US$ 100 o fim de semana em Istambul

US$ 100 o fim de semana em Istambul

Atualizado: Terça-feira, 2 Agosto de 2011 as 11:22

Normalmente adoro estar onde a ação está, mas há exceções. Esperar uma balsa para as ilhas gregas justamente quando os trabalhadores do porto entram em greve é exatamente igual a ficar em um albergue da juventude durante a Convenção Mundial de Roncadores.

A greve no porto foi a razão para eu descartar a Grécia e viajar da Albânia para Istambul na semana passada. Por viajar, quero dizer que passei 48 horas em e esperando ônibus, mal conseguindo chegar a Istambul a tempo para uma das minhas atividades favoritas: o fim de semana de US$ 100.

Sim, o fim de semana de US$ 100, durante o qual, mediante prestidigitação, espanto o mundo me divertindo em uma cidade importante por uma quantia em dinheiro despropositadamente pequena. Após fazer isso em Nova York, Paris e Rio de Janeiro, tenho de confessar: sou apenas um ilusionista. As metrópoles cosmopolitas não são os lugares mais difíceis para se viver de modo barato durante uma semana: na verdade, podem ser os mais fáceis.

Istambul, como aquelas outras cidades, é teoricamente um lugar caro, onde uma única refeição, ou mesmo táxis para e do aeroporto, podem lhe custar US$ 100. Mas todas essas cidades têm comida barata em abundância e cultura gratuita que é sua em troca de pesquisar no Google; elas também são cobertas por transporte público e imprevisíveis o bastante para tornar surpresas deliciosas quase inevitáveis. Como você mata duas horas em Istambul sem gastar uma moeda? Entre acidentalmente num festival de música senegalesa bem no coração de Sultanahmet, com a Mesquita Azul como pano de fundo.

O orçamento de US$ 100 não responde pela moradia, mas tento permanecer no espírito encontrando um lugar para ficar de graça. Dessa vez, usei o CouchSurfing, um site no qual os membros postam perfis detalhados e pedem a outros membros para ficar em suas casas. Conseguir um lugar pode ser desafiador (embora eu suspeite que seja mais fácil se você for uma simpática garota de 23 anos de algum lugar como a Ucrânia ou Hong Kong), mas fui bem-sucedido, recebendo o sinal de positivo de Erol Fazlioglu, engenheiro autônomo que ficou encantado com o fato de que nós dois memorizamos as capitais do mundo quando éramos crianças, algo que havia colocado em meu perfil. Ele ofereceu um colchão de ar em um dormitório vago em seu apartamento em Kadikoy, no lado asiático da cidade.

Erol e eu passamos quase todo o fim de semana juntos. Testamos as capitais um do outro, claro, mas no geral pedi a ele para decodificar a misteriosa mistura de vida muçulmana e secular da cidade. Erol (agnóstico de família muçulmana) gostava de apimentar suas respostas cantando alto 'Tradition’ com sua melhor voz de Tevye em 'Um Violinista no Telhado’. (Uma revelação: Erol descobriu online que eu era jornalista de viagens.

Talvez eu esteja sendo ingênuo, mas acho que ele teria me tratado do mesmo jeito se eu não fosse, por três razões: a gente realmente se deu bem, ele era naturalmente hospitaleiro e não tinha planos para o fim de semana).

Sexta-feira Com apenas US$ 100, ou 160 liras turcas, para gastar de sexta-feira à tarde até domingo à tarde, o primeiro item da pauta foi carregar crédito em um Akbil, o passe de transporte público que parece uma colher com sabor de sorvete com disco de metal na ponta e funciona suavemente nos sistemas de balsa, ônibus, bonde e metrô de Istambul, distribuindo descontos.

Após atravessar para o lado europeu em uma das frequentes balsas (1,65 lira ou US$ 1), nossa primeira parada foi na outrora turbulenta região de Tophane, onde uma cena artística se desenvolveu recentemente. As galerias são museus de viajantes frugais: não só são quase grátis e quase nunca emboloradas, mas também proporcionam insights da cena artística local que de outro modo exigiriam muita bisbilhotice em cafés da moda. (Sem mencionar aprender turco).

