Jarbas Aragão

Jarbas Aragão

Jarbas Aragão é pastor, jornalista e tradutor. Mestre em teologia, foi missionário da Jocum e da Junta de Missões Mundiais da CBB, além de professor de seminário Batista. Colabora com diferentes mídias no Brasil, nos Estados Unidos e em Israel.

“Coaches espirituais” criados por IA lucram alto e atraem milhões de seguidores

Personagens virtuais criados com ferramentas de inteligência artificial oferecem lições de espiritualidade, vendendo livros e cursos nas redes sociais

Fonte: Guiame, Jarbas AragãoAtualizado: sexta-feira, 15 de maio de 2026 às 15:12
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

Um senhor idoso aparece em vários vídeos virais, com mais de 20 milhões de visualizações. Com feições orientais, quase sempre aparece sentado de pernas cruzadas, usa um manto laranja e expressão serena, tem ao fundo belos jardins ou interior de templos budistas. Fala devagar, voz grave e pausada, sobre temas como equilíbrio interior, resistência ao sofrimento e sabedoria milenar. Porém, o “monge” Yang Mun, que acumula mais de 6 milhões de seguidores nas redes sociais, nunca existiu. São dois perfis no Instagram e um no Facebook.

Ele é o “coach espiritual virtual” mais bem-sucedido até o momento. Foi gerado por inteligência artificial pelo empreendedor Shalev Hani. O israelense conta que usa ferramentas como ChatGPT, ElevenLabs, HeyGen e Nano Banana. Em postagens públicas no início de 2026, o próprio Hani afirmou ter ganhado mais de US$ 300 mil [cerca de R$ 1,5 milhão] nos primeiros 90 dias de operação de seu personagem, acumulando mais de 400 milhões de visualizações em diversas plataformas.

Os vídeos de Yang Mun seguem uma fórmula: idoso asiático que transmite mensagens motivacionais, ao melhor estilo coach de estilo de vida. Muitas vezes, o personagem se dirige aos espectadores como "meu filho" e usa referências do budismo. Frases como "a maior parte do seu sofrimento não vem do que está acontecendo, mas da resistência ao que é" ou "vejo como você está cansado, e não apenas no corpo" são características do conteúdo. 

Os comentários nas publicações mostram que os seguidores não sabem que o personagem é gerado por IA. Muitos agradecem e relatam ter recebido conforto e paz com as mensagens e lições. Já existem versões desse material legendado e até dublado em outras línguas, sendo compartilhado pelos brasileiros.

Mesmo com as mudanças nas plataformas de rede social, o aviso de "Gerado por IA" não é exibido com destaque nos vídeos e os seguidores menos atentos não percebem isso sobre o conteúdo, pois parecem se identificar com a mensagem.

Da paz interior ao carrinho de compras

Muitos desses vídeos de guias ou coaches espirituais são a porta de entrada para uma operação comercial lucrativa. 

Por exemplo, o site oficial de Yang Mun vende uma série de e-books. Há títulos como “Tempo de Cura”, “Curando a Alma do Homem Moderno” e “Jornada dos 30 Dias de Cura”. Como os títulos sugerem, trariam algum tipo de cura para o corpo e, supostamente, para a alma. Eles custam entre US$ 10 e US$ 50 [de R$ 50 a 250]. Segundo o próprio site, milhares de pessoas compram seus produtos digitais. Também há um pacote mais caro, com um tipo de curso breve que mostra como obter equilíbrio emocional, melhora do sono e alinhamento interior.

No site, onde há várias informações, não existe registro de que se trata de um personagem, apenas que ele usa "ferramentas de aprimoramento de voz para tornar a mensagem mais acessível". Segundo estimativas pela média de visualizações, a renda gerada pela monetização varia de US$ 8 mil a US$ 11 mil somente no Instagram, além do lucro com os produtos digitais vendidos no site. 

Hani já revelou que cada vídeo leva cerca de 20 minutos para ser produzido e que tudo, desde a geração do roteiro via ChatGPT até a publicação automática no Instagram, é gerenciado por um sistema de automação chamado n8n, sem nenhuma interferência humana. A voz é clonada com o ElevenLabs e desacelerada em 10% para soar mais "sábia", segundo o próprio criador.

