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Brava gente brasileira

Brava gente brasileira

Atualizado: Terça-feira, 27 Abril de 2010 as 12

Qual a menor das virtudes? A coragem, pois o intrépido não precisa de muitos valores. Basta-lhe ser atrevido. Quando embarca em alguma empreitada, o valente precisa, na verdade, desvencilhar-se de certas virtudes.

O arrojado não pode ser cauteloso. Pelo contrário, quanto mais afoito, mais bem sucedido. A coragem prescinde da prudência. Eis porque os jovens se revelam bons soldados e péssimos motoristas.

Os audazes são muitas vezes apressados. Tornam-se bravos porque não se dispõem a construir, passo a passo, os seus projetos. Melhor arriscar que trabalhar. Sérgio Buarque de Holanda afirmou em ''Raízes do Brasil'' que a exploração dos trópicos foi feita muito mais por aventureiros que imigrantes.  

''Não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono''.

Descuido típico dos corajosos.

Portanto, a raiz brasileira foi macunaímica, não puritana. Os tipos que desembarcaram por aqui, no vastíssimo litoral da ilha de Santa Cruz, só enxergavam a generosa amplitude da terra pedindo para ser desvirginada (estuprada). Aportaram poucos trabalhadores e muitos atrevidos. O progresso nacional foi determinado em desenvolver a ''ética da aventura'', mas tímido na construção da ''ética do trabalho''. Sérgio Buarqe afirmou que o ''indivíduo do tipo trabalhador atribui valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar''. Por exemplo: o trabalhador tem ''por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro - audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem - tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo''.

Contudo, a ética do aventureiro, a que se consolidou no Brasil, faz o caminho inverso, busca uma recompensa imediata com um mínimo esforço. Para o destemido, o trabalho árduo, que busca construir um mundo estável, justo, solidário, é considerado vicioso e desprezível.

Sérgio Buarque afirmou que “na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao trabalhador, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quase nulo''. Para ele, ''a época predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os homens de grandes vôos''. Os corajosos ficaram ricos, os trabalhadores mal sobreviveram.

O historiador acertou em cheio quando disse: ''O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho''. Com certeza, para ser um Bandeirante, ninguém precisava de nobres virtudes, bastava valentia. O projeto colonialista se contentava em estuprar índias e extrair do solo o máximo de pedra preciosa com um esforço mínimo. Depois voltava-se para a ''civilização'' para usufruir, pelo resto da vida, os dividendos da empresa.

Passados tantos séculos, os brasileiros continuam indolentes na ética do trabalho, mas sempre dispostos a correr riscos. A grande preocupação nacional permanece: descobrir o ''jeitinho'' da prosperidade, o atalho para o sucesso ou macete para a fortuna. Muita água já correu desde que este país foi retalhado em Capitanias Hereditárias e os Bandeirantes se enfronharam pelos sertões tropicais. Porém, continua refém da resiliência de vigaristas, da tenacidade de embusteiros e da fibra de espertalhões; todos ávidos em conquistar um filão de ouro.

Ora, para que estudar e trabalhar de sol a sol? Com uma oração forte Deus abrirá as janelas do céu e o crente vai ficar mais rico que Salomão. Para que construir uma empresa com valores e suor? Basta um amigo ter informações privilegiadas e o empresário vai ganhar milhões de euros na subida da Bolsa.

Não adianta. Faz parte do código genético brasileiro querer levar vantagem só com bravura. A ética protestante, que poderia ajudar um pouquinho, nunca emplacou. Talvez, como aconteceu com Israel, o Brasil encontre o seu caminho depois de bater no fundo do poço. Enquanto isso, haja paciência com evangelistas prometendo mundos e fundos na televisão e o prende-solta de banqueiros, políticos e empresários desbaratados pela Polícia Federal.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.

Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

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