Um safári na Índia

Um safári na Índia

Atualizado: Quarta-feira, 4 Agosto de 2010 as 3:23

Um rinoceronte-indiano - Rhinoceros unicornis, do tipo que parece ter placas de couraça pregadas na bunda - é tão pesado quanto uma caminhonete. Apenas o rinoceronte-branco africano é ainda maior. E apenas o rinoceronte-de-sumatra (com uma população de 350 espécimes, no máximo) e o de-java (50 ou menos espécimes restantes) estão mais ameaçados de extinção. Antes encontrados desde o Paquistão até Mianmar, o R. unicornis é uma espécie que conta menos de 2,7 mil animais. Um quarto deles está confinado em dez pequenas reservas no norte da Índia e no vizinho Nepal. Todos os outros - cerca de 2 mil na última contagem - vivem no Parque Nacional de Kaziranga, uma reserva de 860 quilômetros quadrados que inclui um trecho de 80 quilômetros do rio Brahmaputra, com suas ilhas de areia, algumas zonas ao norte e uma porção bem maior de planície aluvial ao sul. Excluindo a área do rio, dá uma média de quatro desses animais encouraçados e agressivos para cada quilômetro quadrado do parque.   Há um século, restavam menos de duas centenas deles no estado de Assam, no norte da Índia. As terras de cultivo haviam ocupado quase todos os férteis vales de rios que são essenciais para a espécie, e os sobreviventes sofriam ataques por parte de colecionadores de troféus e caçadores ilegais. Kaziranga foi demarcado em 1908, sobretudo para salvar os rinocerontes. A reserva acabou sendo ampliada, tornou-se parque nacional em 1974 e, em 1985, foi incorporada ao Patrimônio da Humanidade pela Unesco. No fim da década de 1990, teve sua área duplicada (embora até hoje ainda existam pendências jurídicas). Kaziranga é o maior e mais importante refúgio de rinocerontes da Ásia e crucial para reforçar a população de outras reservas - ou seja, o futuro do R. unicornis depende dessa reserva.  

Um estrondoso e bem-sucedido exemplo de conservação, o parque também abriga quase 1,3 mil elefantes-asiáticos; 1,8 mil búfalos-asiáticos, a maior população que ainda resta no mundo; talvez 9 mil veados-porcos-da-índia; 800 barasinghas, ou cervos-do-pantanal-indianos; dezenas de veados-sambar; e centenas de javalis. No total, são milhões de quilos de presas. Mas não se veem lobos perambulando. Os ursos-beiçudos ali residentes se alimentam de cupim e vegetação, ao passo que os leopardos preferem caçar nas matas das encostas circundantes. Quando o veado-porco-da-índia guincha em alarme ou os búfalos giram ao mesmo tempo o corno semicircular na direção de um trecho do prado, talvez o predador que se aproxima tem a pele listrada e alaranjada e as patas grandes como pratos.  

Foi a cauda subitamente erguida dos veados que me colocou na pista certa: era o momento do tigre. Um deles havia adentrado a clareira perto de um lago seco não muito longe de onde eu estava, embora não fosse possível vê-lo. Eu procurava perto do solo. A primeira coisa que avistei foram as pernas. Estava diante de um felino que, com seus 225 quilos e lembrando um incêndio em movimento, avançava sobre o veado mais alto. Em seguida, predador e presa sumiram.  

Devido à caça ilegal e ao desmatamento, assim como ao policiamento ineficaz, os tigres desapareceram da Índia nos últimos 25 anos. No entanto, parecem estar se dando bem em Kaziranga. A estimativa oficial é que vivam por lá de 90 a 100 espécimes, formando aquela que talvez seja a mais densa população desses felinos no mundo.  

O que faz com que esse parque consiga sustentar tantos tigres em área tão modesta? A resposta está no rio. Após nascer nas altitudes do Tibet, o Brahmaputra segue para leste ao longo de 1,1 mil quilômetros, recebendo afluentes do lado norte do Himalaia, antes de inverter a direção de seu curso e prosseguir por mais 800 quilômetros através da Índia e de Bangladesh. Quando a monção de verão provoca chuvas torrenciais em sua bacia hidrográfica, o rio inunda quase todo o vale. E, quando retorna ao leito normal, a planície aluvial é enriquecida de nova camada de sedimentos ricos em nutrientes. Desse terreno enlameado brota uma profusão luxuriante de ciperáceas e outros tipos de relva alta. A especialidade dessas plantas é converter a luz solar em tecidos não lenhosos repletos de amido - ou seja, em imensos campos de nutrientes calóricos, sob a forma de relvados de até 6 metros de altura.  

Quando pensamos em florestas, o que nos ocorre em geral são lugares tropicais de grande biodiversidade e carentes de proteção. No entanto, os hábitats de relva alta em planícies aluviais são ricos em animais nativos de grande porte e bem mais raros. Kaziranga também possui campos de relva baixa, e as multidões de criaturas nessas savanas abertas proporcionam cenas comparáveis às dos mais famosos parques africanos.  

