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O povo não pode silenciar

O povo não pode silenciar

Atualizado: Quarta-feira, 26 Junho de 2013 as 1:50

protestoAntes da passeata, o metrô sacudia nossos corpos de um lado para outro como se  programado para aquela cadência. O barulho das rodas, raspando os trilhos, obedecia uma métrica quase musical. Ao ver a multidão naquele sacolejo contínuo, inquietei-me. Eu estava prestes a gritar com outra multidão numa manifestação e o silêncio dentro do vagão me pareceu simbólico.
 
Ninguém falava, ninguém ria, ninguém conversava. Procurei me convencer de que a fadiga de um dia de trabalho os entorpecia. Pensei que talvez estivessem doentes com o mal da desesperança.
 
Antigamente, as filas de bancos, repartições públicas e guichês tinham um elemento social. Enquanto se esperava, fóruns de cidadania aconteciam com frases do tipo: Por isso o Brasil não vai pra frente; Que absurdo; Até quando vamos aguentar calados? Temos que fazer alguma coisa.
 
Em um processo lento, não de repente como disse o poeta, o povo se calou. As pessoas pareciam ter chegado à conclusão de que falar não resolve nada. Economizar-se é recurso de sobrevivência  – por que gastar energia em protesto? Instintivamente, o povo intuiu que devia reservar os gritos para um tempo em que houvesse a possibilidade de mudança.
 
O Brasil se acalmou a conta gotas. Um processo ideológico entorpeceu o povo. A acomodação veio dessa centenária percepção de que o grito da maioria sofrida nunca é ouvido pela minoria rica e poderosa. A tal quietude se transformou em depressão coletiva. O povo do tamborim, da cuíca, que consegue bater samba em caixa de fósforos, espirituoso e brincalhão perdeu, infelizmente, o seu lado moleque. Virou cordeiro que não se debate a caminho do matadouro. Como boxeador cansado, baixou a guarda.
 
Enfraquecidas as resistências, reinou uma estranha bonança; calmaria propositalmente inoculada pela estupidificação da televisão, do jornalismo raso e da religião alienante. A injustiça social passou a ser aceita. O mundo perverso foi admitido como normal. Os mais pobres já andavam cabisbaixos pela miséria irreversível e o processo de sossegar a classe média foi menos difícil. Não se viam no Brasil panelaços contra o sucateamento do ensino básico, contra o abandono da universidade e contra a violência urbana endêmica. Sumiram os palanques onde tribunos propõem caminhos alternativos. As passeatas reivindicatórias minguaram. Sobraram as marchas – mais parecidas com carnavais-fora-de-época. Os showmícios dos sindicatos só atraíam gente, distribuindo casa e carro por sorteio. Instalou-se um fatalismo perturbador.
 
Sem que cientistas políticos e sociólogos previssem, a brava gente brasileira recobrou o gosto pelas ruas. Restauraram-se resistências. A periferia se sentiu animada a voltar às praças para defender sua cidadania. A classe média despertou. O povo deixou de ser ordeiro e pacífico. Mostrar-se combativo e reivindicativo virou virtude. O Brasil acordou para outra realidade: existe uma paz que é própria dos covardes; e os verdadeiramente vivos não se conformam com a serenidade dos cemitérios. Com fome e sede de justiça, descobriram que os poderosos só cedem os seus privilégios quando há insurreição popular.
 
A indignação das ruas explodiu com estudantes – sejamos gratos a eles pela vigilância e resistência. A obstinação deles tem que ser mantida. Conquistados os 0,20 centavos e derrubada a PEC37, passemos a lutar pelas reformas política e fiscal. Alguns repetem a cantilena de que o povo não sabe o que quer. Sabe sim: basta diminuir a corrupção para que o povo tenha escolas e hospitais públicos dignos, transporte confiável e segurança nas ruas.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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