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Meu pentecostalismo sobrevive

Meu pentecostalismo sobrevive

Atualizado: Terça-feira, 10 Dezembro de 2013 as 7:35

pentecostalismoNasci católico. Criei-me presbiteriano. Tornei-me pentecostal. No catolicismo, aprendi a reverenciar o sagrado. No presbiterianismo, a pensar a fé. No pentecostalismo, a experimentar Deus.
 
Fui iniciado no pentecostalismo de joelhos. No silêncio de uma madrugada, na Assembléia de Deus do Templo Central em Fortaleza, meu corpo foi sacudido pelo numinoso - por uma manifestação do transcendente, isto é: de algo além do natural. Em verdadeira agonia, eu suplicava a Deus que derramasse o Espírito Santo sobre a minha vida; queria que o Espírito transbordasse em mim como chuva torrencial.
 
A alvorada estava naturalmente chuvosa. Neblinava no telhado. De repente atravessei um portal. Fui à dimensão misteriosa e assombrosa do divino. Em êxtase, gaguejei em uma língua estranha. No limiar do mistério tremendo, cruzei a barreira da linguagem. Balbuciei uma língua primal, pueril – glossolalia como chamam os fenomenólogos da religião.
 
Paul Tillich, sem saber, redimiu homens e mulheres que tiveram experiências pentecostais iguais a minha. Para ele, o êxtase religioso não é um estado irracional, mas uma maneira de conhecer o que está além da percepção cotidiana ou natural. O êxtase religioso seria a maneira do profundo falar ao profundo. Concordo com ele, pois noto que a busca da linguagem com o profundo é comum na experiência humana; mulheres e homens a desejam, nem que seja através de meios artificiais ou no sonho.
 
Fiquei encantado com a experiência pentecostal. Inundado por uma Presença, pela primeira vez eu não me senti constrangido a catequizar. Eu vivenciava algo que transcendia a doutrina. É mais fácil senti-lo do que explicá-lo. Se desejava que outros tivessem experiência parecida com a minha, jamais poderia indoutriná-los. A possibilidade de experimentar o divino, o fascínio que mistura medo e alumbramento, é intransferível e alegria de se sentir tocado pelo dedo de Deus, incomunicável.
 
O pentecostalismo ganhou impulso no início do século XX entre negros, marginalizados sociais e pobres nos Estados Unidos. Em um armazém nos arredores de Los Angeles, na periferia da periferia, um grupo desses párias afirmou que Deus o tinha visitado. A mensagem era clara: Deus, o Majestoso, elegeu um povinho como seu. E Deus escolhia não por ser exato na doutrina, sequer por possuir pedigree nobre, ele elegia por mera graça.
 
Ao se verem assim, especiais, os pobres desejaram se aproximar ainda mais de Deus. Mas como buscar a Deus? Não só de joelhos, na disciplina da oração. Eles se colocaram a caminho, na missão de dizer a outros outcasts: vocês também são amados. Na sede de experimentá-lo, no anseio de ser imerso no Espírito, reside o anelo de compartilhar vida, esperança, fé. Lembro-me das horas, literalmente horas, em que orei pedindo basicamente uma coisa: Preciso mais de ti. A resposta nunca se resumiu na experiência extática do sobrenatural. Quando Deus se doa, ele gera anseio de visitar os indigentes da Santa Casa de Misericórdia no sábado pela manhã e o presídio feminino no mesmo sábado a tarde – e no domingo, antes do amanhecer, tomar o ônibus até o Instituto Penal Paulo Sarasate. O significado exato de precisar mais de Deus não se resume ao místico, ele sempre desemboca em serviço.
 
Desafiado a experienciar o coração de Deus, vivenciei os afetos divinos no rosto sofrido do próximo. A reta doutrina do pequeno catecismo perdeu força nas vezes em que atravessei o oceano do preconceito, do comodismo e da intolerância em direção a quem necessitava.
 
Devidamente expulso da igreja presbiteriana, assumi a fé pentecostal – naquele tempo os evangélicos tratavam os pentecostais como hereges. Obrigado a engolir sarcasmos maldosos, não fui para o armário. Eu estava entusiasmado – valho-me, propositalmente, da palavra entusiasmo por causa de sua raiz: entheos = “cheio de Deus”.
 
De lá pra cá, o mundo mudou. Os tempos são outros. O pentecostalismo ganhou respeito. Evangélicos passaram a aceitar os pentecostais como irmãos na fé – afinal de contas, eles precisam do seu fantástico crescimento numérico para se mostrarem grandes.
 
Contudo, uma fé passional me acompanha desde aqueles dias. Na busca de ser cheio de Deus, aprendi a chorar até encharcar lençóis, a implorar para ser instrumento nas mãos de Deus, a querer ser amigo de proscritos, a atravessar décadas sem férias, a suar nos sermões e a tentar nunca ser cínico em meu empenho pela causa de Jesus.
 
Minha história, portanto, está atrelada a aquela bendita noite. Aceitei o convite de ir a uma reunião de oração, busquei o Espírito Santo, e nunca mais fui o mesmo.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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