A paisagem é toda pontilhada de canais de esgotamento que viraram lagos rasos, reabastecidos de água e peixes a cada cheia do rio. Aves aquáticas migratórias, desde gansos-indianos até patos-ferrugíneos, afluem para as áreas úmidas de Kaziranga, onde passam o inverno ao lado de pelicanos e jabirus. Enquanto as raras águias-de-pallas agarram presas nas lagoas, ali conhecidas como bils, as lontras, ocupadas em caçar, saltam para fora d’água como golfinhos. Eu avistei até mesmo golfinhos-do-ganges, com 2 metros de comprimento. Ameaçados em quase todo o seu âmbito, esses mamíferos parecem estar se mantendo no trecho do Brahmaputra que atravessa o parque, livres das pressões da pesca.  

Budheswar Konwar, o guia que me acompanha, tem de parar o nosso jipe conversível a fim de remover outra criatura aquática - uma tartaruga -, parada no meio da estradinha em uma tarde escaldante. O resto do grupo desce para esticar as pernas e ver o animal. Quando me viro na direção oposta a ele, vejo algo terrível. "Rinoceronte!", grito. Mais perto que o aconselhável e movendo-se em nossa direção.  

Esses tanques de guerra orgânicos podem arremeter a velocidades superiores a 40 quilômetros por hora. Os visitantes (70 mil indianos e 4 mil estrangeiros por ano) só passeiam pelo parque acompanhados de guardas-florestais armados, e tal exigência não é mera formalidade. Como não há tempo de saltarmos no jipe e fugir de lá, Ajit Hazarika faz um disparo de precaução. O projétil levanta uma nuvem de poeira a centímetros da pata dianteira do animal. Basta para que mude de rumo segundos antes de nos atingir.  

Dez minutos depois estamos atravessando uma área florestada por um caminho de terra elevado quando uma fêmea de rinoceronte, recém-saída de um chafurdeiro, sobe até a trilha, acompanhada do filhote, também enlameado, com dois terços do tamanho da mãe. Um segundo animal adolescente aparece atrás deles. Em seguida, os três somem do outro lado.  

Após esperar um pouco, seguimos adiante e logo notamos que a fêmea vem arremetendo entre as árvores, com a evidente intenção de nos abalroar. Hazarika, sentado ao lado do motorista, nem sequer tem tempo de disparar antes de o animal, ainda reluzente de lama e bem mais pesado que nosso veículo, o atingir lateralmente. Percebo que o rinoceronte está nos empurrando para a borda do caminho e, como o carro agora está apenas sobre duas rodas, é melhor me preparar para saltar antes que capotemos.   Ao contrário dos rinocerontes-africanos, os indianos não estripam suas presas com o corno único que trazem na cabeça. Eles as destroçam com os enormes e afiados incisivos inferiores. E os dentes daquela fêmea já estão abrindo buracos na carroceria metálica do jipe. Maldição!  

Konwar havia me falado de uma regra básica em Kaziranga: "É proibido ter medo". Transgrido logo a regra enquanto ele pisa fundo no acelerador, tentando recuperar a tração. As rodas do veículo voltam ao chão e ele pode se afastar. A fêmea sai correndo atrás de nós, em meio à poeira, ao longo de uma centena de metros.  

Nosso destino é um local no qual rastros de dois tigres haviam sido reconhecidos em volta de uma carcaça recente de rinoceronte. Os tigres abatem até 15% dos filhotes de rinoceronte em Kaziranga. Essa carcaça, porém, revela que também invistam contra os adultos - algo mais arriscado e raras vezes documentado.  

Tal como há um século, contudo, a ameaça mais grave aos rinocerontes ainda vem dos predadores humanos. É por isso que Kaziranga dispõe de quase 600 guardas, impedindo o contato entre animais de grande porte e caçadores. Os oficiais deslocam-se em duplas ou trios, a pé, no dorso de elefantes ou em barcos. As patrulhas vespertinas só retornam à noite. No dia seguinte, os guardas despertam para outra incursão bem antes de clarear, sempre fazendo uma pausa prévia diante de um modesto altar, a fim de pedir a proteção da deusa Kakoma. Em épocas de lua cheia, as equipes ficam fora a noite toda.  

É um trabalho sem fim. Aqueles que são presos pescando nos rios ou nas bils são multados e têm suas redes confiscadas. Os rebanhos que pastam no interior do parque precisam ser conduzidos de volta aos vilarejos. E, com frequência ainda maior, os guardas costumam ser chamados para capturar animais selvagens nos povoados e nos campos adjacentes e levá-los à reserva.  

