
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor do livro A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog de mesmo nome onde publica estudos bíblicos com ênfase na história, língua e cultura judaicas relacionadas ao cristianismo.

A porção da Torá desta semana é sobre o dilúvio que exterminou a vida na Terra nos tempos de Noé, do qual salvaram-se apenas ele e sua casa, bem como todos os animais que foram recolhidos na arca.
O motivo da destruição foi que “a terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência” (Gn. 6:11). A palavra violência aparece aqui pela primeira vez na Bíblia e seu original é hamas.
Juízo sobre a violência
Hamas é o mesmo termo que nomeia o grupo terrorista que assola a Faixa de Gaza e tem sido um dos principais inimigos de Israel no século XXI. Hamas foi a causa direta da destruição trazida pelo dilúvio. Não é por acaso que Yeshua diz que os últimos dias serão semelhantes aos dias de Noé. Não apenas porque as pessoas estarão desapercebidas como nos dias que antecederam o dilúvio, mas porque a Terra também estará coberta de violência ou hamas.
É interessante ressaltar que Parashá Noach foi a mesma porção da Torá na semana dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, fazendo com que Israel entrasse em Gaza e iniciasse uma longa guerra. Curiosamente, a invasão do Hamas no dia 7 foi batizada pelos terroristas de “Dilúvio de Al-Aqsa”, o nome da mesquita que está na esplanada do Templo. Parece uma clara tentativa do inimigo tentar reverter o juízo de Deus contra toda a violência no verdadeiro dilúvio.
O juízo, porém, pertence ao Senhor que julgará toda a Terra, não somente por sua violência, mas por toda a corrupção moral em que se afundaram as sociedades do mundo, tal qual nos tempos de Noé. A propósito, o termo hamas carrega consigo um significado mais abrangente, segundo comentaristas judeus antigos. Eles descrevem que uma sociedade “cheia de violência” está consumida por injustiça, exploração, opressão, desonestidade e abuso de poder. Trata-se de uma humanidade não apenas violenta fisicamente, mas altamente destrutiva para com os homens entre si, em todos os níveis.
Descanso e graça
Embora a Terra estivesse corrompida, a Torá faz questão de destacar o caráter de Noé. “Era ele homem justo e íntegro em suas gerações, e andava com Deus” (Gênesis 6:9). Estar cercado de perversidade e iniquidade nunca foi justificativa para se deixar influenciar pelo mal. Os que temem ao Senhor sempre serão guiados por seus mandamentos, independentemente do ambiente em que vivam. Noé é o exemplo mais claro disso por todas as Escrituras.
O verso 8 resume a recompensa de Noé por andar em retidão perante o Senhor: “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor”. O original, diz: Noach matzah chen b’einei Adonai. O nome Noé e o termo para graça usam as mesmas letras no hebraico, nun e chet, mas invertidas. Noé significa descanso, repouso. Graça transmite a ideia de favor imerecido. Os sábios antigos observaram muito bem que os nomes Noé e graça são imagens espelhadas uma da outra. Portanto, em meio à maldade e violência de todo tipo que nos circundam, é possível descansar em Deus com integridade e justiça, desfrutando de sua graça imarcescível.
A Arca do Pai
Não por acaso, a porção semanal correspondente dos Apóstolos abrange o capítulo 8 de Mateus, no qual é narrado o milagre em que Jesus acalma a tempestade. O barco em que estava com os discípulos era varrido pelas ondas, enquanto o Mestre dormia em paz até ser acordado por eles, aterrorizados pelo medo de um naufrágio. Ele repreende os ventos e o mar, trazendo bonança imediata.
Não há dúvidas de que o dilúvio trouxe temor para Noé e sua família. Após o juízo sobre a Terra, o Senhor também acalmou as águas e salvou todos que se encontravam na arca, fazendo com eles uma aliança. As duas histórias estão intimamente interligadas. A arca de Noé era um tipo de Jesus para salvar das águas da destruição os que nela se refugiaram.
Ele foi o mesmo refúgio para os discípulos ao serem açoitados pelo vento e pelo mar, livrando-os do pavor da morte iminente. Ele continua sendo o mesmo refúgio para os que querem viver livres da corrupção e da violência que enchem o mundo em que vivemos, e que desejam encontrar graça a seus olhos. Ele é a Arca enviada pelo Pai para resgatar a humanidade perdida.
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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