Viajar não é moleza

Viajar não é moleza

Atualizado: Sexta-feira, 28 Janeiro de 2011 as 2:35

O americano Thomas Kohnstamm achou que estava feito na vida quando foi convidado a escrever um guia de viagem sobre o Brasil. Não teve dúvida ao ser confrontado com a decisão de largar um emprego bem-pago e chato para conhecer lugares novos, comer bem e conhecer gente nova. E isso era trabalho, não férias. Porém, o que encontrou foi um pouco diferente.

Em Autores de Guias de Viagem Vão Para o Inferno?, Thomas revela as dificuldades enfrentadas para se fazer um livro desses. Pouco dinheiro, prazos apertados e incompreensão dos editores são o lado ruim do que parece ser o emprego dos sonhos. Driblar os percalços requer uma certa dose de “malandragem”, como ele mesmo diz, e pedir favores aos donos de hotéis e restaurantes.

E o resultado final não é o guia definitivo sobre determinado lugar, mas sim, a experiência que o autor teve durante sua viagem. O melhor, segundo Thomas, é consultar várias fontes de informação e, se possível, conversar com os nativos para não cair em roubadas.

De Seattle, onde mora atualmente com sua esposa carioca, Thomas contou à Trip em bom português detalhes de seu livro e deu dicas de como se preparar bem antes de fazer uma viagem.

Por que você resolveu escrever um livro tão, digamos, sincero sobre guias de viagem?

Muitas pessoas acham que o trabalho de ser escritor de viagem é um paraíso, um trabalho dos sonhos. A verdade é que os donos das companhias de guias sabem que muitas pessoas querem esse trabalho e por isso pagam muito pouco, dão pouco tempo para fazer as pesquisas. Se você tem um problema, eles dizem que vão usar outra pessoa. É muito difícil. Tudo está mudando com a internet. Antes, especialmente com a Lonely Planet, muitos mochileiros, muitos turistas, estavam tratando esse guia como a única informação verdadeira, seguindo cada recomendação de restaurante, hotel. Foi a Bíblia de viagem. Na verdade, essa informação é bem subjetiva, é o trabalho de uma só pessoa que tem pouco tempo, pouco dinheiro, uma pessoa que tem problemas iguais aos de todas as outras no mundo. O guia pode ser usado para aprender algumas coisas, mas não é a Bíblia. É uma coisa para começar.

O dinheiro que os editores oferecem não é o suficiente?

Eles te pagam uma parte antes de começar, outra quando você entrega. Depois de comprar a passagem de avião para ir, sobra muito pouco. Antes, nos anos 80, começo dos 90, quando você só fazia coisas de mochileiro, era o suficiente. Agora, querem saber sobre lugares de cinco estrelas, do restaurante de nível alto. Tem um episódio no livro contando quando entrei num hotel e eles me tiraram de lá dizendo: “Você não é da qualidade das pessoas que ficam aqui”. Eu estava bem suado depois de passar o dia inteiro fazendo pesquisa. Os editores querem tudo, mas não querem pagar nada a mais. A qualidade da informação foi piorando.

Você teve que pagar coisas com seu próprio dinheiro?

Também. Falo no livro que no primeiro projeto de um autor de guia ele perde dinheiro, paga com crédito, empresta dinheiro dos pais. Depois ele percebe que isso não é sustentável e procura outro trabalho. A maioria faz um ou dois livros. Quem fica na indústria muito tempo tem dinheiro da família ou um marido ou esposa com muito dinheiro. Ou eles aprendem como fazer os truques para sobreviver. Falar com os donos dos hotéis, dos restaurantes. É como falamos em inglês, um “hustle”, uma malandragem. A maioria das editoras de guias acham OK fazer isso. Mas o Lonely Planet diz: “Ah, não, nós somos os melhores. Nosso escritores não aceitam nada”. Não é a verdade, é só marketing.

Depois de publicar seu livro teve algum problema com a Lonely Planet?

Vários. Eles ameaçaram me processar, mas não fizeram nada. Foi só um truque. Falei com vários outros escritores. Os mais velhos, com mais experiência, que sabem como é o jogo, estavam do meu lado. Ao mesmo tempo, vários outros novos, ainda apaixonados pela ideia de ser escritor, fazendo seu primeiro ou segundo projetos, ficaram com muita raiva. Eles pensaram que eu estava tentando estragar os sonhos deles.

Chamaram você para fazer mais guias depois disso?

Não estou fazendo guias, mas estou escrevendo para revistas de viagem, livros, roteiros. Meu livro está sendo adaptado como série de televisão. Está no processo. O canal Showtime já comprou o livro.

Nos guias de viagem existem muitas informações erradas?

Depende do livro. O livro precisa ter uma estrutura que talvez funcione para a Inglaterra ou França. Tem que ter números de telefone, o horário de funcionamento etc. Eles tentam aplicar essa estrutura a todos os lugares do mundo. Uma cidade na França é bem diferente de uma no Piauí, por exemplo. Talvez o restaurante não tenha horário de funcionamento. Abre quando abre, fecha quando fecha. Eles [os editores] disseram para mim: “Você tem que colocar o horário”. No fim, você tem que inventar. Algumas informações não funcionam.

Onde você procura informações para viajar?

Na internet tem muita informação, mas nem sempre boa. Passei muito tempo estudando na pós-graduação, sou formado em pesquisa tradicional. Acho importante ler várias coisas e falar com outras pessoas para ter várias fontes. A coisa mais importante é falar com pessoas que moram no lugar. Sei que nem sempre é possível, especialmente por causa do idioma. Mas é muito melhor do que ter a informação de um gringo que mora do outro lado do mundo e passou cinco semanas visitando o Pernambuco e o Maranhão. É muito superficial. A internet tem muita informação boa, mas tem muita merda. E também o que parece ser informação boa, mas está tentando vender alguma coisa.

O que você acha dos sites nos quais os usuários avaliam o que é oferecido, como o Hostel World?

É um lugar para começar. Você tem que ver outras fontes também. [Nesses sites] tem pessoas que comentam falando bem, mas a verdade é que estão trabalhando para o dono do albergue ou restaurante, mentindo. Acho bem interessante, mas é importante não só ganhar informações práticas como também aprender a história e cultura do lugar através de livros. Não tem que ser literatura clássica, mas alguma coisa para aprender mais.

Você escreveu um guia sobre o Brasil e já veio para cá algumas vezes. Acha que conseguiu conhecer bem o país?

Posso passar o resto da minha vida conhecendo o Brasil. Tem um pouco de tudo. Tenho a Globo em casa. Num domingo estava assistindo ao Fantástico e passou uma matéria sobre os estilos de vida em partes diferentes. Acre, Rio, Amazonas. Conheço parte do país, mas tenho muito a aprender. O Brasil tem muitas coisas parecidas com os Estados Unidos: o tamanho, a história de colonização e escravidão, mesma idade, muita variedade de lugares. Mas agora estou trabalhando e tenho menos tempo para viajar.

Autores de guias de viagem vão para o inferno?

Thomas Kohnstamm 317 páginas Panda Books R$ 40

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