San Francisco, cidade eleita a mais bonita pelos americanos

San Francisco, cidade eleita a mais bonita pelos americanos

Atualizado: Sexta-feira, 8 Abril de 2011 as 11:41

San Francisco não é apenas a cidade mais original dos Estados Unidos, com casinhas em estilo vitoriano, ladeiras cinematográficas e quarteirões sem um McDonald’s numa esquina e uma Blockbuster na outra. É, também, a cidade mais bonita dos Estados Unidos! E quem diz isso são os próprios americanos, que há anos a elegem como a preferida do país que adora fazer listas. E o resto do mundo concorda. E completa: além de bonita, San Francisco (assim mesmo, em espanhol, já que foi fundada por missionários no tempo em que toda a Califórnia ainda pertencia ao México) também é diferente e charmosa – muito charmosa. Um lugar que ninguém torce o nariz quando ouve. Muito pelo contrário.

Mas a lista de adjetivos que costumam acompanhar San Francisco é ainda maior. Tolerante, por exemplo, é um deles. A cidade aceita todo mundo e não discrimina as diferenças: 11% de sua população tem preferências sexuais próprias e 30% veio dos mais longínquos rincões da Ásia, mas ninguém está nem aí para o jeito esquisitão do vizinho. Esta tradição de liberalidade vem desde os tempos dos beatniks e dos hippies: todos cujo comportamento não era bem aceito no resto do mundo se mudavam para lá. Certa vez, o escritor inglês (e gay) Oscar Wilde sintetizou o fenômeno, dizendo: “É curioso, mas todo mundo que desaparece é visto em San Francisco”. A cidade tolera qualquer coisa: menos que a chamem de “Frisco”, como costumam fazer os demais americanos. É como chamar São Paulo de “Sampa” ou Belo Horizonte de “Beagá”. Só fala assim quem não é de lá.

San Francisco também é alegre, simpática e cheia de vida, porque faz questão de curtir cada dia como se fosse o último. Até porque pode ser mesmo! A cidade está assentada sobre uma das maiores falhas geológicas do planeta, a de San Andres, uma fenomenal rachadura que rasga a Califórnia por debaixo da terra e, vira e mexe, é responsável por sacudões na superfície. O último grande foi em 1989, quando San Francisco sacudiu por alguns segundos. Mas o pior foi o de 1906, quando a cidade inteira ondulou feito uma gelatina e acabou destruída por completo. Na ocasião, outro famoso escritor, Mark Twain, decretou: “San Francisco isn’t more” (“San Francisco não existe mais”). Errou feio. A cidade foi reconstruída com as mesmas ladeiras que fazem com que os bondes pareçam flutuar no céu, e ganhou a cada dia mais fãs. Como nós, brasileiros, que adoramos a cidade e nem somos americanos.

A Golden Gate está para San Francisco assim como o Cristo Redentor para o Rio de Janeiro: de onde quer que você olhe na orla da cidade lá estará o monumento na paisagem. E o mais curioso é que você não se cansa de vê-la. Talvez porque, com seu tom vermelho-alaranjado-berrante, para tornar-se visível nos freqüentes nevoeiros da cidade, seja mesmo impossível não notá-la. Ou porque, ao vivo, ela é ainda mais imponente do que se imagina. Monumentos famosos costumam decepcionar os turistas, quando vistos de perto: quase sempre parecem maiores nas fotos. Mas este não é caso da Golden Gate, ainda hoje a maior ponte pênsil (ou seja, não fixa e sim sustentada por cabos) do mundo. Com 2,6 quilômetros de extensão, seis faixas para automóveis, uma calçada para pedestres e duas torres equivalentes a prédios com 70 andares de altura, a ponte é, até hoje, um fenômeno da engenharia, capaz de enfrentar terremotos e os fortíssimos ventos da baía – daí ser móvel! Sim, ela balança. Mas, com aquele tamanho todo, você nem sente.

Um restaurante que só tem alho!

San Francisco tem muitos prazeres. Um deles é comer em restaurantes transados. A cidade é uma espécie de laboratório da nova cozinha americana, cheia de modismos e chefs de vanguarda. Há quase 4 000 restaurantes na cidade, ou um para cada menos de 200 habitantes, uma das médias mais altas do mundo. Porém, um deles em particular, chama muito a atenção, pela sua originalidade: é o Stinking Rose (“Rosa Fedorenta”), especializado em alho e, por isso mesmo, original até no nome (“rosa-de mau-cheiro” era como os antigos romanos chamavam os pés de alho). Ali, tudo é à base do forte condimento, que, no entanto, ali não é tão forte assim – daí o sucesso do restaurante, que sempre tem filas enormes na porta (se não quiser esperar, faça reserva; ele fica na Columbus Avenue, 325). O cardápio oferece dentes de alho em conserva como aperitivo, pão de alho no couvert, sopa de alho como entrada e carnes e massas (temperadas com alho, naturalmente) nos pratos principais. Na saída, uma lojinha vende produtos como spray anti-alho, para quem não quiser voltar para o hotel com bafo de leão. Drácula jamais jantaria ali. Mas você, por que não?

