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Descobertas

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Atualizado: Terça-feira, 21 Julho de 2009 as 12

Descobri que tenho pés de barro. Há algum tempo, achava-me imbatível. Em minha suficiência, imaginei que sendo fiel a Deus, nenhum mal me alcançaria. Desafiei a vida. Realmente acreditei que as asas do Todo-Poderoso se abririam sobre mim e nada ou ninguém atravessaria aquela blindagem emplumada para me ferir. Em nome da fé, dei o melhor, certo que seria um sucesso. Frequentei todos os seminários para aprender "princípios universais para uma vida triunfante". Pensei que a existência se engrenava numa perfeita relação de causa e efeito.

Descobri que não sou onipotente, apenas um peregrino inadequado e efêmero. Achei que conseguiria controlar as variáveis do dia-a-dia com eficiência. Considerei a pedagogia que aprendi no seminário a mais eficiente para educar filhos. Disciplinei com "vara" - me instruíram que a Bíblia mandava bater. Trabalhei de domingo a domingo; eu esperava receber o devido galardão dos meus esforços. Ensinei as pessoas a semearem; tratava os resultados dessa "lei" como líquidos e certos. Afirmei que a salvação da alma acontece quando se acredita em doutrinas aprovadas pelos legítimos cânones da tradição pietista-reformada-pentecostal.

Descobri que não sei tudo. Tolamente, rebati "heresias" com argumentos incontestáveis. Promovi seminários para destruir raciocínios "apóstatas" (mal sabia que o bumerangue voltaria para me acertar o rosto). Quando me levantei para falar, estava tão convencido que era o dono da verdade que ensurdeci para as manifestações de bondade que me assediavam. Soberbo, gritei a pleno pulmão a minha certeza. De dedo em riste, fiz de minha interpretação a única verdade possível.

Descobri que não sou cidadão do mundo. Respirei o ar asfixiado do bairrismo. Dourei o meu gueto. Restringi a leitura. Fui treinado a não gostar de quem não era "salvo" - só que muitas vezes os "salvos" que eu me forçava para gostar, não passavam de pessoas mesquinhas, traiçoeiras e banais. Por volta dos quarenta anos, conheci gente mais feliz, mais íntegra, mais honesta, que muitos "santos". Passei a olhar a vida por prismas nunca considerados. Engatinhei na meia idade.

Devido a tanta soberba, quebrei a cara, feri pessoas, paguei mico, chorei. Frustrei-me. Neurotizei amigos. Só agora reconheço que a vida não segue sobre trilhos. As lógicas religiosas não funcionam. Abaixei a crista.

Entendo que não sou mais um adolescente. Mas não desespero. Há tempo, não sei quanto, mas pretendo eternizar o instante precioso. Quero sorver a vida sem as inclemências que amordaçaram meus sorrisos. Anseio por doçura. Tenho sede de bondade. Busco a grandeza de quem ainda sabe rir e chorar.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia. Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas "Ultimato" e "Enfoque Gospel". Como escritor, Gondim é autor de livros como "O Evangelho da Nova Era", "Santos em Guerra", "Saduceus e Fariseus", "Creia na Possibilidade da Vitória", "É Proibido" - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, "Artesão de uma Nova História", "Como vencer a Inconstância", "A presença imperceptível de Deus", "Do Púlpito 5", "O que os evangélicos (não) falam", "Creio, mais tenho dúvidas", e "Sem perder a Alma", o mais recente.

Site oficial:

www.ricardogondim.com.br

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