Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi

Matheus Grismaldi é escritor, missionário e assessor de comunicação & imprensa em Angola, África. Também integra equipe de plantações de Igrejas, dedica-se ao discipulado e apaixonado pelo Evangelho.

A maior crise de identidade do cristão pode estar na forma como ele enxerga Deus

Compreender a paternidade de Deus transforma a fé: deixamos de buscar aceitação pelo desempenho e aprendemos a viver a partir da identidade de filhos.

Fonte: Guiame, Matheus GrismaldiAtualizado: segunda-feira, 17 de agosto de 2026 às 16:57
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

Existe uma diferença entre saber que Deus é Pai e viver como filho. Pode parecer apenas uma questão de linguagem, mas, na prática, essa diferença muda completamente a forma como alguém se relaciona com Deus, enfrenta as dificuldades e enxerga a própria vida.

Muitas pessoas aprenderam a conhecer Deus a partir daquilo que Ele pode fazer: o Deus que cura, que protege, que abre portas, que responde às orações e que socorre nos momentos de angústia. Tudo isso é verdadeiro, mas existe uma dimensão ainda mais profunda do Evangelho: o Deus que não quer apenas ser procurado como socorro, mas conhecido como Pai.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das crises silenciosas da vida cristã. Há pessoas que conhecem a linguagem da fé, sabem orar, conhecem as Escrituras e estão habituadas à igreja, mas ainda se relacionam com Deus como quem precisa conquistar diariamente o direito de permanecer perto dEle. Quando erram, afastam-se. Quando acertam, sentem-se mais dignas. Quando enfrentam dificuldades, imaginam que Deus se distanciou. Quando não recebem aquilo que esperavam, questionam se ainda são amadas.

É possível, portanto, estar perto de Deus e ainda carregar uma mentalidade de órfão.

A Bíblia apresenta uma realidade diferente. Paulo escreve aos Romanos que os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus e que não recebemos um espírito de escravidão para vivermos novamente dominados pelo medo, mas o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”. A filiação não é apresentada como uma recompensa para quem conseguiu fazer tudo certo, mas como uma nova posição recebida pela graça.

Isso muda a pergunta.

Em vez de “o que preciso fazer para que Deus me aceite?”, começa a surgir outra: “como posso viver a partir da certeza de que sou filho?”.

A diferença é enorme. Quem vive para conquistar aceitação nunca descansa, porque sempre sente que ainda precisa provar alguma coisa. Quem compreende a filiação começa a viver de outra maneira. Não significa deixar de crescer, corrigir erros ou assumir responsabilidades. Significa que a mudança deixa de nascer do medo de perder o amor do Pai e passa a nascer da consciência de que esse amor já foi recebido.

(Foto: Alexandra Fuller / Unsplash)

A parábola do filho pródigo talvez seja uma das imagens mais fortes dessa realidade. O filho que saiu de casa voltou acreditando que já não poderia ocupar o mesmo lugar. Depois de desperdiçar tudo, preparou um discurso para tentar convencer o pai de que poderia ser tratado como empregado. Mas o pai não respondeu com uma negociação. Correu ao seu encontro, abraçou-o e restaurou a sua posição.

O filho voltou pensando em sobrevivência. O pai estava pensando em relacionamento.

Existe, porém, algo ainda mais interessante nessa história: o irmão mais velho também estava dentro da casa, mas não parecia desfrutar da relação com o pai. Ele permaneceu, trabalhou e cumpriu as suas obrigações, mas revelou uma mentalidade de quem acreditava que precisava receber algo em troca daquilo que fazia. Estava em casa, mas ainda não tinha compreendido plenamente o coração do pai.

Talvez essa seja a parte mais desconfortável da parábola. Nem sempre a distância do Pai acontece quando alguém vai embora. Às vezes, acontece quando alguém permanece, mas deixa de ouvir a sua voz, de desfrutar da sua presença e de viver a partir da identidade de filho.

A paternidade de Deus não elimina as nossas responsabilidades; elimina a necessidade de viver permanentemente tentando provar o nosso valor. O filho amadurece, aprende, erra, recomeça e desenvolve o caráter que recebeu do Pai. A maturidade não é o caminho para conquistar a filiação. É o resultado de quem já compreendeu que é filho. A própria Escritura estabelece essa diferença entre aquele que apenas carrega a natureza de filho e aquele que amadurece a ponto de expressar o caráter do Pai.

Por isso, talvez a grande questão da vida cristã não seja apenas quanto alguém conhece sobre Deus, mas quanto daquilo que conhece já se tornou relacionamento. É possível saber que Deus ama e ainda viver com medo. É possível saber que existe graça e continuar preso à culpa. É possível acreditar na adoção e continuar a comportar-se como empregado.

O Evangelho anuncia algo muito maior: em Cristo, a orfandade não precisa ser a última palavra. A Cruz não apenas trata o pecado; revela o caminho de volta ao Pai. O que parecia separação pode transformar-se em reconciliação, e aquilo que parecia uma vida marcada pelo medo pode dar lugar à segurança de quem sabe que pertence.

Talvez seja por isso que compreender a paternidade de Deus muda também a maneira como alguém olha para si mesmo. Quando se descobre quem é o Pai, começa-se a compreender quem se é. A identidade deixa de estar completamente dependente das conquistas, dos fracassos, da aprovação das pessoas ou das circunstâncias.

No fim, a pergunta talvez seja simples, mas profundamente necessária: Deus é apenas aquele em quem você acredita ou é verdadeiramente o Pai com quem você aprendeu a se relacionar?

Porque é possível conhecer Deus e ainda viver como órfão. É possível estar na casa e não desfrutar da mesa. E talvez uma das maiores transformações da fé aconteça justamente quando o coração finalmente entende aquilo que a religião, tantas vezes, torna complicado: não se trata apenas de saber que Deus é Pai. Trata-se de aprender a viver como filho.

 

Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Um Rei, uma manjedoura e um Reino Invertido

 

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