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Jesus, o escolhido dos milhares

Jesus, o escolhido dos milhares

Atualizado: Sexta-feira, 2 Agosto de 2013 as 7:57

cruz - jesus Que personagem foi esse que varou os séculos e mesmo agora, milênios depois, continua a impressionar homens e mulheres em todos os lugares? O que há de especial no filho de um carpinteiro e de uma jovem camponesa que saiu da obscuridade aos trinta anos, não deixou uma só linha escrita para a posteridade, não arregimentou nenhum soldado, não conquistou nenhuma cidade, mas continua nos lábios do crente, na súplica do doente e no grito de esperança do sonhador?
 
Que verdades esse andarilho judeu falou? O que ele dizia enquanto visitava os cemitérios para tocar em leprosos? Como ele acolhia as mulheres de vida duvidosa e como se deixava tocar por elas? Quem foi ele? O que o despertou em seus estudos da Torá para incompatibilizar-se com as elites poderosas de seu tempo? Como conseguiu conciliar pescadores sem educação formal e contestadores do regime imperial de Roma? Como esse grupo heterogêneo se tornou uma das forças transformadoras do mundo antigo? Quem foi, na verdade, aquele homem, dócil com os pobres, condoído com as viúvas e corajoso para libertar a adúltera das malhas de uma lei discriminatória e misógina?
 
Esses questionamentos vararam os séculos e continuam intrigando historiadores, confundindo filósofos e perturbando as mentes mais críticas.  Por sua vida singela, ele não merecia estar confinado aos relatos sobre rebeldes que morreram com suas pretensões messiânicas? Comparado aos pensadores do Iluminismo, ele não deveria passar de um judeu místico e irrelevante? Diante dos argumentos nietzschianos, ele não poderia ser mais que uma muleta que os homens se valeram para enfrentar as agruras da existência? Diante da pena precisa de Freud, ele não deveria ser mais que um perturbado pelo superego, falando mais de sua própria doença do que da alienação dos outros?
 
Contudo, Jesus continua amado de milhões; permanece o tema tanto das canções de ninar como da música espetacular de Hendel; é a inspiração dos falidos para caminhar adiante; o patrono dos perdidos e o paraninfo dos esquecidos. Para o poeta da melancolia, é a estrela da manhã. Para o poeta da paixão, o lírio dos campos. Para o poeta do existencialismo, o artesão de um novo amanhã. Para o poeta da esperança, o norte da bússula. Jesus é pedra angular no lodaçal da vida. As metáforas se somam, mas falham em articular o seu encanto.
 
Através dos séculos, repetidas religiões narraram lendas sobre a visita dos deuses entre os homens. A encarnação da divindade, como foi contada pelos primeiros cristãos, não era totalmente inédita. Tanto na Babilônia como Grécia e na própria Roma, os deuses já tinham se feito de gente. A novidade cristã, sem precedentes históricos, veio da humildade. Jesus não nasceu de um modo espetacular.
 
Numa noite qualquer, que jamais será cravada do calendário, só um punhado de pastores pobres, que guardava seus rebanhos nas caladas da madrugada, percebeu o aviso das estrelas e das hostes celestiais.
 
Em meio às inquietações do seu pai, José, cheio de incredulidade e medo, fez-se necessário a intervenção de um anjo, para avisar que a semente que Maria carregava não era fruto de um adultério, mas a virtude do Espírito Santo. Exilada no Egito, a família experimentou a vida dura de todo refugiado – certamente sem água e com um mínimo de comida.
 
Jesus viveu em obscuridade até os trinta anos, trabalhando e vivendo o cotidiano penoso – igual aos de seus pares. Não se sabe de qualquer milagre ou de qualquer ação espetacular que mitigasse os seus dias. Jesus aprendeu no que sofreu.
 
Até que um dia, consciente de sua missão, ele partiu para a periferia, não para o centro do poder. Seu mandato não impunha, não exibia, não reivindicava. Jesus queria tão somente viver, partilhando dores, celebrando alegrias, inspirando sede de justiça e fazendo o bem. Nele, os pobres achavam o bálsamo para as feridas da alma, o lenço para as lágrimas do espírito e o ombro para o coração fadigado. Desde o seu nascimento já se via a kenosis – esvaziamento, rebaixamento. Ele jamais empunharia um cetro, seu destino seria uma bacia de lavar pés e, depois, uma cruz.
 
Ele não quis liderar um movimento político que contestava o imperialismo como imaginou Judas, o Iscariotes. Ele não quis revolucionar o judaísmo como temeram os chefes do templo. Ele não foi um luminar da filosofia como suspeitaram os concílios que o sucederam. Ele não disputou e nem contendeu com fundadores de outras grandes religiões. Jesus procurou apenas libertar as pessoas do medo de um Deus vingador. Ele veio quebrar as paredes que separavam as pessoas por nacionalidade, gênero e status social. Ele se esforçou para comunicar que o tabernáculo de Deus é o coração de seus filhos. Ele queria salvar as pessoas dos processos que as matavam.
 
Jesus, o amigo de Maria Madalena, mostrou ser possível amar sem inventários da vida passada. Jesus, o cidadão de Nazaré, mostrou ser possível rejeitar um sistema corrompido por um rei – que ele chamou de raposa – , sem insuflar ódio.
 
Jesus, a metáfora humanizada, a poesia vertebrada, o verbo adensado, a música balbuciada permanecerá, apesar da religião que se constituiu em seu nome, Conselheiro maravilhoso e príncipe da paz. Ele é o escolhido dos milhares para mim.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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