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Os dias finais

Os dias finais

Atualizado: Terça-feira, 6 Agosto de 2013 as 10:40

 
Atenção, senhores e senhoras, passageiros da nave Terra, aqui lhes fala o comandante. Estamos nos aproximando perigosamente do abismo. Não tenho como reverter a queda. Por favor, apertem os cintos. Fechem os olhos. Rezem. E seja o que Deus quiser.
 
fim dos temposO mundo ruma para seu aniquilamento. O apocalipse, o doomsday, o juízo final, se anuncia nos raios gélidos da insensibilidade. Já se ouve o galope dos cavalos apocalípticos. O rufar dos tambores do Armagedom cadenciam o derradeiro réquiem da humanidade – sem que sobre quem celebre ou assista à missa. Montanhas e vales se aplainarão sem deixar rotas de escape.
 
Falta pouco para o fim. Crescem os ais das mães que amamentam. Os canários deixam de conversar entre si; os corvos procriam velozmente; os vermes fervilham nos abismos da morte.
 
Os prados se convertem em lixões. Os mares bebem esgotos volumosos. Os céus se acinzentam com uma poluição amarronzada. Os furacões se enfurecem se aparente motivo. Os lírios do campo murcham com uma tristeza infinita. Os leões não encontram presas. Os lobos uivam famintos pelas estepes. A cascavel chocalha em desespero. Dante revive. Kafka se sente vingado. Gotham City sai dos quadrinhos. Mad Max é real. Os bárbaros invadem o império. Roma está sitiada.
 
A indústria bélica precisa de guerra; o fabricante de gás lacrimogênio, de ditadores; o mercado de ações, de medo; os religiosos, de culpa; o dono da patente do andistônico, de infelicidade. Mata-se por credo, gênero, orientação sexual, cor da pele, postura política. Séculos depois da escravatura, gente é encurralada em celas de trabalho para que a riqueza se acumule entre um punhado de apaniguados. A miséria dissemina morte aos poucos, para não criar sobressaltos. É ferrugem satânica. Porcos cevados para salame vivem melhor do que gente. Nos meandros da civilização, etnias desaparecem. Nas luzes do saber, a intolerância resiste.
 
Enquanto cientistas dependerem do grande capital, viciado em usura, e a força militar for essencial para o jogo geopolítico, a roleta da vida já está definida. Enquanto perdurar preguiça intelectual na academia, preconceito social, sexual e racial na avenida e covardia moral no palácio, o futuro chegará como o planeta Melancolia, espatifando a diminuta Terra. Enquanto religiosos permanecerem inebriados pelo ufanismo e cegos por suas certezas inoperantes, a esperança continuará nesse estado agonizante. O César dos tempos antigos mudou de nome, ele agora é Mamom. Pela estultícia de muitos, fé se confunde com credulidade; pela arrogância de muitos, volúpia passa por bênção; pela frieza no coração de muitos, só se conhecem santos de paredes caiadas. Enquanto homens e mulheres de boa vontade não se disporem a sujar os pés de lama, arregaçando as mangas, sem zelar por suas zonas de conforto, o diagnóstico da doença que aflige o mundo é terminal. Enquanto não se alastrar a percepção de que iniquidade significa calar diante da injustiça e não fiscalizar moralismo sexual, não há como acreditar em dias melhores.
 
Talvez, quem sabe, algum chute na boca do estômago da humanidade faça renascer a vontade profética – aquiesço, perigosa e infantil – de reverter prognósticos tão ruins. É tarde demais para não esperar que sim.
 
Soli Deo Gloria
 
 
- Ricardo Gondim
 

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