em dia a Piazza Navona é um endereço exclusivo, concentrando restaurantes e bares elegantes. Mas até os anos 1950, a praça era popularesca, cheia de operários, ambulantes e mendigos. Portanto, não é de se estranhar que a prostituta Mara (Sophia Loren) receba seus clientes exatamente ali, numa coberturazinha entre a Piazza Navona e a Piazza di Tor Sanguigna. A cena pode ser conferida no terceiro episódio de "Ontem, Hoje e Amanhã" (Vittorio De Sica, 1963).

Entre os clientes de Mara está Rusconi (Marcello Mastroianni). Ele uiva de contentamento quando Mara protagoniza o striptease mais sensual do cinema italiano. Em "Prêt-à-porter" (1994), Robert Altman repete a sequência do striptease, em homenagem aos anos de ouro da dupla Loren-Mastroianni. Mas, dessa vez, a história se passa em Paris. Mas quase nenhum cinéfilo troca as cores quentes da Piazza Navona, no filme de De Sica, pela Cidade Luz.

Em outro filme bem mais recente, "O Talentoso Ripley" (1999), Tom Ripley (Matt Damon) conversa nervosamente com Dickey (Jude Law) em um sofisticado café da Piazza Navona, bebericando capuccino e Frascati. Ele está tentando armar um golpe, mas tudo se complica quando chega Freddy (Philip Seymour Hoffman), seu rival, em um Alfa Romeo conversível vermelho. O carro é de mentirinha, pois os autos são proibidos de circular por lá.

Como chegar: no terminal de ônibus da estação Termini (Stazione Termini), pegar os ônibus 40, 62 ou 64.

Pantheon

Construído entre 27 e 25 a.C., e reconstruído por Adriano em 126 d.C., o Pantheon é uma das mais imponentes obras arquitetônticas do mundo. A entrada é quadrada, mas seu interior é completamente redondo. A cúpula é a maior em alvenaria jamais construída e sua tecnologia resiste há dois mil anos de abalos. Por si só, já vale a pena uma visita. Pelas lentes de cinema, fica melhor ainda.

Em 1953, o Pantheon serviu de cenário para a fuga de Audrey Hepburn e Gregory Peck em "Férias Romanas" (William Wyler). O diretor quis que o filme fosse inteiramente rodado em Roma para transformar a cidade em uma das protagonistas do enredo. "Férias Romanas" deu o Oscar de melhor atriz para Audrey, e faturou os prêmios de melhor roteiro e figurino. Porém o Caffè Rocca, onde a princesinha entediada Ann e o repórter Joe tomaram champanhe e café, não existe mais. Mas é possível compensar sua ausência nas inúmeras opções de cafés e restaurantes da Piazza della Rotonda, onde fica o Pantheon.  

Depois de "Férias Romanas", o monumento ficou marcado, por muito tempo, como um cenário romântico. O diretor italiano Elio Petri quis inverter isso e rodou, entre as enormes colunas do Pantheon, uma cena dramática do filme "Investigação" sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1971). Na sequência, o comissário de polícia de Gian Maria Volonté confessa o homicídio da amante a um encanador que, por acaso, passa por ali. Paranoia e tortura psicológica que valeram o prêmio do júri em Cannes, em 1970, e o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1971.

Em 1952, Vittorio De Sica rodou o comovente "Umberto D". Numa das cenas, um sofrido velhinho aposentado (Carlo Battisti) não tem como pagar o aluguel. Sem ter a quem recorrer, vai para as colunas do Pantheon pedir esmolas, mas sente vergonha. Mortificado, coloca o chapéu na boca de seu cãozinho.  

Como chegar: pegar os ônibus 116 ou 116 T na Piazza Barberini.

Fontana di Trevi

Nicolò Salvi foi o arquiteto que projetou esta que é uma das maiores, mais bonitas e mais famosas fontes de Roma. A água perene que corre na Fontana di Trevi vem do Aqueduto di Acqua Vergine, em atividade há 2 mil anos!

Ela estreou no cinema em 1896, em um filme dos irmãos Lumière. Em "A Fonte dos Desejos" (Jean Negulesco, 1954), indicado ao Oscar de melhor filme, três americanas jogam moedas na Fontana para conseguir um marido. Audrey Hepburn também passou por lá, com Gregory Peck, no já citado "Férias Romanas".