Todas essas são tarefas rotineiras se comparadas com o combate aos caçadores dispostos a abater rinocerontes. Seu corno - composto de fibras aglutinadas de queratina, a mesma substância de suas patas e pelo - é apreciado como cabo de adaga no Oriente Médio e valorizado em toda a Ásia por supostas virtudes medicinais. Como um único corno vale mais de 30 000 dólares no mercado negro, essa é uma mercadoria letal.  

Entre 1985 e 2005, caçadores abateram 447 rinocerontes, assim como vários guardas no Kaziranga; já os policiais mataram 90 invasores e prenderam outros 663. A quantidade de rinocerontes abatidos caiu para menos de nove a partir de 1998 - mas aí, em 2007, subiu para 18 espécimes. Na quinta semana de 2008, quando lá cheguei, cinco outros haviam sido eliminados.  

Uma série de prisões amainou a onda de mortes de rinocerontes, mas, a julgar pela experiência passada, cedo ou tarde os criminosos reaparecerão. Há, contudo, outro problema grave no parque - e ele não pode ser resolvido por ninguém.  

Para manutenção da fauna silvestre espetacular, Kaziranga depende do que se passa em uma área bem mais ampla. Nas épocas de grandes cheias, quando a terra desaparece sob as águas pardacentas do Brahmaputra, os animais são forçados a sair da reserva. Hoje, contudo, em todos os lugares de refúgio, eles deparam com o incessante avanço da ocupação humana. Até chegar à borda sul do parque, uma pessoa pode se perder no alto relvado do Kaziranga, mas logo em seguida vai topar com porcos, cães, galinhas, cabras, e quilômetros e quilômetros de arrozais. Um pouco adiante, essa pessoa poderia chegar a um abrigo onde uma vaca agoniza e perde sangue por causa da mordida de um tigre em seu pescoço, e ficar sabendo por sua dona, Nijara Nath, como ela viu à noite o felino já no curral ao lado da casa. Na época da colheita, seu marido passa as noites à beira das plantações, tentando espantar os animais vegetarianos, de veados a rinocerontes, que abrem buracos no arrozal a cada passada.  

A ocupação humana é ainda mais densa além dos limites setentrionais do parque. Do alto da torre de um dos postos de guarda consigo ver apenas animais domesticados - rebanhos de búfalas e vacas - se alimentando nos terrenos úmidos do interior da reserva. Como os rebanhos já pastavam ali antes de a área ser incorporada à reserva, na década de 1990, as autoridades permitiram que a prática continuasse. Mas é nessa região que se registram mais problemas com elefantes de quase todo o estado de Assam, pois está na rota de migração das manadas, que seguem pelos últimos resquícios de floresta entre o Kaziranga e o sopé do Himalaia mais ao norte.  

Na época das cheias, os animais também migram para o sul, na direção dos montes Karbi. Pequenos mas vitais, cinco corredores de hábitat foram acrescentados ao parque para facilitar essa jornada. Ao longo do caminho, porém, os animais têm de cruzar a rodovia nacional NH37, em Assam. Por isso, os guardas são obrigados a instalar barreiras na estrada para que os caminhões reduzam a velocidade nos pontos de travessia mais usados pelos animais. Mesmo assim, todos os anos, elefantes, rinocerontes, pítons e veados em migração acabam sendo atropelados. E uma proposta de ampliar para quatro o número de pistas da rodovia vem deixando os conservacionistas indianos ainda mais preocupados.  

"Se a rodovia NH37 virar autoestrada, será o fim do Kaziranga", diz Asad Rahmani, diretor da Sociedade de História Natural de Bombaim. As autoridades já estudam o cancelamento da ampliação da rodovia. Em vez disso, seria reformada uma estrada paralela, ao norte do rio. "Também precisamos controlar a ocupação humana em outros pontos", prossegue ele. "O governo deveria adquirir terras para a criação de mais corredores antes que o Kaziranga fique isolado."  

Mesmo que os corredores para os montes Karbi sejam reforçados, como fica a proteção dos próprios montes? E dos contrafortes do Himalaia? A cada ano, madeireiros, exploradores de pedreiras e posseiros avançam, transformando uma cobertura arbórea contínua em um mosaico de encostas desmatadas e erodidas. Uma boa notícia é que o governo indiano criou uma reserva de elefantes, a Kaziranga-Karbi Anglong, que se estende bastante ao sul, assim como a Reserva de Tigres de Kaziranga, que avança muitos quilômetros ao norte. Todavia, elas não passam ainda de linhas traçadas em um mapa, e os trechos fora do parque continuam a ser cada vez mais ocupados por gente desesperada por terra.  

O desafio é interligar os trechos de mata que restam. Se os obstáculos parecem insuperáveis, basta pensar nos dedicados guardas-florestais em seus postos solitários e na regra mencionada por Budheswar Konwar para o território dos rinocerontes. Lembra-se? "É proibido ter medo."   Postado por: Cristiano Bitencourt  

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