
Por Melina Botteghin, publicitária e estudante de Teologia. Esposa, mãe e missionária por vocação.

Uma das minhas histórias favoritas da Bíblia é a de José. Ela está registrada em Gênesis, dos capítulos 37 a 50.
Talvez eu goste tanto dela porque José me faz lembrar que uma promessa de Deus não deixa de existir apenas porque, por um tempo, tudo parece estar dando errado.
José tinha sonhos. Tinha uma palavra de Deus sobre seu futuro. Mas, antes de chegar ao palácio, foi lançado em um poço pelos próprios irmãos.
Ele não caiu. Foi empurrado.
E, algumas vezes, nós também somos.
Somos empurrados por uma rejeição que não esperávamos, por uma traição que veio de quem amávamos, por uma porta que se fechou ou por uma mudança que jamais escolheríamos.
Confesso que, nos momentos difíceis, nem sempre consigo compreender imediatamente o que Deus está fazendo. Existem dias em que o poço parece apenas um poço: escuro, apertado e silencioso.
Mas foi ali que José começou a ser deslocado.
Se dependesse dele, provavelmente continuaria na casa de seu pai, protegido, usando sua túnica e contando seus sonhos. Porém, havia um Egito esperando por ele. Havia uma fome que chegaria. Havia uma família que precisaria ser preservada. Havia um palácio preparado para receber aquilo que Deus havia colocado dentro dele.
Entre a promessa e o palácio, porém, existia um poço.
Tenho aprendido que existem lugares dos quais eu jamais sairia se alguma circunstância não me empurrasse. Existem ciclos que eu não encerraria, caminhos que não teria coragem de percorrer e movimentos que nunca faria por vontade própria.
Por isso, hoje tomo cuidado para não chamar imediatamente de abandono aquilo que pode ser um deslocamento de Deus.
Isso não significa que todo sofrimento venha Dele. A maldade dos irmãos de José continuava sendo maldade. A traição continuava sendo traição. Deus não precisou provocar a crueldade para cumprir Seus planos.
Mas aquilo que tentaram usar para destruir José, Deus usou para transportá-lo.
Os irmãos queriam se livrar do sonhador. Sem perceber, deram o primeiro empurrão na direção do destino que tentavam impedir.
José ainda enfrentaria a escravidão, uma acusação injusta e a prisão. Nada parecia combinar com a promessa. Porém, em cada lugar, Deus estava formando o homem que um dia ocuparia o palácio.
Porque chegar ao palácio é uma coisa.
Ter estrutura para permanecer nele sem se perder é outra.
Na casa de Potifar, José aprendeu a administrar. Na prisão, continuou servindo mesmo ferido. Escondido e sem platéia, seu caráter foi provado. Quando chegou diante de Faraó, ele não possuía apenas um dom; possuía maturidade para sustentar aquilo que seu dom abriria.
Talvez seja essa uma das partes mais difíceis da nossa caminhada: aceitar que Deus também trabalha nos lugares onde ninguém está nos vendo.
Eu não sei qual é o nome do seu poço hoje. Talvez seja uma perda, uma rejeição, uma espera ou uma mudança que você ainda não conseguiu compreender.
Mas sei que a ausência de luz não significa a ausência de Deus.
O mesmo Deus que estava com José quando Faraó colocou um anel em sua mão estava com ele quando seus irmãos arrancaram a túnica de seus ombros.
Deus não apareceu apenas no palácio.
Ele também estava no poço.
Anos depois, José pôde dizer: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20).
José não chamou o mal de bem. Ele apenas reconheceu que a maldade dos homens não tinha poder para cancelar os planos de Deus.
E é nisso que eu também escolho descansar.
Não descanso no poço. Descanso no Deus que está comigo dentro dele.
Não celebro a dor. Celebro o fato de que Ele não a desperdiçará.
Não confio na escuridão. Confio nas mãos de quem continua escrevendo a minha história mesmo quando eu ainda não consigo enxergar o próximo capítulo.
Às vezes, o poço não é o fim.
Às vezes, é apenas o empurrão que nos coloca no caminho do palácio.
Melina Botteghin é estudante de teologia, esposa, mãe, pastora por vocação e publicitária de formação.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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