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O segredo de não viver em vão

O segredo de não viver em vão

Atualizado: Terça-feira, 4 Junho de 2013 as 9:46

vida felizUm homem qualquer morreu semana passada. Pobre pessoa. Consciente dos deveres, nunca se atrasou na hora de bater o relógio da fábrica. Jamais perdeu o trem. Impensável imaginá-lo atravessando um sinal amarelo. Correto, sempre pagou suas prestações na data. Vestia a camisa até puir o colarinho. Elegeu os candidatos em quem votava. Leu o jornal diariamente.
 
Assíduo membro de uma igreja, submeteu-se às exigências da religião. Manteve-se cioso de agradar a Deus. Trabalhou incansavelmente nos mutirões do bairro. Contribuiu com entidades filantrópicas. Prevendo que partiria, pediu um enterro comedido, sem muita emoção; quis seu último evento parecido com a sua existência. Assim, em sua última jornada, amigos, parentes e curiosos caminharam circunspetos pelas alamedas do cemitério – as lágrimas foram poucas.
 
O homem devia ter aprendido que viver significa gostar, mas gostar mesmo, de poesia. Se atinasse que o poema não só dá ritmo à palavra, mas encontra o pulsar do universo, sincronizaria a alma a esse pulsar; e nessa magnífica, porém silenciosa palpitação, ouviria o Divino. Ele também acharia tempo para a música. Experimentaria na mistura da melodia com o poema, os sons do paraíso. Sorriria com salmo, noturno, toada, réquiem, cantata, ópera, polca, samba, hino, recital, jazz, bossa-nova.
 
O indivíduo se esvaiu sem notar que viver e amar os livros se confundem. A vida se multiplica na leitura. Crônica, ficção, ensaio, têm a força de fazer a vida transcender para mundos imaginários. O livro disseca a alma humana, enaltece a virtude, expõe a crueldade; e quando não sofre censura, confronta as tiranias.
 
Triste vê-lo passar pela vida com tanto comedimento. A pobre personagem nunca aprendeu a transformar cada refeição em um ágape, cada aperto de mão em uma aliança e cada abraço em uma declaração de amor. Caso conseguisse se conduziria pela aragem do amor. Desatento, sem tanto siso, rumaria à sina de todos os mortais com um breve sorriso nos lábios. Menos iracundo, não esperaria pelo porvir, anêmico. Receoso dos riscos, esqueceu que se a cachoeira despenca no precipício, ela nos brinda com o arco-íris.
 
Sua vida não seria vã caso aprendesse a gostar de vinho, de doce de leite, de tapioca com manteiga, de filme de amor, de esporte, de bolo de milho, de cafuné, de beijar, de conversar com crianças e de acordar tarde.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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