Getúlio Cidade

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Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor do livro A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog de mesmo nome onde publica estudos bíblicos com ênfase na história, língua e cultura judaicas relacionadas ao cristianismo.

Purim: A história se repete

A coincidência da guerra entre Israel e Irã com a temporada de Purim não é por acaso. Estamos vendo as páginas do livro de Ester saltarem para a realidade atual entre os dois países.

Fonte: Guiame, Getúlio CidadeAtualizado: terça-feira, 3 de março de 2026 às 13:37
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

A Festa de Purim ocorre em 14 de Adar que, neste ano, coincidiu com 3 de março. Conforme previmos em artigo de algumas semanas atrás, o segundo round da guerra entre Israel e Irã foi iniciado no último sábado. A coincidência com a temporada de Purim, no entanto, não é por acaso. Estamos vendo as páginas do livro de Ester saltarem para a realidade atual entre os dois países.

O sábado que precede Purim é conhecido como Shabbat Zachor, ou sábado da lembrança, cuja porção da Torá termina com o mandamento de se lembrar do primeiro e maior inimigo de Israel, Amaleque (Dt. 25:17-19). Não é coincidência que essa parashah seja lida às vésperas de Purim. O antagonista do livro de Ester é Hamã, ninguém menos que um agagita e descendente de Amaleque. Este é o arquétipo do inimigo covarde que atacou os israelitas pela retaguarda, matando os mais fracos como crianças, mulheres, idosos e doentes.

Mesma ideologia de ódio

Na Pérsia antiga, Hamã, cego por seu ódio a Mordechai, decidiu matar todo seu povo. Ele espalhou essa ideologia perversa com respaldo do selo real a todas as províncias do império, por meio dos governadores e príncipes. A ordem era “destruir, matar e aniquilar todos os judeus”, incluindo as crianças. Hamã trabalhou por quase um ano a fim de cumprir seu intento maligno.

Cerca de 2.500 anos depois, o mesmo intento maligno tem sido expresso pela ditadura dos aiatolás, desde que tomou o poder da monarquia do xá em 1979. Há 47 anos, o regime do Irã prega abertamente aos quatro ventos que pretende “varrer Israel do mapa”. Como Hamã, o regime espalhou seu ódio a Israel por todo o mundo islâmico e não islâmico, reforçando suas palavras com a construção de um grande arsenal de mísseis e financiamento de grupos terroristas por todo o Oriente Médio a fim de cumprir sua promessa de aniquilar Israel.

De fato, o Hamã de nosso tempo, aiatolá Ali Khamenei, acreditou ser possível cumprir suas palavras, cego pelo ódio irrefreável contra Israel, e investiu a riqueza do país, em especial o lucro do petróleo, em armas de guerra. Em última instância, burlou as sanções econômicas impostas ao regime na busca incessante de construir uma bomba atômica para alcançar seu intento. Esse foi o mesmo ódio que levou Hamã a construir uma forca muito alta na qual pretendia assassinar Mordechai. Algo, porém, saiu de controle e ele acabou sendo enforcado nela.

Mesmo roteiro

O desenrolar do atual conflito possui o mesmo cenário do livro de Ester: a Pérsia antiga e atual Irã, mas vai além. Possui o mesmo roteiro da trama entre Mordechai e Hamã. Logicamente os personagens são diferentes, porém, interpretam os mesmos papéis com nomes distintos. É como se assistíssemos a um teatro de marionetes cujos verdadeiros artistas e reais condutores do show se encontram fora do alcance da vista — as forças ocultas do bem e do mal.

Na história de Purim que se repete agora, as mesmas ameaças de Hamã vinham se avolumando contra Israel, desde o confronto de junho do ano passado. Apesar do golpe que sofreu em seu programa nuclear, o regime do Irã persistia de todas as formas a fim de alcançar a bomba nuclear e estava bem próximo disso. Agora, porém, a virada aconteceu nos primeiros segundos do atual conflito, exatamente no Shabbat Zachor, dia em que a passagem referente a Amaleque foi lida em todas as sinagogas do mundo.

Confrontando Amaleque

A queda de Hamã, o descendente mais vil de Amaleque, se deu quando julgava estar no auge de seu sucesso e na segurança do palácio, cercado de pompa e honra, prestes a aniquilar aquele que elegeu por seu maior inimigo: Mordechai e seu povo. No último sábado, 28 de fevereiro, o mesmo ocorreu com o líder supremo e toda a cúpula do regime iraniano. Enquanto se reuniam para deliberar sobre a aniquilação do Estado judeu, na fortaleza aparentemente segura de seu bunker, foram exterminados em um só instante pelo bombardeio maciço e preciso das Forças de Defesa de Israel.

No primeiro minuto de guerra, o líder supremo do Irã foi eliminado em seu complexo cuja fortaleza foi incapaz de protegê-lo, após décadas de ameaças contra os judeus e de tirania contra seu povo. Juntamente com ele, quase 50 líderes foram eliminados, infligindo-se um dano inestimável à cadeia de comando do regime.

A rainha Ester, juntamente com Mordechai, teve a coragem de confrontar o espírito de Amaleque para salvar sua geração do extermínio. Do mesmo modo, em nossa geração, os líderes de Israel e dos Estados Unidos, levantados “para um tempo como este”, tiveram a coragem de confrontar o mesmo espírito que ameaça Israel e o Ocidente há quase meio século.

Da tristeza à alegria

A ruptura da estrutura de comando e controle causada pela Operação Rugido do Leão abalou profundamente o regime do Irã e, embora o conflito não tenha se encerrado e haja ameaças de mais mísseis contra Israel e os países árabes vizinhos, o fato é que, desde o último sábado, todo Israel foi tomado de esperança por dias mais promissores.

No livro de Ester, o juízo alcançou o arqui-inimigo de Israel em um só dia, quando Hamã e seus dez filhos foram mortos, pendurados à forca. Novamente a história se repetiu e os judeus tiveram sua sorte transformada quando o juízo alcançou o líder supremo do Irã e os quase 50 líderes de seu regime tirânico, em um só momento, através das aeronaves de combate da Força Aérea de Israel.

Os judeus do império persa estavam de luto e angustiados perante a ameaça de aniquilação total, mas a virada de mesa na história os fez exultarem de júbilo. Para marcar esse livramento, ordenou-se ao povo que “guardassem os dias quatorze e quinze do mês de Adar todos os anos (...), o mês que lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa” (Ester 9:21-22).

Essa alegria se tornou a marca registrada de Purim e, desta vez, contagiou também o povo iraniano que invadiu as ruas do país e das partes do mundo para onde foram exilados para celebrar. Afinal, por quase meio século, os persas têm sofrido todo tipo de abuso e perseguição pelo regime dos aiatolás, responsável pelo derramamento do sangue de dezenas de milhares de seus cidadãos e demais inocentes mundo afora.

As cenas a que assistimos do povo persa cantando, dançando e celebrando são dignas de uma Festa de Purim e, nesta ocasião especial, os iranianos se juntaram aos judeus em celebração. Uma das cenas mais incríveis foi ver iranianos e judeus nas ruas de Londres, no sábado à noite, em plena festa, cantando Am Israel Chai (O Povo de Israel Vive) enquanto sacudiam alegremente as bandeiras de seus países. Uma cena adorável para se guardar na memória em mais um dos incontáveis milagres de Purim. Sim, o povo de Israel vive e jamais será aniquilado!

Para saber mais, acesse https://www.aoliveiranatural.com.br/2026/03/03/purim-e-a-guerra-com-o-ira-a-historia-se-repete/

 

Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: O regresso do último refém e a futura redenção de Israel

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