
Pastor auxiliar da Assembleia de Deus Ministério Cidade Santa no RJ. Bacharel pela Fateos. Pós-graduação em Ciência das Religiões. Mestrado em Teologia Sistemática pela Fateos. Professor de Teologia, escritor e consultor teológico. Autor de “Panorama da T

O pentecostalismo é hoje um dos movimentos cristãos mais influentes do mundo. No entanto, sua história nem sempre é contada de forma fiel às suas origens. Muitas narrativas acabam ocultando um dado fundamental: o pentecostalismo nasceu profundamente marcado pela experiência espiritual de homens e mulheres negros, pobres e socialmente marginalizados.
Resgatar essas raízes não é um gesto ideológico, mas um ato de honestidade histórica e espiritual. O movimento pentecostal surge nas margens da sociedade como uma experiência do Espírito Santo que devolveu dignidade, voz e esperança a quem havia sido silenciado. Três figuras são essenciais para compreender essa origem.
William J. Seymour: o avivamento que rompeu barreiras
William J. Seymour foi o principal líder do Avivamento da Rua Azusa, em 1906, em Los Angeles, evento que marcou o nascimento do pentecostalismo moderno. Filho de ex-escravizados, pobre e cego de um olho, Seymour liderou um avivamento que contrariou a lógica racial de sua época.
Em um contexto de segregação legalizada nos Estados Unidos, negros, brancos, homens e mulheres cultuavam juntos, unidos pela experiência do batismo no Espírito Santo. Para Seymour, a ação do Espírito não se limitava aos dons, mas produzia reconciliação, igualdade e comunhão. O pentecostalismo nasce, assim, como uma experiência espiritual radicalmente inclusiva, ainda que essa dimensão tenha sido silenciada com o avanço da institucionalização do movimento.
Lucy Farrow: a mulher negra apagada da história
Lucy Farrow foi uma mulher negra, ex-escravizada e evangelista pentecostal, com papel decisivo na difusão inicial da mensagem pentecostal. Ela foi mentora espiritual de Seymour e já pregava sobre o batismo no Espírito Santo antes mesmo do avivamento ganhar visibilidade internacional.
Apesar de sua importância, Lucy Farrow foi quase apagada da memória oficial do pentecostalismo. Seu esquecimento revela como o racismo e o machismo também atuaram dentro do campo religioso. Resgatar sua história é reconhecer que o pentecostalismo nasceu, desde o início, do ministério de mulheres negras cheias do Espírito e chamadas por Deus.
Charles H. Mason: fé, identidade e resistência
Charles Harrison Mason foi o fundador da Church of God in Christ (COGIC), hoje a maior denominação pentecostal negra do mundo. Após entrar em contato com o movimento pentecostal, Mason compreendeu que a experiência carismática precisava ser organizada sem abrir mão da identidade negra.
Enquanto muitos grupos pentecostais optaram por se afastar de suas origens para buscar aceitação social, Mason construiu uma igreja que afirmava a espiritualidade pentecostal, a liderança negra e a resistência diante do racismo estrutural. Sua trajetória mostra que o pentecostalismo negro não foi apenas experiência espiritual, mas também projeto de sobrevivência comunitária e fé encarnada
Um passado que precisa ser lembrado
No Brasil, o pentecostalismo sempre teve forte presença negra em suas bases, ainda que suas lideranças tenham sido historicamente invisibilizadas. Reconhecer as raízes negras do pentecostalismo não divide a Igreja. Ao contrário, cura a memória, fortalece a identidade e reconecta o movimento às suas origens no Espírito e na justiça.
O pentecostalismo nasceu nas margens, e é ali que ele reencontra sua força quando decide lembrar de onde veio.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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