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Minha ovelha negra

Minha ovelha negra

Atualizado: Quinta-feira, 2 Dezembro de 2010 as 4:09

O Felipe é minha querida ovelha negra.

Finalmente ganhei um neto negro e faço festa com a sua chegada. O juiz sacramentou a adoção do Felipe, dando-me a bem aventurança de ser seu avô não só de fato, mas também de direito e isso me faz muito bem.

Entendo que, com seus três anos de vida, o Felipe ainda não me compreende, mas espero que seus pais, Villy e Carolina, guardem este texto para que um dia ele o leia como minha carta de amor.

Celebro a descendência africana do Felipe. Do chão da África, Deus construiu um jardim e a partir dos seus ancestrais, as nações se formaram. Seus antiquíssimos trisavôs garantiram a preservação de nossa espécie; sem a obstinada determinação dos negros de não sucumbirem à rapinagem e desprezo colonialista, não se sabe o que seria da humanidade.

Celebro a negritude do Felipe. Infelizmente, a cor preta tem sido associada a coisas ruins. Ensinaram que os bandidos usam chapéu tinto; a ovelha que envergonha o rebanho é sempre a mourisca.  Quando chegaram os pálidos missionários no Brasil, foi ensinado que o pecado tem a cor do escravo. Deve ser por isso que em português, "denegrir”  é sempre usado para detratar. Tornou-se comum dizer, quando uma situação se complica, que “a coisa está ficando preta”. Também não concordo que os ambientes opressores precisem ser sempre os “sombrios”.

Os esforços para associar o preto com tudo o que não presta foi proposital. Para justificar a maldade que infligiriam sobre nações como bantus, etíopes e nagôs, os escravagistas precisaram demonizar as culturas africanas e,  perversamente, jogar milênios de história na lata do lixo.

Eu, porém, amo a cor da pele do meu Felipe, tão linda quanto as pérolas e diamantes de nanquim;  seus olhos me encantam como o ébano.

Tenho fortíssimas suspeitas de que o semita Jesus, foi quase tão escuro como meu Felipe. Aliás, eu sempre intuí que Deus tingiu o universo de escuridão e coloriu de piche o véu das noites para que a humanidade reconhecesse que pretume e eternidade também se combinam.

Agora sou  um avô de alma negra! Sinto-me honrado por ter um descendente que esbanja melanina.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim   é pastor da Igreja Betesda de São Paulo e presidente da Convenção Nacional da denominação. Presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos. Gondim é casado com Silvia Geruza Rodrigues, pai de três filhos - Carolina, 29; Cynthia, 27; e Pedro, 19 - e avô de Gabriela, Felipe e Felipe Naran. Nascido em 1954, em Fortaleza, Ceará, é formado em Administração de Empresas. Viveu nos Estados Unidos onde obteve formação teológica no Gênesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.

Ministra palestras e conferências. É colunista das revistas evangélicas ''Ultimato'' e ''Enfoque Gospel''. Como escritor, Gondim é autor de livros como ''O Evangelho da Nova Era'', ''Santos em Guerra'', ''Saduceus e Fariseus'', ''Creia na Possibilidade da Vitória'', ''É Proibido'' - obra indicada ao prêmio Jabuti, de literatura brasileira -, ''Artesão de uma Nova História'', ''Como vencer a Inconstância'', ''A presença imperceptível de Deus'', ''Do Púlpito 5'', ''O que os evangélicos (não) falam'', ''Creio, mas tenho dúvidas'', e ''Sem perder a Alma'', o mais recente.

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