Mas a Fontana di Trevi está na memória coletiva de todo cinéfilo graças à uma das sequências de "La Dolce Vita", de Federico Fellini (1960). O personagem Marcello (Marcello Mastroianni) procura leite para um gato encontrado por Sylvia (Anita Ekberg). Enquanto isso, ela se perde nas ruazinhas estreitas em torno da fonte. Quando menos espera, a fonte se abre diante de seus olhos, como uma grande piscina de mármore, com cavalos e estátuas. Tão logo a vê, Sylvia entra na água, em um mergulho imortalizado nas telas e na memória de quem assistiu ao filme.

Em 1990, Mastroianni volta à Fontana di Trevi, no filme "Todos Estão Bem", de Giuseppe Tornatore, com música comovente de Ennio Morricone. Mastroianni para em frente à fonte, velho, cansado e abandonado pelos filhos. A fonte está sendo restaurada e, no lugar da água, há somente pássaros mortos. A sequência é uma alusão melancólica a Federico Fellini e à finitude do ser humano.

Como chegar: à esquerda do Pantheon, seguir pela Via dei Pastini, passar pela Piazza di Pietra, cruzar Via del Corso e continuar pela Via delle Muratte até chegar à Piazza di Trevi. Em teoria, são 10 minutos de caminhada. Mas ninguém costuma fazer esse percurso sem parar para olhar e fotografar. Querendo, pode-se fazer o percurso com os ônibus 116 T, 117 e 119.

Via Veneto

Não existe, em Roma, rua mais conhecida do que a frequentadíssima Via Veneto. Há 50 anos, porém, a rua era mais um reduto de intelectuais do que de gente baladeira e famosa. Fellini costumava encontrar os amigos em seus bares e restaurantes, onde passava o tempo desenhando personagens de seus filmes em guardanapos e toalhas de papel. As lojas de grife e os hotéis sofisticados, bem como o Largo Federico Fellini, surgem somente depois do sucesso de "La Dolce Vita".

A Via Veneto do filme, porém, nunca existiu de verdade. Ela foi toda reconstruída, de forma idêntica, nos estúdios de Cinecittà, dos cafés com mesas na calçada aos restaurantes e o burburinho.

No filme de Fellini, a cena que imortalizou os paparazzi é a da briga, nas calçadas da Via Veneto, entre fotógrafos e algumas celebridades que não querem ser fotografadas. Não custa repetir que Paparazzo era o nome do fotógrafo interpretado pelo ator Walter Santesso.

Ainda em 1960, foi lançado o filme "Totó, Peppino e La Dolce Vita", uma paródia do filme de Fellini. Totó, uma espécie de Carlitos italiano, finge-se de milionário e passa a circular entre mulheres bonitas e amigos ricos, nos bares de Via Veneto. Para quem gosta de humor estilo "comédia dos erros", é hilariante.

Como chegar: saindo da Fontana di Trevi, seguir a pé pela Via del Tritone até a Piazza Barberini, ou ir até lá com os ônibus 62, 116 e 119 (duas paradas). A Via Veneto começa à esquerda da estátua do Tritão da Piazza Barberini. De metrô: Stazione Barberini, linha A, vermelha.

Piazza di Spagna

A praça é famosíssima pela escadaria chamada Trinità dei Monti, que tem servido de cenário para desfiles de moda, comerciais, flash mobs e intervenções artísticas. À direita da escadaria está situada a casa do poeta inglês John Keats, transformada em museu. No centro da Piazza fica a Fontana della barcaccia, uma fonte barroca em forma de barco, onde se refrescam os milhares de turistas nos dias de calor.

Audrey Hepburn e Gregory Peck também deram uma passadinha na Piazza di Spagna, depois de uma comportada noite juntos, em "Férias Romanas". Além deles, Vivien Leigh, no filme "Em Roma, na Primavera" (1961), também passou por ali, na pele de uma atriz decadente, envolvida com um gigolô.

