Uruguai de carro: Conexão direta

Uruguai de carro: Conexão direta

Atualizado: Quinta-feira, 4 Agosto de 2011 as 11:17

Sem se preocupar em desviar o olho da cuia de mate, o agente alfandegário de Chuí perguntou: "Grêmio ou Inter?" Sentado em um banquinho de madeira carcomida, ele talvez continuasse sem mexer músculo algum do corpo (exceto aqueles usados no ato de verter água quente da garrafa térmica para dentro da cuia) se, no meu lugar, estivesse Osama bin Laden. A cuia era decorada com uma bandeira do Uruguai. Dado o consumo de mate no país, não consigo imaginar suporte melhor para aquelas listras azuis e o solzinho simpático no canto esquerdo.

A continuação desse diálogo, no qual consegui demonstrar ao meganha minha simpatia pelo futebol uruguaio, vou deixar para depois. Afinal, estou contando essa história do fim para o começo. É que atravessar a fronteira sacando um sorriso de um policial - seja ele de que nacionalidade for - é um presságio auspicioso para qualquer viagem. Mas minha entrada no Uruguai 15 dias antes, via BR-116 e Jaguarão, havia sido, para ser sucinto, normal.

Com menos de 200 mil quilômetros quadrados de extensão territorial - 60% da área do Rio Grande do Sul -, o Uruguai presta-se muito bem a ser conhecido em uma viagem de carro. Suas estradas são bem conservadas, há boa estrutura turística e as distâncias são irrelevantes. E o paisito também acorda para o turismo. Em 2010, recebeu 2,4 milhões de visitantes, 400 mil deles brasileiros. Hotéis novos, de bandeiras internacionais, começam a pipocar na paisagem, e não só em Punta del Este. De Chuí tomei a Estrada 26 para Tacuarembó, minha primeira parada, 260 quilômetros e três horas depois. O caminho tinha pampa e vaquinhas, vaquinhas e pampa e, desconfio, beirava o tempo todo a estância do Brizola. Fiquei tão familiarizado com o cenário que poderia desenhar, de olhos fechados, o rótulo do dulce de leche mais famoso, o Conaprole. Vaquinhas. O campo.

Vaquinhas. Tacuarembó surgiu para o mundo com a morte de seu (suposto) filho mais célebre, o cantor de tango Carlos Gardel, que, em uma de suas frases sobre o misterioso tema de sua origem, teria dito: "Nasci com 2 anos e meio em Buenos Aires".

Além de promover Gardel (ou promover-se com Gardel), Tacuarembó se diz uma das capitais da cultura gaucha. Todo mês de março essa afinidade é exaltada no Festival Patria Gaucha. Seu Museo del Índio y del Gaucho tem peças arqueológicas e, para explicitar a tal cultura, um acervo de boleadeiras, aquele instrumento usado para laçar gado pelas patas e para assustar os comensais nos shows folclóricos das churrascarias rodízio. O Museo Gardel fica afastado da cidade, a 21 quilômetros, em Valle Edén. Os experts dizem que Gardel nasceu em Toulouse, na França, mas guarde essa informação para você. Tacuarembó teria entrado na equação justamente no dia do acidente aéreo que vitimou Gardel, na Colômbia, em 1935. Junto ao corpo foi encontrado um documento que ligava o cantor à cidade. No acervo do museu, jornais, fotografias, letras de tango. Só não estão lá as camisas do Tacuarembó Fútbol Club com sua imagem, que vi nas ruas. O museu em si vale pelo folclore, mas melhor que visitá-lo é encontrar algum fã do cantor pelas ruas e dele ouvir histórias. Em Tacuarembó, saber da vida de Gardel é como saber da vida do vizinho.

