MENU

Entre o otimismo e o pessimismo

Entre o otimismo e o pessimismo

Atualizado: Sexta-feira, 31 Janeiro de 2014 as 12:30

otimismo e pessimismoVale o chavão: Ninguém sabe o tempo de sua existência. Basta uma breve arritmia cardíaca. Sem oxigênio, o cérebro morre. Em um simples vacilo, o menino, que imaginava viver décadas, jaz em um caixão e todos os roteiros imaginados pelos pais se acabam. A mocinha pode se deparar  com um depravado e perder não apenas a virgindade, mas a própria vida. O jovem sente um ano se arrastando sem pressa. Por outro lado, o senhor, nota os dias acelerados. O ancião sempre adia o dia final para depois. Pior, ele percebe que o passado se alonga, impiedosamente.
 
A mentira da onipotência faz com que se anseie todo controle para evitar o sofrimento. Na luta para acabar com as contingências, vem a pretensão de ser capaz de blindar-se dos percalços. É tolice tentar saltar por cima da crueza existencial. Por mais que alguém se esforce, nunca vai burlar o insólito. Nenhuma religião iça seus fieis a patamares que a maldade não alcança. Acidentes, tragédias naturais e até a injustiça chegam na casa de todos. Alegrias são comuns. Há tempo de rir e tempo de chorar. Há tempo de dança e tempo de luto. Pretensos arquitetos do Nirvana, Paraíso e Shangrilá não se conformam com a dureza do mundo, eles teimam em acreditar que suas conjecturas bastam para transfigurar a realidade que fantasiam.
 
O clichê é surrado: A vida é uma maratona. Para correr bem, é necessário reconhecer que não adianta devaneio onipotente. Em minha última maratona*, dois pensamentos não me largaram: devo cumprir o percurso; preciso terminar vivo. Fui obrigado a dosar minha energia. Qualquer afobação significaria parar. No percurso eu sequer podia invejar o desempenho dos outros. Consciente da idade, dos limites do corpo e do tanto que treinei, engoli seco: gente que eu julgava menos capaz me ultrapassou. Uma maratona é um desafio consigo mesmo. Eu competi com minha mente, meus músculos, meu pulmão. As mais de quarenta e duas mil passadas que a prova exige não podem ser compartilhadas. Durante a prova, observei vários caídos, enauseados, paralisados por cãibra e celebrei a cautela. O ser comedido me levou até o fim.
 
Alucinação tempestiva é bem peculiar no reino de Narciso. Todo o que delira se acha apto para modificar o trajeto que o mundo impõe na condição humana. A cientista se torna tão fundamentalista quanto qualquer fanático quando tenta determinar matematicamente os acontecimentos. É próprio da modernidade positivista buscar mecanismos que ponham tudo sob estrita ordem. Os religiosos dão um passo além: eles almejam acessar Deus e com a ajuda do sobrenatural, anular qualquer eventualidade.
 
Tanto otimistas, que antecipam um mundo cor de rosa, como pessimistas, quem só esperam um mundo sombrio, são tolos. Ambos acreditam na inexorabilidade do amanhã – bom ou ruim. Só os realistas reconhecem as limitações que a existência impõe. Não adianta sonhar com asas ou com teletransporte espacial. De nada resolve fechar os olhos e repetir uma prece milhares de vezes. Todos caminhamos rumo à imprevisibilidade. Essa verdade pode incomodar muito, mas tem a vantagem de nos conectar com a realidade e, por isso, é libertadora.
 
Soli Deo Gloria
*Terminei a Maratona em 4 horas e 18 minutos
 
 
- Ricardo Gondim
 

veja também