Vale de Kabak, um dos cantos mais intocados do mundo

Vale de Kabak, um dos cantos mais intocados do mundo

Atualizado: Segunda-feira, 30 Agosto de 2010 as 12:44

Para encontrar o Vale de Kabak, dirija no sentido leste ao longo da costa mediterrânea da Turquia. Estacione seu carro quando acaba o pavimento e caminhe (ou pegue carona em um caminhão) até um portal para outra dimensão.

O Vale de Kabak fica ao longo da Via Lícia, uma trilha de caminhada de mais de 480 quilômetros que serpenteia ao longo de uma parte da costa da Turquia que já foi a Lícia, um importante posto avançado do Império Romano.

As montanhas escarpadas que abraçam a costa há muito atraem os turistas, muitos deles britânicos, para o que as operadoras de turismo chamam de Costa Turquesa. Voos fretados depositam os buscadores de sol no Aeroporto de Dalaman aos montes, os encaminhando para as praias de balneários como Marmaris e Oludeniz, onde a pronta disponibilidade de um café da manhã inglês completo e uma abundância de cadeiras de praia continua os atraindo.

Por esses motivos, este parecia um local improvável para encontrar o tipo de solidão que geralmente procuramos nas férias. Mas a combinação de montanhas e mar, especialmente desse azul mediterrâneo, tinha seu próprio atrativo. Após um pouco de procura insatisfeita, nós nos deparamos com o terreno tranquilo de Kabak.

O vale tem sido um favorito escondido de caminhantes pela Via Lícia desde que a trilha, partes da qual datam de milhares de anos atrás, ganhou popularidade no final dos anos 90. Chegando aqui, é possível entender por quê. Na estrada principal, placas apontam para uma trilha de terra que passa por uma mata fechada de pinheiros na direção do mar cintilante.

Nos últimos dois anos, chegar a Kabak tem sido mais fácil, com uma estrada que leva ao vale e vários estabelecimentos novos e cada vez mais opulentos, trazendo um toque de luxo ao que poderia ser uma zona exclusiva de mochileiros. Nós chegamos do modo fácil, em um pequeno sedã Hyundai branco que alugamos no Aeroporto de Dalaman. Mas o carro não conseguiria passar pela estrada de terra, então ligamos para Shambala e eles foram gentis o bastante para nos pegarem em um veículo 4X4 e nos conduzirem pela outra metade do vale até seu resort.

Bastou uma única vista de nosso quarto, um bangalô de madeira e vidro que flutuava no paredão do penhasco, para eu entender toda a conversa espiritual. O Vale de Kabak é uma área de natureza selvagem deslumbrante e remota.

Altindal e seu marido, Hulki Altug, construíram Shambala há três anos para escapar de sua vida agitada em Istambul. "Quando começamos a construir este lugar, era algo apenas para nós e nossos amigos", ela disse.

Eles o batizaram com o nome da cidade mítica himalaica de Shambala. Segundo a tradição do budismo tibetano, ela era uma cidade mágica escondida no alto das montanhas onde todo mundo tinha atingido a iluminação.

"Nós queríamos criar nossa própria versão aqui", disse Altindal.

As pessoas em Shambala (theshambala.com) têm todo tipo de explicações para o Vale de Kabak ser tão especial. Este é um dos únicos três lugares que não congelaram na última era glacial, elas dizem. Há um vórtice de energia aqui, elas insistem.

A boa notícia é que toda essa conversa é estritamente opcional. A espiritualidade levemente excêntrica, juntamente com a atmosfera paz e amor, é servida como um prato paralelo, que você pode aceitar ou não. Mesmo assim, eu fiquei surpresa por encontrá-la deliciosamente carente de ironia e profundamente afetuosa.

E apesar das pessoas que dirigem este lugar poderem ser hippies, elas o dirigem com precisão: paz, amor e jantar servido exatamente às 20h.

De fato, tudo no resort demonstra uma atenção exata ao detalhe, dos sabonetes orgânicos de azeite de oliva caseiros às casas de árvores e bangalôs cuidadosamente projetados.

Além de Shambala, as hospedarias do vale passaram por uma atualização. Os acampamentos simples para mochileiros aprimoraram suas acomodações à medida que novas pessoas passaram a chegar aqui. Certa tarde nós comemos um almoço delicioso de peixe grelhado no Shanti Garden (www.shantigardenkabak.com), um dos vários estabelecimentos no vale, logo atrás da praia. Os bangalôs imaculados, mas espartanos, do Shanti Garden são uma alternativa menos cara para Shambala e ficam muito mais próximos da praia. Outro acampamento próximo, Reflections, tem um foco especial em ioga.

Todas as nossas refeições no vale foram simples da melhor forma mediterrânea - ingredientes frescos, a maioria deles cultivado localmente, exigindo pouco enfeite. A mesa de café da manhã em Shambala, em particular, me fez desmaiar: o gordo tomate adornado com azeite de oliva local e tomilho colhido de um arbusto próximo; pedaços de queijo caseiro; uma versão de Nutella de semente de gergelim; panquecas recheadas com alho-poró preparadas em uma frigideira grande por uma vovó anatoliana; pão saído direito do forno.

Mas a atração principal é a natureza. O vale se abre sob Shambala. Uma pequena caminhada leva até uma praia de areia branca e seixos. Durante nossa visita, a água tinha uma temperatura fria não desagradável, o suficiente para quebrar o suor da caminhada. Quinze minutos de nado levavam a uma caverna cheia de água, onde o sol da tarde, filtrado pelo mar azul, iluminava uma catedral de pedra em miniatura.

A Via Lícia se aprofunda pelo vale enquanto segue seu curso em direção à cidade de Antalya. Certa tarde nós a percorremos a partir da praia de Kabak, ao longo do paredão do vale, absorvendo o panorama do Mediterrâneo a cada curva. Após duas horas de caminhada, pontuada por pausas para desfrutar da brisa do mar e a vista, nós chegamos a uma pequena cachoeira que caía em um lago límpido e gelado. Suadas da subida, nós nos despimos e mergulhamos. O primeiro choque da água da montanha foi refrescante, mas nós não demoramos. Era uma longa caminhada de volta à praia, depois de volta ao vale, para voltarmos ao nosso portal para a felicidade.

Por: Lydia Polgreen

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