Em nossa primeira parada, Depo, dois filmes do artista norueguês Knut Asdam estavam em destaque. Eu nunca ouvira falar nele, mas tive vontade de dar um tempo ali para ver os filmes. (Tentávamos alcançar tantas galerias quantas podíamos antes que fechassem, às 19 horas). Nossa segunda parada foi minha favorita, Non, nem tanto pela mostras, mas pelas escadas minimalistas do espaço de múltiplos andares, penduradas no teto com cabos tipo ponte suspensa; as escadas pareciam pontes de corda contemporâneas sem nenhum balanço. Legal. A próxima foi Daire, onde o artista turco Ceylan Ozturk criou obras impressionantes com palavras ou expressões únicas. Erol estava encantado. Quando visito esse tipo de lugar, lamento não ser um artista, disse ele.

Até agora, tudo grátis. Tínhamos de comer, claro, e meu plano principal para a noite era eliminar o célebre palácio de baclava, Gulluoglu, da minha lista. Não vou além de simplesmente devorar doces para o jantar, mas para criar a ilusão de normalidade, paramos para um lahmacun de 2 liras (US$ 1,25), uma pizza de carne picada feita sob medida. Então chegou a hora da doce e viscosa massa com nozes ou pistaches que o Gulluoglu tinha em incontáveis variedades, cada uma de aparência mais deliciosa que a outra.

Não tenho ideia se esse lugar tem a melhor baclava de Istambul, mas ficaria feliz em morrer tentando descobrir. Com chá, custou-nos 5,50 liras (US$ 3) cada.

De lá, partimos para o bairro da cidade onde se vê e se é visto e onde se passeia e se bebe, concentrado em torno da rua Istiklal. Uma amiga me dissera onde eu poderia encontrar o melhor café de Istambul (caminhe até o Barcelona Café e desça a viela), mas ela não sabia o nome do lugar. Quando Erol ouviu as instruções, ele soube: Mandabatmaz. Lá, Cemil Pilik, homem grisalho e ligeiramente curvado, com nariz proeminente e o contorno do couro cabeludo bem menos proeminente, coloca com a colher a borra fina do café turco em um pequeno pote com a quantidade solicitada de açúcar (significa ligeiramente adoçado) e faz sua mágica sobre uma chama azul. Os assentos ficam na viela. O café custa 3 liras (US$ 1,90).

De lá, fomos para a vizinha rua Nevizade, tão apinhada de bares que escolher um parece um exercício de aleatoriedade. Mas Erol tinha um favorito, então nos apertamos em uma mesa na calçada, no Kameriye, onde ficamos tão maravilhados com a cena (OK, e com uma mesa com cinco mulheres no bar do outro lado da rua) que o que deveria ter sido uma cerveja de 7 liras (US$ 4,40) se transformou em duas e então três. Após um lanche tardio e uma van compartilhada a 6,50 liras (US$ 4) de volta a Kadikoy, eu havia gasto 60,95 liras, ou US$ 38.

Sábado Não me ocorreu até sábado – dia da atração turística – que poderia ter havido algumas vantagens em ter um muçulmano praticante, em vez do agnóstico Erol, como meu anfitrião. Por exemplo, Erol e eu chegamos à célebre Mesquita Azul e a encontramos acabando de fechar para a prece. Voltamos mais tarde naquela tarde, apenas a tempo da próxima prece e acabamos perdendo tempo durante 45 minutos, esperando que terminasse. Ô, Erol, presta atenção nessas coisas. Ora, você espera que eu procure os horários das preces online? Preenchemos o tempo intermediário em parte com uma viagem ao Grand Bazaar que, congestionado de infindáveis ruas cobertas com lojas de joias, tapetes e suvenires, realmente não me seduziu. “Exceto o antigo telhado”, eu disse a Erol, “isso não parece um bazar. Parece um shopping”.

“Eles não tinham shoppings no século 15”, ele respondeu. Touché. Contudo, é a mesma ideia e estar em um shopping sem dinheiro não tem graça.

