Uma criminosa injustiça agravada pela omissão da Anac

Uma criminosa injustiça agravada pela omissão da Anac

Atualizado: Quarta-feira, 9 Fevereiro de 2011 as 1:53

A omissão da Agência Nacional de Aviação no episódio de uma lista que incluiu as principais companhias aéreas brasileiras no ranking das mais inseguras do mundo é assustadora. A lista surgiu a partir de um site primário de uma ONG alemã, a Jacdec - Jet Airliner Crash Data Evaluation Centre, criada em 1989 para reunir dados dos acidentes da aviação comercial. Quem acessar o site (http://www.jacdec.de) verá o primarismo deste trabalho, que mais parece fruto de um um grupo de nerds aficcionados por aviação sem nenhum embasamento científico e governamental. Coletam dados, formam uma tabela, vendem publicações e como sede um endereço residencial em Hamburgo, com um conjunto de prédios de tijolinhos vermelhos e varandinhas. Tudo que fazem é via web em um site construído de forma amadora e sem nenhum credibilidade.

Sabem o que a grande imprensa - e entre elas veículos como a revista Exame e o jornal O Estado de S. Paulo - fez? Elevou a Jacdec ao status de instituição alemã e ligaram o ventilador, considerando a TAM e a Gol as empresas aéreas mais inseguras do mundo! No dia 27 de janeiro, o site da revista Exame, que por ser da Abril é dirigida a formadores de opinião, publicou a seguinte manchete : “TAM e Gol são as últimas em ranking mundial de segurança aérea”. Isso publicado pela mais importante revista de economia do Brasil tem outro peso. Só que ninguém teve o cuidado ou a responsabilidade de apurar o histórico da fonte e a amadora metodologia usada na pesquisa.

Aceita-se como verdade tudo que vem do exterior, ou seja, o nosso complexo vira-lata leva o brasileiro a endeusar tudo que vem lá de fora. Como se nos outros países não tivessem picaretas e pessoas com parafusos soltos na cabeça. Neste caso, a TAM e a Gol estão sendo vítimas de uma criminosa injustiça.

No mundo do online, uma notícia como esta, com o aval de sites da importância da Exame, Estadão, IG, UOL e outros, tem desdobramentos nefastos. O quadro fica pior quando a nota é distribuída por agências noticiosas para jornais regionais de todo o país. É só pesquisar no Google para ver o estrago que foi feito.

Além de não ser uma instituição e apenas uma ONG doméstica, com dois dirigentes, sem sede comercial e atuar no mundo virtual de forma amadora, este clube de nerds fez a sua lista apenas tabelando a idade média das companhias, passageiros transportados e o número de vítimas, sem considerar a causa dos acidentes e nem os programas de manutenção das companhias aéreas, além, é claro, das certificações nacionais e internacionais de cada uma.

Em um país em que parte da mídia cada vez mais fala bobagens sobre aviação comercial e que as sandices são alimentadas pela própria agência regulamentadora, o quadro não poderia ser diferente. A Anac não mexeu uma palha para defender as companhias nacionais e a si própria, já que cabe à ela a fiscalização dos programas de manutenção e seguranças das empresas aéreas.

Parte da mídia e a própria agência parecem fazer um duo de lira assistindo o circo pegar fogo. Quanto mais enfraquecer a imagem das companhias aéreas, mais fortalecida estará a Dra Solange Vieira a neofita presidente da agência. Desta forma, a Anac poderá empurrar a conta da sua incompetência para as empresas aéreas.

A TAM e a Gol foram colocadas nesta lista por contas de duas fatalidades. O avião da Gol foi simplesmente derrubado por outro e o da TAM vítima de um erro humano, de procedimento do próprio fabricante do avião. As duas seguem um rigoroso programa de segurança e possuem os seus próprios centros de manutenção. Chegam a prestar serviços para terceiros.

O programa de manutenção e segurança de voo das duas empresas estão entre os melhores do mundo e a questão segurança é um ativo inquestionável destas duas empresas. Ambas realizam pesados investimentos nesta área.

Em um caso como este, além do próprio Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea), caberia à Anac rebater com veemência esta infundada classificação e de esclarecer a opinião pública. SEGURANÇA, em aviação, é escrito desta forma, em caixa alta. É o item fundamental deste negócio. Por que a Anac se manteve em silêncio? Por que a Anac não saiu em defesa das empresas nacionais e da aviação comercial que se pratica no Brasil? Por que a Anac não orientou a mídia quanto à falta de embasamento científico deste estudo e fez o contraponto?

A Dra. Solange Vieira, como presidente da Agência, perdeu uma grande oportunidade para defender a aviação nacional. Aliás, nacionalismo é uma palavra que deve ter sido deletada do seu dicionário há muito tempo. Nesta fase final do seu mandato, não importa a ela se a sociedade civil passar a ter uma imagem errada da aviação comercial brasileira. Este problema nunca foi dela antes e a partir de março deixará de ser por completo.

A pomposa e fantasiosa Jet Airliner Crash Data Evaluation Centre achou um terreno fértil para a sua peça de ficção. Já a TAM e a Gol, que juntas representam mais de 80% da aviação comercial brasileira, não tiveram por parte da nossa autoridade um único esboço de defesa. Mas ainda existe tempo, o corpo funcional da Anac sairá chamuscado deste episódio. O lado do bem dentro da agência precisa reagir até para corrigir a canoa furada que parte da grande mídia embarcou.

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