Sanduíche de sopa ou sopa-sanduíche?

Apesar da fama gastronômica de San Francisco, a comida mais típica da cidade é uma simples sopa: a “clam chowder”, feita de batatas e pedaços de caranguejo. É gostosa, mas nada demais. O que, porém, a torna tão especial é a maneira como ela é servida: dentro de um pão, feito uma cuia, ou um esquisito sanduíche. No lugar do miolo, você toma a sopa. E, depois, se quiser, come também o “prato”. Vale mais pela originalidade do que pelo sabor. Até porque o pão usado, chamado “sourdough”, é duro, sovado e azedo.

O city tour que você faz sozinho e grátis

Quem quiser conhecer todas as grandes atrações de San Francisco sem se perder, nem gastar um centavo com guias ou city tours convencionais de ônibus, só precisa ter um carro e seguir as placas azuis e brancas, com o símbolo de uma gaivota e um grande número 49, que sinalizam o caminho da 49 miles route, uma rota turística demarcada pelas ruas da cidade. É facílimo. Você vai seguindo as placas, virando em ruas improváveis e descobrindo coisas interessantes, que, do contrário, muito provavelmente não saberia. E sem chances de errar o caminho, porque há abundância das tais placas. Nem precisa de guia, embora convenha pegar antes um mapa descritivo de cada atração do caminho, que é gratuito, em qualquer hotel. O nome “49 miles” é uma referência à distância do percurso completo, que é bem longo. Mas, como não se trata de um city tour convencional, você só faz o quanto quiser. E do jeito que quiser.

Onde nasceu o Jeans

No final do século 19, alguém gritou “ouro!”, perto de San Francisco. Pronto, foi o bastante para uma multidão de forasteiros invadir a cidade, em busca da riqueza fácil. Pouquíssimos conseguiram, mas um, em particular, se deu bem. Muito bem. E sem achar um grama de ouro sequer! O alemão Levi Strauss logo percebeu que, melhor do que cavucar era transformar a lona grossa usada para cobrir os acampamentos em resistentes calças para os garimpeiros. Nascia assim o jeans! Ali mesmo, em San Francisco, onde ainda hoje os descendentes de Strauss tocam a megaempresa criada por ele: a Levis, é claro, que tem uma megaloja no centro da cidade. Mas, tirando o fator histórico, não há nenhum outro benefício em comprar seus jeans lá ou em outro lugar. Eles são rigorosamente os mesmos e custam a mesma coisa: entre US$ 35 e US$ 50 uma calça.

Um carro ajuda muito, mas…

Apesar dos famosos filmes de perseguição e das folclóricas oito curvas em menos de 200 metros da Lombard Street, considerada a rua mais sinuosa do mundo, San Francisco tem verdadeira ojeriza por automóveis. Experimente só encontrar um lugar para estacionar! Não há! Todas as ruas têm o meio-fio pintado de diferentes cores, que significam que em alguns é “proibido parar” e em outros é “terminantemente proibido parar!”. E, quando pode, parquímetros pagos não permitem mais do que meia hora de uso. O jeito é apelar para os estacionamentos particulares, que são exorbitantes: uma simples hora pode custar US$ 6 (quase R$ 20!) e uma noite inteira, US$ 30 – mais de R$ 80! A questão é tão grave que muitos restaurantes acenam com descontos nos estacionamentos para atrair os clientes e os hotéis anunciam garagens gratuitas com mais estardalhaço até do que bons quartos. Além disso, por causa dos bondes, as ruas são irregulares e com uma espécie de calçada no meio do asfalto, por onde os trilhos passam. E ainda tem as ladeiras, tão íngremes que você jura que o carro não irá subir ou, pior, irá despencar lá de cima. O mais contraditório de tudo isso é que o melhor jeito de ir para San Francisco é mesmo de carro. Seja para aproveitar o belíssimo caminho desde Los Angeles ou apenas para seguir o tal percurso turístico das 49 milhas, por dentro da cidade. Além do mais, se não fosse pelos automóveis, por que alguém construiria uma ponte como a Golden Gate?

O píer que virou um aquário

Ninguém sabe por que, mas, um dia, coincidentemente (ou não!) após um tremor mais intenso na região, alguns lobos-marinhos resolveram trocar a ilhota que ocupavam, na Baía de San Francisco, pelos deques de madeira de um dos píers da cidade. Logo vieram outros, e mais outros e outros mais, até formarem uma colônia de quase 600 animais. No começo, os donos das então pequenas peixarias do lugar até tentaram expulsar os lobos, por causa do mau cheiro. Logo, porém, descobriram que os bichos atraíam a atenção dos turistas e, com isso, os negócios aumentavam. Assim, não só passaram a incentivar a vinda de mais bichos, construindo deques só para eles, como remodelaram todo o píer, transformando-o numa espécie de megashopping sobre palafitas. Hoje o folclórico Pier 39 é a terceira atração mais visitada dos Estados Unidos. Afinal, os lobos-marinhos nunca mais saíram de lá.

