Turismo solidário não tira férias

Turismo solidário não tira férias

Atualizado: Segunda-feira, 10 Janeiro de 2011 as 1:31

Uma semana antes de sua viagem ao Senegal, a sala de Ibon Moleres, de 33 anos, estava tomada não por malas ou mapas, mas por um monte de latas de comida, livros e roupas infantis. A segunda bagagem foi cheia de ajuda humanitária. Ele escolheu o turismo solidário como opção de férias. O conceito vai além do ecoturismo, outra forma de unir turismo à responsabilidade social: o objetivo é conhecer um país visitando os principais pontos de interesse, e também o trabalho desenvolvido por organizações não-governamentais. Ibon foi ao Senegal com um grupo de 12 pessoas, graças à ONG espanhola Campamentos Solidarios. O projeto Afrique Aventure, mantido pela entidade, tem como objetivo a criação de uma rede de acampamentos que cubram as zonas mais necessitadas do país.

- Há dois anos uma amiga da minha irmã foi ao Senegal com a ONG e ficou apaixonada pela experiência. Agora é minha vez de ir - diz.

Como os visitantes podiam levar duas malas sem pagar taxas extras, a Campamentos Solidarios pediu que uma delas fosse de doações para crianças senegalesas.

- Pedi ajuda à empresa onde trabalho e a amigos e consegui roupas e alimentos - conta o analista de sistemas espanhol.

O camping da região de Badian mantido pela ONG, para onde foi Moleres, tem e um alojamento de turismo de aventura em Senegal Oriental, utilizando os princípios da arquitetura bioclimática e do desenvolvimento sustentável. O trabalho dos turistas visa ajudar a melhorar a saúde no povoado de Bassari, e as condições de um centro educacional na comunidade rural de Tomboronkoto.

Pesquisas de organizações internacionais de intercâmbio mostram que o turismo solidário vem crescendo principalmente entre os jovens.

- As vendas para este tipo de viagem foram tímidas no começo, mas hoje registramos um crescimento de mais de 300% desde o lançamento do programa, há dois anos. Este ano, lançamos o mesmo programa para o Peru e para a Índia - explica Maria José Buarque de Paiva, supervisora regional da CI, central de intercâmbios que também oferece pacotes de trabalho solidário no Rio de Janeiro.

Em fevereiro, a jornalista Thabata da Costa foi à África do Sul pela CI. A ideia era ficar um mês, mas ela se apaixonou pelo projeto: cuidar de macacos no Riverside Wildlife Rehabilitation Centre (www.monkeyrehabilitation.com), na cidade de Letsitele, em Limpopo. Depois de três meses, voltou com saudades.

- Se era para ir, queria fazer direito, nada de luxo. Não me interessaria fazer uma viagem para a África como se fosse para a Disney, só para fingir que estava fazendo alguma coisa pelo mundo - conta.

Thabata também conheceu um grupo de crianças vítimas de abusos que se encontram sob a tutela do Estado, cuja autoestima o projeto ajuda a desenvolver por meio do cuidado com os animais:

- Fiz amizade com uma menina, Page, de apenas 12 anos, que me escreve cartas constantemente.

Jordi Gascón, doutor em Antropologia Social pela Universidade de Barcelona e membro ativo da Acció per un Turisme Responsable, afirma que o turismo solidário nasceu das atividades de ONGs como a dele.

- É direcionada a viagens que asseguram um certo nível de sustentabilidade, gerando benefícios para a população local. Além de permitir que o turista conheça a realidade sociopolítica da região - explica Gascón.

Os destinos mais buscados ainda estão na África, como Marrocos e Senegal, ou na América do Sul. O Brasil também entrou no roteiro, pelo Projeto Bagagem, que começou a oferecer viagens no país a partir de 2004.

- A porcentagem de turistas que buscam esse tipo de turismo ainda é pequena, mas a cada ano são mais os interessados - conta Rebeca Gernán, do Alter Nativas, ONG de Navarra, na Espanha, que faz parte da rede de instituições que apoiam o Projeto Bagagem.

SERVIÇO

A CI também oferece pacotes de turismo solidário à Índia, nos estados de Rajasthan, Himachal Pradesh e Goa, onde o voluntário pode participar de projetos sociais e ambientais que envolvem o cuidado com os animais e o meio ambiente. Tem duração de duas a 12 semanas, com possibilidade de extensão. O trabalho nos projetos envolve dedicação diária do voluntário e as atividades duram de cinco a sete dias por semana, entre quatro e oito horas por dia. Para participar é necessário ter idade mínima de 18 anos e conhecimento de inglês em nível intermediário.

O Projeto Bagagem (www.projetobagagem.org), da ONG Alter Nativas, oferece pacotes na Amazônia Ribeirinha (Santarém, no Pará); Gurupá, no Pará; nos Lençóis Maranhenses (São Luis, MA); em Nova Olinda, no Ceará; Santa Rosa de Lima, em Santa Catarina; e em Paraty (RJ). A Amazônia Ribeirinha, primeiro roteiro do projeto, tem o objetivo de levar um pequeno grupo de turistas a um pedaço da Amazônia paraense a partir da cidade de Santarém, navegando pelos rios Tapajós e Arapiuns e visitando algumas de suas comunidades mais organizadas.

Outra opção no Brasil é a Rede Tucum (www.tucum.org), que inclui destinos de turismo comunitário na costa cearense. Uma opção é a Prainha do Canto Verde, uma das primeiras comunidades que ousou ensaiar este tipo de turismo no mundo; ou o assentamento Coqueirinho, comunidade que desenvolve experiências com hortas orgânicas e sistemas agroflorestais.

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