Em "Nós que nos Amávamos Tanto" (1974), o celebrado diretor Ettore Scola percorre 30 anos de história italiana (de 1945 a 1975), no reencontro de três grandes amigos que não se viam desde o fim da Guerra. No elenco estão Marcello Mastroianni e Vittorio Grassman, com participação especial de Fellini e Vittorio De Sica, representando eles mesmos. No filme, Scola homenageia Sergei Eisenstein, quando um dos personagens simula, na escadaria de Trinità dei Monti, a famosa sequência do carrinho de bebê que desce escada abaixo em "O Encouraçado Pontenkim" (1925). No lugar do carrinho, é uma carroça de flores que desce a escadaria.

Em um filme mais recente, após dar fim ao amigo Dickie, o enrolado-até-o-pescoço Ripley ("O talentoso Ripley") marca um encontro com Marge (Gwyneth Pawtrow) no Caffè Dinelli’s, na Piazza di Spagna. No momento em que estava prestes a vê-la, um grupo de amigos aparece no café e começa a confrontar as mentiras de Ripley. Correndo o risco de ser desmascarado, ele acompanha a conversa do alto, nas escadas de Trinità dei Monti.

Como chegar: Estação Spagna (Stazione Spagna) do metrô, linha A, vermelha.

Circo Massimo e Boca da Verdade

Desde o Império Romano os italianos gostam de velocidade e o Circo Massimo é prova disso. Trata-se de uma antiga arena romana para corrida de bigas e cavalos, com 600 metros de comprimento e 150 mil lugares. As primeiras estruturas em alvenaria para as corridas apareceram por volta do ano 200 a.C.

As filmagens de "Ben Hur" (1959) duraram cerca de um ano, realizadas, na maior parte, na cidade cenográfica de Cinecittà. A famosa corrida de bigas do filme, com Charlton Heston, deveria ser rodada no Circo Massimo, mas, depois de meses para preparar a locação, houve uma brusca mudança de planos. Entre os diversos problemas para rodar o filme, a produção exigia quatro cavalos brancos puro-sangue. Eles não existiam na Itália e precisavam ser transportados, de trem, da Tchecoslováquia. Em meio a tantos problemas, o produtor Sam Zimbalist teve um infarte e morreu. Por fim, a corrida de bigas saiu, mas também foi rodada em um cenário.

Atualmente não existem mais vestígios da arena do antigo Circo Massimo, a não ser o espaço que ele ocupava, circundado pelas ruínas do Fórum romano, próximo ao Coliseu. Ou seja, ainda vale a pena passar por lá.

Audrey Hepburn e Gregory Peck, sempre montados em sua Vespa, continuaram suas "Férias Romanas" até a Bocca della Verità (Boca da Verdade). Naquele lugar, eles testaram a lenda: se alguém diz uma mentira, tem a mão imediatamente cortada pela velha tampa romana de bueiro.

Conta-se que Gregory Peck teria dito, sem medo de perder a mão na Boca da Verdade, que aqueles dias passados em Roma, rodando "Férias Romanas", foram os mais felizes de sua vida. Foi na Cidade Eterna que Peck conheceu a francesa Veronique Passani, por quem se apaixonou e com quem viveu até morrer, em 2003.

Como chegar: saindo da Piazza di Spagna, pegar o metrô Termini (três estações). Em Termini, mudar para a linha B, Azul (sentido Laurentina), até a estação Circo Massimo. De metrô, partir diretamente da Stazione Termini.

Coliseu

Não importa se é "Quo vadis" (Mervin LeRoy, 1951), "Spartacus" (Stanley Kubrick, 1960) ou "Gladiador" (Ridley Scott, 2000). Qualquer sequência de luta entre gladiadores ou de cristãos sendo devorados, no Coliseu, teve de ser rodada em réplicas dele, em Holywood, Cinecittà ou em Malta, ao norte da África. Foi em Malta que Ridley Scott conseguiu reconstruir um Coliseu muito parecido com o original, mas bem menor.  

Como chegar: Metrô linha B (azul), Stazione Colosseo. Ir ao Coliseu a partir do Circo Massimo é uma vantagem, porque os dez minutos de caminhada incluem ver as ruínas dos Fori imperiali, onde moravam os imperadores romanos.

Por: Solange Cavalcante

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