Mais vacas e mais pasto nos 230 quilômetros entre Tacuarembó e Paysandú. No trajeto não vi mais que três postos de gasolina. Também são poucos os paradores (restaurantes de beira de estrada). Ao volante, agora já era eu quem vertia água quente na cuia - a minha. Algo bastante desaconselhável para o Brasil, onde não há o costume, claro, e as estradas não são como as uruguaias, sem buracos ou carros no contrafluxo. Parei em Paysandú para comer umas empanadas e segui mais 130 quilômetros até Mercedes. O cenário? Adivinha. Aumentava minha surpresa com a quantidade incrível de vacas que há no país. Três por habitante. Voltemos à parada. Mercedes, uma cidade com nome de mulher, tem belezas femininas: a avenida que beira o Rio Negro, a praça central, a Isla del Puerto, a basílica, a pinacoteca. Sem contar as áreas verdes.

E então, 180 quilômetros depois, cheguei a Paraty. Ou à Paraty dos uruguaios. Sem se preocupar em desviar o olho da cuia de mate, o agente alfandegário de Chuí perguntou: "Grêmio ou Inter?" Sentado em um banquinho de madeira carcomida, ele talvez continuasse sem mexer músculo algum do corpo (exceto aqueles usados no ato de verter água quente da garrafa térmica para dentro da cuia) se, no meu lugar, estivesse Osama bin Laden. A cuia era decorada com uma bandeira do Uruguai. Dado o consumo de mate no país, não consigo imaginar suporte melhor para aquelas listras azuis e o solzinho simpático no canto esquerdo.

A continuação desse diálogo, no qual consegui demonstrar ao meganha minha simpatia pelo futebol uruguaio, vou deixar para depois. Afinal, estou contando essa história do fim para o começo. É que atravessar a fronteira sacando um sorriso de um policial - seja ele de que nacionalidade for - é um presságio auspicioso para qualquer viagem. Mas minha entrada no Uruguai 15 dias antes, via BR-116 e Jaguarão, havia sido, para ser sucinto, normal.

Com menos de 200 mil quilômetros quadrados de extensão territorial - 60% da área do Rio Grande do Sul -, o Uruguai presta-se muito bem a ser conhecido em uma viagem de carro. Suas estradas são bem conservadas, há boa estrutura turística e as distâncias são irrelevantes. E o paisito também acorda para o turismo. Em 2010, recebeu 2,4 milhões de visitantes, 400 mil deles brasileiros. Hotéis novos, de bandeiras internacionais, começam a pipocar na paisagem, e não só em Punta del Este. De Chuí tomei a Estrada 26 para Tacuarembó, minha primeira parada, 260 quilômetros e três horas depois. O caminho tinha pampa e vaquinhas, vaquinhas e pampa e, desconfio, beirava o tempo todo a estância do Brizola. Fiquei tão familiarizado com o cenário que poderia desenhar, de olhos fechados, o rótulo do dulce de leche mais famoso, o Conaprole. Vaquinhas. O campo. Vaquinhas. Tacuarembó surgiu para o mundo com a morte de seu (suposto) filho mais célebre, o cantor de tango Carlos Gardel, que, em uma de suas frases sobre o misterioso tema de sua origem, teria dito: "Nasci com 2 anos e meio em Buenos Aires".

Além de promover Gardel (ou promover-se com Gardel), Tacuarembó se diz uma das capitais da cultura gaucha. Todo mês de março essa afinidade é exaltada no Festival Patria Gaucha. Seu Museo del Índio y del Gaucho tem peças arqueológicas e, para explicitar a tal cultura, um acervo de boleadeiras, aquele instrumento usado para laçar gado pelas patas e para assustar os comensais nos shows folclóricos das churrascarias rodízio. O Museo Gardel fica afastado da cidade, a 21 quilômetros, em Valle Edén. Os experts dizem que Gardel nasceu em Toulouse, na França, mas guarde essa informação para você. Tacuarembó teria entrado na equação justamente no dia do acidente aéreo que vitimou Gardel, na Colômbia, em 1935. Junto ao corpo foi encontrado um documento que ligava o cantor à cidade. No acervo do museu, jornais, fotografias, letras de tango. Só não estão lá as camisas do Tacuarembó Fútbol Club com sua imagem, que vi nas ruas. O museu em si vale pelo folclore, mas melhor que visitá-lo é encontrar algum fã do cantor pelas ruas e dele ouvir histórias. Em Tacuarembó, saber da vida de Gardel é como saber da vida do vizinho.