IA e espiritualidade

O caso Yang Mun é, provavelmente, o maior sucesso atual entre os chamados “coaches espirituais virtuais”. Esses “personagens” geram debates sobre o uso da inteligência artificial em temas de espiritualidade. 

O mercado de influenciadores digitais movimenta centenas de bilhões de dólares em todo o mundo, e figuras geradas por IA têm demonstrado capacidade de produção que nenhum criador humano conseguiria igualar. A questão central é “por que as pessoas consomem esse tipo de conteúdo aparentemente sem critério?”.

Em 2025, psicólogos britânicos alertaram publicamente que o ChatGPT estava oferecendo conselhos perigosos a pessoas com transtornos mentais. Na mesma época, a Igreja Católica retirou de circulação o Padre Justin, um personagem feito por IA, criado para responder perguntas sobre a fé.

Pesquisador da Universidade de Oxford, o Dr. Lyndon Drake, avaliou em entrevista recente que "os chatbots de IA poderão desafiar o papel dos líderes religiosos", mas alertou que "suas interpretações de textos sagrados são frequentemente contestadas".

No Brasil, já existem personagens desse tipo, com figuras que remetem a padres, pastores, rabinos, gurus de nova era, e até líderes de religião de matriz africana. O projeto Profetas Sintéticos mostra quem são eles e a quantidade de seguidores. Atualmente, lista mais de 60 perfis que não são pessoas reais, mas somam mais de 13 milhões de seguidores somente no Instagram.

Um dos mais curiosos é Aharon Viana, pastor com visual de cantor sertanejo, com cerca de 400 mil seguidores no Instagram. Seus vídeos reúnem frases de efeito e versículos, usando muito a palavra “fé”. Suas músicas de louvor estão no Spotify e outras plataformas de streaming.

Também vende um tipo de assinatura para receber devocionais em áudio e no seu site, um robozinho oferece as opções “ouvir um testemunho” ou “ouvir um louvor”. Os comentários mostram que os seguidores se sentem edificados e compartilham seus pedidos de oração.

Na contramão, o autodeclarado “primeiro cantor gospel de IA do Brasil” é Hikari de Jesus. Com mais de um milhão de seguidores, o personagem é um jovem japonês com diversas tatuagens, num visual que remete a cantores de K-pop. Seu criador é o influenciador Iago Wesley, que diz em um vídeo fixado na conta ter composto pessoalmente todas as músicas cantadas por Hikari.

“Já vi pessoas inventando que é tudo feito por IA, mas não é verdade. Componho cada letra e cada melodia”, garante, destacando que usa a tecnologia “como ferramenta de apoio” para sua obra.

Em artigo na Folha de São Paulo, em janeiro de 2025, o pastor presbiteriano e pesquisador na área de espiritualidade e saúde mental, Valdinei Ferreira, assegurou que “a IA fará sucesso entre os evangélicos brasileiros como uma espécie de oráculo”.  O número crescente de seguidores dessas contas. 

Curiosamente, há casos de repercussão que mostram que saber que é uma máquina não impede as pessoas de pedirem uma oração a elas. A influenciadora Camila Loures apareceu na capa de sites de notícias recentemente por admitir em um podcast que pediu oração ao aplicativo ChatGPT.

“Outro dia eu me peguei pedindo pra ChatGPT orar por mim. Eu juro! Depois falei: ‘o que que eu tô fazendo?’”, disse. “Eu tava na correria, me maquiando, aí falei: ‘esqueci de orar hoje, ora aí pra mim. Puxa um versículo e ora aí pra mim’”, contou, entre risos.

Com um mundo que vê a tecnologia mudar constantemente, a questão é: se os algoritmos conseguem produzir mensagens baseadas no que já acreditamos, vale a pena ouvir a mensagem independentemente do mensageiro?

 

Jarbas Aragão é pastor, jornalista e tradutor. Mestre em teologia, foi missionário da Jocum e da Junta de Missões Mundiais da CBB, além de professor do seminário Batista. Colabora com diferentes mídias no Brasil, nos Estados Unidos e em Israel.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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