A tarde rapidamente ficou melhor quando encontramos Ansel Mullins, um criador do localmente famoso blog Istanbul Eats, o qual havia oferecido me apresentar a uma área da cidade onde os restaurantes eram especializados em pratos da província de Sanliurfa, perto da fronteira com a Síria. Então ele me enrolou e me levou para um périplo de três refeições em três restaurantes, todos no mesmo quarteirão. Tomamos uma apimentada sopa de pescoço de ovelha chamada beyran no Ehli Kebap; comemos um lahmacun (aquela pizza de carne picada) servido com folhas de salsa fresca no Beyzade; e kebabs de cordeiro úmidos, um com berinjela e um com pistaches, no Urfali Haci Usta. Minha parte foi 28 liras (US$ 17,50), e comi o bastante para dois. Dois elefantes.

Nossa última parada no lado europeu, onde a maioria dos turistas passam o tempo, foi não planejada, já que entramos bruscamente em um festival senegalês no Sultanahmet Amphitheater, um evento de rock que me lembrou do Summerstage, em Nova York. Um turbulento e talentoso cantor senegalês apresentado como Salaam tinha o que parecia ser uma população local de imigrantes do oeste da África pirando por música de casa, e o público local tentando de modo um tanto infeliz entrar no ritmo e no espírito.

Então voltamos para o lado asiático para uma noite relaxante e bem barata: café em um café ao ar livre sobre a água, uma casquinha da querida sorveteria Ali Usta, e um drink (uma dose dupla de raki com aroma de anis por 10 liras ou US$ 6,25) no aconchegante jardim traseiro do bar Lal, na Kadife, uma rua de poços elegantes na seção Moda do Kadikoy.

Total gasto até sábado à noite: 125,35 liras ou US$ 77,93.

Domingo Eu havia reservado o domingo para um dia no museu, mas acabou se revelando um dia de pensar sobre museus. Pensei no aclamado Museu de Arte Moderna de Istambul (14 liras, ou US$ 8,70), enquanto Erol e eu atravessávamos de bicicleta o adorável parque na orla perto de seu apartamento na manhã de domingo (junto com metade do resto de Istambul, parecia), e pensei no célebre Museu Arqueológico de Istambul (10 liras, US$ 6,25), enquanto comíamos um sanduíche de peixe por 3 liras (US$ 1,90) mais tarde. Mas esses planos mudaram quando, na noite anterior, descobri online que os banhos turcos, fora do meu alcance no lado europeu ostensivamente turístico, na verdade eram acessíveis se eu ficasse no lado asiático. Museus existem em toda parte, mas aqui estava uma chance de pegar um banho turco no lado asiático. Então Erol e eu nos dirigimos a Carsi Hamami, um banho da região bem perto da parada da balsa no lado asiático. A taxa de entrada são 15 liras (US$ 9.40), e são 5 liras cada para a esfregação (que remove uma quantidade repugnante de pele morta) e a massagem (que era medíocre, mas por US$ 3, quem se queixava?).

Saí com 1 lira para poupar e percebi que ainda tinha que experimentar um simit, o pão com crosta de gergelim em forma de anel que é ubíquo e superbarato em toda a cidade. (Você poderia passar um fim de semana por US$ 10 se vivesse dele exclusivamente). Com minhas moedas finais, comprei dois.

Erol e eu fomos para casa, derretemos queijo sobre eles e bastante literalmente torramos nossas façanhas enquanto continuávamos a apimentar um ao outro com trivialidades de capital mundial.

Total gasto: 160,10 liras, ou US$ 99,54.

Se você for Fiz a pior rota possível para Istambul: um ônibus da Albânia, passando pela Grécia, onde enormes greves deixaram o trânsito lento na fronteira e me fizeram perder minha conexão em Tessalônica. Pode-se chegar a Istambul de modo muito, muito mais fácil de avião. Ficar em Kadikoy, no lado asiático, é simples e econômico. A viagem de barco a todas as atrações no lado europeu é tranquila, mal custa um dólar e é tão cênica que até os viajantes locais ficam tirando instantâneos o tempo todo. Encontrar um lugar grátis no CouchSurfing é um pouco mais complicado: você precisa desenvolver um perfil, conseguir amigos que te recomendem e ter sua identidade verificada, então um lugar nunca está garantido.

Minhas contas O fim de semana por US$ 100 diz tudo, embora eu realmente tenha esbanjado 80 euros em uma série de viagens de ônibus da Albânia até Istambul. Ficar com Erol durante o fim de semana (e dormir em um ônibus na quinta-feira) significaram grandes economias. Gastei um total de 296,64 euros. Finalmente no azul!

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