Mais vacas e mais pasto nos 230 quilômetros entre Tacuarembó e Paysandú. No trajeto não vi mais que três postos de gasolina. Também são poucos os paradores (restaurantes de beira de estrada). Ao volante, agora já era eu quem vertia água quente na cuia - a minha. Algo bastante desaconselhável para o Brasil, onde não há o costume, claro, e as estradas não são como as uruguaias, sem buracos ou carros no contrafluxo. Parei em Paysandú para comer umas empanadas e segui mais 130 quilômetros até Mercedes. O cenário? Adivinha. Aumentava minha surpresa com a quantidade incrível de vacas que há no país.

Três por habitante. Voltemos à parada. Mercedes, uma cidade com nome de mulher, tem belezas femininas: a avenida que beira o Rio Negro, a praça central, a Isla del Puerto, a basílica, a pinacoteca. Sem contar as áreas verdes.

E então, 180 quilômetros depois, cheguei a Paraty. Ou à Paraty dos uruguaios. E, posso dizer?, praia de uruguaio é outra conversa. Não há música estridente - que digo? -,não se ouve absolutamente música na areia. Nem mesmo se vê o churrasco nosso de cada dia, que fica guardado para o quintal das casas. A praia é mais como uma praça. É onde as pessoas se encontram para ver, tomar mate, claro, e ver a vida passar. Se for a Punta Colorada, não deixe de passar por Punta Ballena.

Além da vista incrível que se tem, com o skyline de Punta del Este de um lado, é o lugar em que fica o Hotel Club Casapueblo, aquela mansão caiada de branco que é postal uruguaio. Originalmente residência do pintor Carlos Páez Vilaró, hoje também funciona como galeria de arte e hotel. Vilaró vive lá e congraça diariamente com os hóspedes.

Já no caminho de volta ao Rio Grande do Sul, a 140 quilômetros de Punta del Este está o que foi a melhor parada da minha viagem, Cabo Polonio. Sem luz, sem acesso a carros convencionais, no meio das dunas, lembra Jeri antes da energia elétrica.

Em vez dos hippies e dos porcos de antigamente, artesãos e uma colônia de lobos-marinhos. Para chegar, é preciso deixar a Ruta 10 no quilômetro 264,5 e tomar um caminhão adaptado. Largue o carro sem medo (e sem pagar pelo estacionamento, que não existe). Cabo Polonio não é muito mais que uma ponta rochosa incrustada no meio de uma longa faixa de dunas. Ao lado do farol fica a reserva de lobos-marinhos. Vi dezenas deles. Todos sociais, preguiçosos e irritadiços, ficavam largadões ao sol e, às vezes, puxavam umas brigas.

Tudo isso a 100 quilômetros de Chuí, onde o agente perguntaria se eu era tricolor ou colorado. Disse a ele que era carbonero, a maneira in de dizer que torcia pelo Peñarol, o negro y amarillo, o time mais vencedor do Uruguai (não o mais popular, que é o Nacional), onde jogaram Obdulio Varela, o negro jefe, Pedro Rocha e também Diego "Fiera" Aguirre.

Na cena seguinte, era o policial que sorria para mim. E, depois de remexer em seus pertences, dava-me de presente um adesivinho do Peñarol. "Ponha isso no vidro do seu carro e você não terá problema com os policiais uruguaios", disse. "Só com os do Nacional, mas esses não contam."

Poderia ter ficado por ali mais algumas horas, charlando y mateando, relutando em deixar o Uruguai. Mas um pôr do sol no Guaíba me esperava.    

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