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Jesus: a negação do ídolo, a afirmação de Deus

Jesus: a negação do ídolo, a afirmação de Deus

Atualizado: Terça-feira, 17 Setembro de 2013 as 11:57

JesusLamento que o fundamentalismo cristão tente firmar suas certezas como uma ortodoxia. O esforço não é novo. Desde as narrativas mais antigas, Jesus procurou mostrar que os fariseus queriam passar moralismo legalista como piedade e zelo; desejavam  que a verdade deles tivesse a força da fé. O fundamentalismo, mais que um apanhado teológico, é atitude que tenta proteger a Bíblia dos ataques de quem ele considera herege. Como guardião do templo, o fundamentalista crê que deve garantir a perpetuidade da instituição igreja. Pode-se, então, descrever o fundamentalismo como esforço de sair na defesa de Deus das possíveis diminuições de sua majestade.
 
A ironia é que todo esse zelo se estriba em pressupostos da filosofia grega. Quando um fundamentalista pensa sobre Deus, ele parte de conceitos helênicos. Quando sistematiza sua visão de mundo, permanece na cultura grega. Ao repetir certos dogmas, afirma inadvertidamente a máxima aristotélica de que a divindade é motor imóvel. Na filosofia, Deus é percebido tão absolutamente perfeito, que jamais experimenta qualquer mudança. Sua perfeição o encalacra na imobilidade.
 
Eis o porquê de Paulo dizer que Jesus Cristo foi escândalo e loucura para gregos e judeus. Os gregos procuravam explicar Deus a partir de absolutos metafísicos e os judeus aguardavam um messias poderoso.
 
O judaismo criou, por séculos, a expectativa ufanista de que o Ungido de Deus se manifestaria como grande conquistador. Para os setores mais politizados de Israel, ele viria como o libertador final – uma encarnação melhorada e glorificada de Moisés. Para os segmentos mais ortodoxos, fariseus e levitas, Cristo re-avivaria a obediência da Lei –  com um profetismo mais exuberante do que o de Elias.
 
Nessas duas percepções – gregas e judaicas – Jesus de Nazaré mostrou-se um retumbante fracasso. Ele não deixou colar em si que Deus fosse o emissário de um supermessias ou o movedor imóvel de Aristóteles.
 
Jesus causava horror: se o Deus dos fariseus zelava pela lei, ele insistia que os mandamentos podem ser flexibilizados pela misericórdia. A mulher apanhada no próprio ato do adultério experimentou a força de um amor capaz de vergar a rígida lei: Onde estão os teus acusadores?. Eu não te condeno, vá em paz e não peques mais. A mulher siro-fenícia, o centurião romano, a senhora impura que padecia com uma menstruação crônica, o endemoninhado que vivia em sepulcros, o cego da calçada, todos provaram que qualquer um pode aproximar-se de Deus sem intermediação sacerdotal e sem depender do cumprimento da lei.  O Nazareno acolheu os não-eleitos. Ele democratizou, universalizou, a pretensão de qualquer pessoa achar-se escolhida. Para ele, ninguém foi providencialmente preterido. A graça banalizou a predestinação.
 
Jesus não amedrontava os ouvintes apresentando um Deus que persegue rebeldes feito um bedel cósmico. Pelo contrário, o Deus de Jesus é Pai ferido que espera o filho desde o alpendre da casa. Mais que isso: Deus corre ao encontro do filho arrependido. E mesmo se o filho cheirar como um porco, ele o cobre de beijos.
 
Ricardo Peter intuiu corretamente o porquê do ódio dos fariseus contra Jesus:
 
Os fariseus começaram a perceber que Jesus estava mudando radicalmente a maneira de entender quem é Deus. Este Deus teria podido provocar confusão e dispersão entre as pessoas religiosas. O comportamento do Deus anunciado por Jesus, do Deus que demonstra um amor incondicionado pelos pecadores, começava a colocar o Deus dos fariseus na sombra. Tinha início uma luta de ‘Deus contra Deus’.
 
Os religiosos contemporâneos de Jesus queriam que Deus excedesse o poder de Baal. Jesus se mostrava o ântonimo de uma divindade territorial e melindrosa. Ele era o salvador despido da arrogância. As pessoas aguardavam um líder que reunisse milícias mais arrasadoras do que as legiões romanas. Jesus, todavia, pegava crianças no colo enquanto ensinava que o Reino pertence a elas. Os pobres nacionalistas ambicionavam guindar Israel à liderança do mundo para depois vingar os vários séculos de opressão. Jesus, contudo, abria o rolo da lei para citar as palavras do profeta: O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para pregar boas notícias aos pobres.
 
Assim, tomados de indignação, os religiosos conspiraram para matá-lo. – Se Jesus era a expressa imagem de Deus, merecia ser eliminado. Um Deus frágil não serve aos interesses da religião – qualquer uma.
 
Jesus revelava Deus, que não só eclipsava os pressupostos dos fariseus, como destruía os de Aristóteles. Jesus não se parecia em nada com a idéia de Deus como ato puro ou motor imóvel. No Carpinteiro amigo de Maria Madalena, a Divindade não se mostrou apática. O Emanuel, o Deus conosco, se moveu de viscerais afetos por uma viúva que enterrava o filho e chorou diante da sepultura do amigo. A dor humana dói em Deus. Isaías (63.9) antecipou a aflição de Deus ao dizer: Em toda a angústia deles, foi ele angustiado.
 
Ricardo Peter, com sua intuição sobre a revelação de Deus que Jesus brindou o mundo afirmou:
 
O Deus de Jesus assume o humano a tal ponto que liberta o homem da exigência de ser como Deus. Deus contém em si, agora o máximo de humanidade. Deus encontra-se imerso no humano. O ‘Reino’ de Jesus não requer seres excepcionais, melhores que o ‘resto dos homens’, que se preocupam em ser por eles contaminados.
 
Jesus incomoda sobremaneira os religiosos por mostrar que Deus é amor; e este amor relativiza qualquer dogmatismo. Nele as exigências e os ritos perdem força. Os conceitos milenares de um Deus inabalável e severo precisam ser jogados fora depois que se conhece o Bom Pastor.
 
Os que não distinguem entre o Deus grego ou fariseu e o Deus que Jesus encarnou têm razão em decretar a sua morte. A expressão Deus está morto não passa de um grito ressentido de gente que se defrontou com a noção errada de Deus; a divindade anunciada como um déspota obcecado pelo poder, realmente, precisa ser sepultada.
 
O Reino que Jesus de Nazaré revelou não tem paralelo com os reinos humanos. Sua proposta de vida continua despercebida dos poderosos, pois acontece entre pequeninos e no meio de desprezíveis: grãos de mostarda, ovelhas indefesas, pessoas ineficientes, servos inúteis, pecadores indignos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, estrangeiros, exorcistas informais.
 
Deus escolheu esvaziar-se para revelar-se no Filho, Jesus Cristo. Todas as outras divindades merecem ser descartadas como ídolos.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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