Aqui, você gosta até de prisão!

O programa mais insólito da cidade é pegar um barco, atravessar até o meio da fria baía, encarar o vento gelado no rosto, desembarcar numa espécie de ilha-fortaleza com a aparência de uma caixa de concreto e conhecer, por dentro, a mais famosa prisão de todos os tempos: Alcatraz. A infame penitenciária, que abrigou alguns dos mais célebres condenados da história americana (entre eles, o gângster Al Capone), foi desativada há décadas, mas manteve-se fiel aos tempos em que era considerada “à prova de fugas” – reza a lenda que só três detentos conseguiram escapar de lá, mas todos teriam sucumbido às águas congelantes da baía, daí ela ser “inescapável”. Lá dentro, o ambiente é carregado, com catres à mostra e paredes de metal eternamente úmidas, por causa da maresia da baía. E, para criar o clima, fones de ouvido vão narrando, nas mais diferentes línguas, as histórias dos condenados. Um programa horrível? Não é o que pensam os turistas, que pagam, sorridentes, US$ 10 cada para conhecer o lugar de onde, no passado, todos queriam fugir. E até gostam!

Se você acha que fog é coisa da Inglaterra, de onde, inclusive, veio a palavra que se tornou sinônimo de neblina até no Brasil, espere só até chegar em San Francisco! Se a cidade já não estiver totalmente encoberta por um manto branco e espesso, ela logo, logo ficará. É só uma questão de tempo. Pouco tempo, por sinal. As nuvens chegam baixas e rápidas e, como um rasante de gaivota, tapam o sol, fazendo despencar os termômetros em até 20 graus centígrados, em questão de minutos. Nesses instantes, quem tiver a sorte de estar num dos pontos altos da cidade (e bem agasalhado, porque a ponta do nariz imediatamente congela!) verá San Francisco transformar-se num tablado branco, só com as torres da Golden Gate de fora, feito um navio-fantasma num mar de algodão. O nevoeiro é potencializado pela topografia da cidade, cheia de colinas, que canalizam os ventos e transformam ruas e avenidas em gelados corredores. Mas a boa notícia é que, com a mesma rapidez com que a névoa aparece, ela vai embora. Assim, um mesmo dia tanto pode permitir short e camiseta, quanto exigir casaco e cachecol, deixando os turistas sem saber o que vestir para passear. Por causa do vento, é também comum um bairro estar nublado e o outro ensolarado, criando microclimas dentro da própria cidade. O fog aumenta ainda mais no verão, quando a diferença entre as temperaturas da água do mar e do ar é maior. Mas arrefece um pouco no inverno, quando é igualmente congelante nos dois. De qualquer forma, convém colocar um pouco de tudo na mala, não importa o que diga o calendário. O escritor Mark Twain disse, certa vez, que o inverno mais frio da vida dele foi um certo verão em San Francisco. E não era apenas uma frase de efeito!

Um cidade feita de casas de bonecas

San Francisco lembra um condomínio: tem muito verde, jardins bem cuidados e simpáticas casinhas, todas mais ou menos iguais. Contribuem para isso a ausência de altos edifícios (por causa do risco de terremotos) e uma certa predileção por um estilo arquitetônico que remete aos castelinhos dos contos de fadas: o vitoriano, cheio de telhadinhos e janelas salientes. Não se sabe exatamente como a moda começou, já que a cidade nasceu como mexicana e não inglesa, mas o fato é que o estilo se alastrou pelas colinas da região mais do que o arbusto que deu o primeiro nome ao lugar: Yerba Buena – para muitos, uma premonição da maconha que, depois, rolaria solta por ali, nos embalos do “paz e amor”. Ainda hoje existem 14 mil casas vitorianas em San Francisco, geralmente de madeira e com ares de cenário de filme – mesmo sentimento de quem vê aquelas escadinhas de emergência que unem as varandinhas dos prédios nos filmes americanos e que, ali, são tão comuns quanto as próprias casinhas vitorianas. Só que não tão bonitas quanto elas.

Bem, nem tudo é perfeito…

Uma das piores coisas de San Francisco você vai sentir quando enfiar a mão no bolso para pagar o simples prazer de estar ali. Sim, a cidade é cara! Uma das mais caras dos Estados Unidos. Ali, ao contrário da célebre rede de lojas de bugigangas, nada é por 1 dólar! Até um simples cafezinho custa o dobro disso: US$ 2. E um simples caranguejo pode valer US$ 15 (ou quase R$ 50!), nas tendas do Fisherman’s Wharf. Além disso, tudo na cidade é acrescido de uma taxa estadual de 8,25% – o famoso “plus tax”, que você vai ouvir muito por lá.

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