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De que fomos feitos?

De que fomos feitos?

Atualizado: Sexta-feira, 18 Maio de 2012 as 2:33

Fomos tecidos como tramas enredadas nos fios da espera. Nossa sorte está enlaçada nos abraços e nas despedidas. Aprendizes de feiticeiros, misturamos contingência e necessidade na receita que pode nos ajudar a achar o significado da esperança. Somos um enigma feito de susto e descanso, sombra e luz, tragédia e comédia, acerto e erro.

Fomos talhados no único granito que o tempo não corrói: a impermanência. Não passamos de um conto ligeiro. Trágicos, descemos as escarpas do tempo. Inebriados pelas alturas, invejamos as águias que passeiam, sobranceiras, acima da nossa pequenez. A brevidade parece não nos assustar. Preferimos os patamares sólidos a ousar. Passamos anos sem ver as magníficas paisagens que os abismos nos oferecem. Tolos, resignamo-nos à mesmice; sem coragem para driblar a morte esperamos que ela tome iniciativa.

Contentes, aceitamos a sina de nos manter esboços de uma imaginação nunca concretizada. Aceitamos fantasias que nos mascaram de nós mesmos. Quebramos espelho para não encarar os absurdos que nos esbofeteiam. Sabemos da estupidez da miséria, mas nos convencemos: não há muito o que fazer – também jogamos para bem longe, tudo além-mar fica distante. Não faltam bons argumentos para explicar a insanidade da guerra – qualquer uma pode ser considerada “guerra justa”. Se nos deparamos com a injustiça, a gaveta da providência divina cabe um horror a mais. Se por um algum momento parecemos realistas e peitamos o mal, na maioria das vezes não passamos de tímidos, indiferentes para com os indefesos. Se propagandeamos altruísmo, o próximo mais próximo sabe: somos interesseiros.

Fomos formados com réstias dos desejos de nossos pais. Crescemos para cumprir vontades e expectativas alheias. Por mais que nos blindemos, não achamos jeito de preservar o coração dos germens da maldade. No esforço de não sucumbir à ferocidade humana, tentamos achar poesia nas estrelas e romantismo na lua. O mundo nos asfixia. As tribulações nos fadigam. As tempestades nos desesperam. Daí a necessidade de dizer que o arco-íris, mais que um fenômeno físico, traz mensagem divina.

Apenas respirar não basta. Ansiamos pela emoção de soluçar com a ternura. Teimamos em brindar momentos significativos, mesmo que efêmeros. Inconformados com a afobação dos anos, confessamos às paredes: amamos viver.

Fomos criados faíscas do Mistério. A eternidade cabe dentro da gente. Por isso não nos contemos nas cercas. Nossa vida pulsa com inquietude. Nascemos para repensar roteiros, queimar bulas, rasgar mapas. Demandas e ameaças do rei não nos intimidam. Se nos dizem este é o melhor mundo possível, rebeldes, imaginamos outro reino. Corajosos, encaramos a sina do possível não-ser com esperança. Espezinhamos a ameaça da fatalidade. Fazemos música com o fado.

Contraditórios, claudicantes, cruéis, benignos, solidários,  artífices do bem, fomos feitos do amor de Deus.

Soli Deo Gloria

 

Por Ricardo Gondim

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