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Ícones da ortodoxia

Ícones da ortodoxia

Atualizado: Terça-feira, 1 Junho de 2010 as 10:51

Leio História do medo no Ocidente, de Jean Delumeau (Companhia de Bolso). Vou devagar, o volume de informações excede meu hardware. Mas já aprendi sobre o pavor que o mar impingia aos antigos navegadores, que acreditavam em leviatãs, sereias e polvos gigantes.

Antes de partir, muitos sacrificavam animais para não serem tragados, caso ultrapassassem as linhas imaginárias do medo. O Cabo do Bojador, na costa ocidental da África, era considerado o fim do mundo. Dizia-se que os ousados nunca voltavam.

Delumeau afirma que ''os elementos desencadeados - tempestade ou dilúvio - evocavam para os homens de outrora o retorno ao caos primitivo. Deus, no segundo dia da criação, separara 'as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento' (Gênesis 1:7). Se, com a permissão divina, está claro, elas transbordam novamento os limites que lhes haviam sido designados, o caos se reconstitui'' (pag. 62).

Delumeau relata como se desenvolveu o medo de bruxas, feiticeiros e magos que acabaram na fogueira inquisitorial. O historiador francês afirma ainda que alguns ícones da ortodoxia, geralmente invocados para sustentar argumentos conservadores, respiravam o mesmo ar supersticioso de seus dias.

Santo Agostinho acreditava em astrologia. Empenhava-se, inclusive, em distinguir a lícita da ilícita. Suas Confissões (V, cap. 1º) admitem que as estrelas podem ser os ''sinais anunciadores dos acontecimentos, mas elas não os rematam''. Pois, ''se os homens agem sob a coerção celeste, que lugar resta ao juízo de Deus, que é mestre dos astros e dos homens?''.

O que Delumeau diz de Lutero, que tem a reputação de ser implacável contra a crendice popular?

Anunciando a um correspondente a morte do príncipe-eleitor de Saxe (em maio de 1525), Lutero esclareceu: ''O sinal de sua morte foi um arco-íris que vimos, Philippe [Melanchthon] e eu, à noite, no último inverno, acima da Lochau, e também uma criança nascida aqui em Wittenberg sem cabeça, e ainda uma outra com os pés ao contrário'' (pag.110)

Eis o que afirma sobre o venerado Calvino:

Ele opõe então a astrologia ''natural'', fundada ''na conformidade entre as estrelas e planetas e a disposição dos corpos humanos'', ''à astrologia bastarda'', que procura adivinhar o que deve acontecer aos homens e ''quando e como eles devem morrer'' (pag. 108).

Advirto, portanto, os austeros defensores da mais reta doutrina: cuidado quando precisarem alicerçar suas afirmações dogmáticas citando a verdade de Agostinho, Lutero e Calvino. Eles, iguais a nós, eram humanos. E também falaram tolices.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim   é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.

Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas ''Ultimato'' e ''Enfoque Gospel''. Como escritor, Gondim é autor de livros como ''O Evangelho da Nova Era'', ''Santos em Guerra'', ''Saduceus e Fariseus'', ''Creia na Possibilidade da Vitória'', ''É Proibido'' - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, ''Artesão de uma Nova História'', ''Como vencer a Inconstância'', ''A presença imperceptível de Deus'', ''Do Púlpito 5'', ''O que os evangélicos (não) falam'', ''Creio, mas tenho dúvidas'', e ''Sem perder a Alma'', o mais recente.

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