
As imagens da bebê de apenas um ano que deixou uma creche em Sumaré (SP) com o rosto marcado por diversas lesões causaram indignação em todo o Brasil. Mas, por trás da comoção, existe uma reflexão que não pode ser ignorada: quem cuida de crianças assume uma missão que vai muito além de um contrato de trabalho. Assume uma responsabilidade moral diante da sociedade e, para os cristãos, diante do próprio Deus.
Jesus demonstrou inúmeras vezes o valor que atribuía às crianças. Ele as acolheu, as colocou no centro de seus ensinamentos e advertiu severamente aqueles que causassem dano aos pequenos. A infância nunca foi um detalhe para Cristo. Ela sempre ocupou um lugar de honra.
Por isso, quando uma criança é ferida justamente no ambiente onde deveria estar protegida, não estamos diante apenas de um problema administrativo. Estamos diante de uma profunda quebra de confiança.
Os fatos estão sendo investigados pelas autoridades competentes. Houve registro de Boletim de Ocorrência, atuação do Conselho Tutelar e a Polícia Civil apura as circunstâncias do caso.
Entretanto, independentemente das conclusões jurídicas, uma pergunta permanece: como um bebê tão pequeno chegou a esse estado sem que adultos interrompessem a situação imediatamente?
Essa pergunta precisa ser respondida.
Como psicóloga, sei que o trauma infantil não se limita às marcas que aparecem na pele. O cérebro de uma criança nessa idade ainda está formando suas bases emocionais. Ela aprende, diariamente, se o mundo é seguro ou perigoso, se pode confiar nos adultos ou se ficará sozinha diante da dor.
Uma experiência traumática nessa fase pode provocar medo, insegurança, alterações no sono, ansiedade de separação e mudanças importantes no comportamento. Felizmente, a mesma plasticidade cerebral que torna a criança vulnerável também favorece sua recuperação quando existe acolhimento, amor e cuidado.
Mas há outra vítima silenciosa nessa história: a mãe.
Nenhum pai ou mãe entrega um filho a uma creche imaginando que ele voltará ferido. A dor de encontrar uma criança machucada produz sentimentos profundos de culpa, impotência e revolta. Por isso, cuidar da família também faz parte do processo de reconstrução emocional.
Vivemos uma época em que muito se fala sobre infraestrutura, investimentos e ampliação de vagas na educação infantil. Tudo isso é importante. Mas nenhuma estrutura substitui aquilo que realmente protege uma criança: adultos atentos, preparados e comprometidos com o cuidado.
O Evangelho nos ensina que servir é proteger, cuidar e amar. Não existe verdadeiro cuidado sem vigilância. Não existe responsabilidade sem transparência. Não existe amor ao próximo quando a negligência ocupa o lugar da atenção.
Que esse episódio desperte não apenas investigações e responsabilizações, mas também uma profunda reflexão sobre a maneira como tratamos nossas crianças.
A infância é um presente de Deus confiado às mãos dos adultos.
Que jamais nos esqueçamos de que proteger os pequenos não é apenas uma obrigação profissional ou legal. É um compromisso ético, humano e espiritual.
Como disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, porque o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.” (Marcos 10:14)
Que nunca sejamos aqueles que, por omissão, falham em proteger justamente os mais indefesos.
Marisa Lobo é psicanalista, teóloga, especialista em comportamento humano, com pós-graduação em Filosofia dos Direitos Humanos, Educação em Gênero e Sexualidade, Neurociência da Comunicação, Mediação de Conflitos, Gestão Pública e Dependência Digital. É escritora, com 12 livros publicados, e presidente do movimento “Maconha Não”, além de integrar o movimento Pró-Mulher.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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